Archive for Agosto, 2007

Quem paga é uma besta

Na Folha (assinante):

O preço da cultura

Levantamento compara o custo de itens culturais em São Paulo com o de outras grandes cidades do mundo, de Buenos Aires

LEANDRO FORTINO
THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

Em São Paulo, paga-se mais caro por um livro de Harry Potter do que em Londres ou em Tóquio. Em compensação, assistir a um espetáculo musical na capital paulista sai mais em conta do que em Moscou, Nova York ou Paris.

Esses são alguns dos dados levantados pela reportagem da Folha sobre o preço de itens culturais em dez das principais cidades do planeta.

São Paulo está entre as 80 cidades mais caras do mundo, segundo a Economist Intelligence Unit, braço de pesquisas do grupo britânico que edita a revista “The Economist”. Comprar livros e freqüentar clubes noturnos obriga os paulistanos a desembolsar uma boa grana.

Em relação ao valor de outros bens e espetáculos culturais, os preços cobrados são, em muitos casos, equivalentes aos de outros grandes centros.

Além de São Paulo, foram pesquisados preços em duas capitais da América Latina (Cidade do México e Buenos Aires, na Argentina) e em duas da União Européia (Londres, no Reino Unido, onde a moeda oficial é a libra, e Paris, na França, representando a zona do euro). Também foram contempladas Moscou (Rússia), Mumbai (Índia) e Pequim (China) -três cidades de países em desenvolvimento econômico, ao lado do Brasil, que formam a sigla Bric-, e mais Tóquio, no Japão, e Nova York, nos EUA.

A pergunta que me faço é: qual homem e mulher de bem quer comprar Harry Potter ou ir a um espteáculo musical?

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Arte de Injuriar

Um ótimo texto do sempre excelente Matias Ayres:

Arte de Injuriar

Há várias maneiras de falar de um autor, quase todas elas erróneas e criticamente nulas; todavia, dizer que o autor é uma besta é uma das minhas dilectas: é cómoda e eficaz, se se preservar certo ar de enfado; a esse “prazer desinteressado no desdém”, de que falava Borges, O Sábio, devemos grandes, talvez as maiores, páginas de Samuel Johnson e do próprio Borges.

Saramago é uma besta? Mas, meus caros, isso não é relevante.

*

Eu colijo os mais notáveis remoques e, permitam-me a modéstia, invento outros que o não são menos; esses meus ditos produzem, quer pelo seu engenho, quer pela gentileza dos convivas, o mais notável efeito, e asseguram-me um auditório tão agradável quanto conveniente. Conveniente porquê? Meus caros, muita gente bebe socialmente, mas eu, mais civilizado, sou energúmeno socialmente, i.e., se não houvesse esse auditório – tão selecto e, dizem-me, tão desaconselhável a gente grave – não haveriam ditos, não haveria aquele espírito Guermantes, esse espírito que permite desdourar Maeterlinck (sem o ter lido), que Marcel nunca pôde ter.

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O aperto de Paulo Francis em Nova Iorque

Ô, Garschagen, faz logo essa biografia e deixa de frescura!

Um presente para você que sempre visita esta casa, bebe uísque, saboreia um queijo e ri sem rédeas. Em 2005, entrevistei o ex-deputado federal constituinte, editor e dono da Paz e Terra Fernando Gasparian. Sujeito afável, mas que se equilibrava entre sua vida empresarial e seu sonho socialista, o que, descontada a ingenuidade que poderia ser invocada num período determinado da história, hoje, não tem jeito, é mesmo um desvio de caráter.

Fui convesar com Gasparian em 2005, quando eu alimentava de forma vigorosa e imediata o sonho de escrever a biografia de Paulo Francis, sonho esse que foi adiado, mas não enterrado, depois de uma conversa ao telefone, e em seguida, de um e-mail, da Sonia Nolasco, viúva do Francis, que de todo jeito tentou me demover da idéia de fazer um livro contando a história do jornalista que eu admirava e continuo admirando. Afirmou que não me daria entrevista nem o acesso ao material que ela tinha. Só deixei a idéia na gaveta porque, afinal, a moça viveu com ele durante 30 anos e tinha os diários e toda sorte de informações que me interessava. Eu podia fazer uma biografia sem as informações que eu julgava importantes e correr o risco de ela passar tudo para outro biógrafo.

Por enquanto, o projeto continua na gaveta, mas não no arquivo morto. Aliás, minha aprovação no mestrado em Portugal se deve, muito mais do que ao meu currículo, aos dois trabalhos acadêmicos que entreguei, um dos quais sobre Paulo Francis, que não tinha a academia em boa conta, ehehehe.

O texto abaixo é um relato de Gasparian sobre o início da vida do Francis em Nova Iorque, coisa que pouca gente conhece. Vou passar a postar aqui no blogue todas as informações que reuni e as que ainda vou coletar sobre Francis. Espero que goste e se divirta:

Conheci o Francis no Rio, por volta de 1964. Era um sujeito com boa cultura, tinha boas leituras e fazia ótimas indicações. Eu morava na Avenida Atlântica e recebia um grupo de intelectuais, artistas e jornalista em eventuais conversas, geralmente às sextas. Essas reuniões também aconteciam na casa do Ênio Silveira. Faziam parte dos freqüentadores habituais o Francis, Ivan Lessa, Sérgio Lacerda, Moacyr Werneck de Castro, Antonio Maria, Flávio Rangel, Fernando Pedreira, José Aparecido de Oliveira, Millôr Fernandes entre outros.

Com a tomada do poder pelo governo militar estava difícil continuar no Brasil. Eu estava desanimado, sufocado com o que os militares estavam fazendo. Após alguns contatos, fui convidado para dar aulas como professor visitante na New York University, que ajeitou tudo, inclusive me arranjando um dos apartamentos funcionais que serviam ao corpo docente. Depois decidi que não queria morar nos EUA com minha família. Fiz mais alguns contatos e consegui ser chamado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Fui, então, pra ser professor em Oxford e uma vez por mês eu daria algumas aulas na New York University.

Num passeio em Londres, encontrei com o Ivan Lessa. Durante a conversa, ele comentou que o Francis estava morando muito mal em Nova York. Estava num hotel vagabundo, num quarto de fundos, com TV preto e branco que insistia em não sintonizar os canais. Imagine só o Francis, acostumado com a boa vida da Barão da Torre, em Ipanema, sua última morada no Brasil antes de seguir pros Estados Unidos, morando num hotel de quinta em Nova York.
Logo que o Lessa terminou de falar das dificuldades do Francis, que eu já conhecia desde 1964, quando me mudei de São Paulo pro Rio, disse-lhe que iria tentar ajeitar pra ele esse apartamento que a universidade havia me dado. E o Lessa comentou: pô, ninguém nunca fez isso por mim!

Fui pra Nova York, encontrei o Francis e levei ele pro apartamento. Era enorme: três quartos, dois banheiros, TV colorida, localizado do 17º andar de um prédio na Bleeker Street, na Village Voice. Muito perto da universidade e com um aluguel baratíssimo porque era isento de impostos. Custava uns duzentos dólares por mês. Francis ficou morando lá como se fosse eu por uns dois anos e dividia o valor do aluguel comigo, pois eu ainda precisava usar o apartamento por alguns dias uma vez por mês. Até que recebo um telegrama em Oxford, assinado por Miss Warren, a responsável pelos apartamentos funcionais. Ela descobriu que o Francis estava morando lá sem autorização. No telegrama, informou que o apartamento deveria ser desocupado imediatamente, caso contrário a universidade seria obrigada a pagar um imposto altíssimo referente a todo o período que o Francis morou lá.

Francis ficou apavorado. Eu disse pra ele me esperar que eu iria para Nova York resolver a situação. Fui pra Londres para poder pegar o avião e lá comprei um presente para Miss Warren. Era um objeto de decoração de prata. Quando cheguei a Nova York e mostrei o presente, Francis ficou ainda mais preocupado.

— Fernando, você está ficando maluco? Aqui não tem esse negócio de corrupção. Vai dar merda, vai dar merda!

— Calma, Francis. Deixa que eu resolvo.

E fui me encontrar com Miss Warren. Durante alguns minutos ela falou sobre o problema que poderia ter sido causado e que meu amigo deveria desocupar o apartamento imediatamente. Expliquei a situação pra ela, que foi muito solícita. Perguntei-lhe se o Francis poderia permanecer no apartamento se fosse contratado pela universidade. Ela disse que sim; dessa forma, não haveria problema. Fui até a direção da New York University e consegui que o Francis fosse indicado como professor convidado do curso de jornalismo. Francis ficou no apartamento por mais uns dois anos.

Eu reencontrei a Miss Warren anos depois, em 1986, em Brasília. Ela havia se casado com um jornalista brasileiro que era correspondente do Estadão em Nova York e os dois vieram morar no Brasil.

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Curso para entender Saramago? É o fim da picada!

Ô, Garschagen, não precisa esculachar...

No Prelo, em Prosa & Verso:

Para entender Saramago

Madalena Vaz Pinto, doutora em literatura portuguesa, inicia na terça-feira, dia 21, o curso “Introdução à obra de José Saramago”, que será ministradona Universidade Candido Mendes de Ipanema.

O leitor que precisa de um curso para entender Saramago deve desistir de ler e virar trabalhador braçal, plantar couve, engraxar sapatos. A ignorância sincera é mais honesta do que a igorância lustrada.

PS: Só para constar: Saramago é uma grandissíma besta!

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Uma homenagem menor a uma poeta maior

Exagera, Garschagen, exagera!

No Prelo, em Prosa & Verso:

Homenagem a Tolentino

Apesar de polêmico, com vocação para se lançar debates acalorados com seu pares, o poeta Bruno Tolentino, que morreu em junho, aos 66 anos, deixou muitos e fiéis admiradores. Na segunda-feira, às 20h30, o evento Ponte de Versos, da Livraria da Conde, vai homenagear o poeta - cujo derradeiro livro, A imitação do amanhecer, está indicado para o Prêmio Jabuti 2007 - com leituras de suas obras feitas por diversos convidados como Pedro Lyra, Cairo Trindade, Andrea Paola, Neide Archanjo, Jorge Ventura e Adriana Monteiro de Barros, entre outros. O evento é gratuito e terá canja musical de Stella Caymmi, uma das grandes amigas do poeta. A Livraria DaConde fica na Rua Conde de Bernadotte 26/loja 125.

“Apesar de polêmico, o poeta Bruno Tolentino deixou muitos e fiéis admiradores”. Minha vontade é distribuir palavrões, mas uma das maravilhas de ter sido civilizado é não distribuir palavrões e dentadas publicamente. Agora, me pergunto, e pergunto a você, caro leitor: o que tem a ver o fato de ser polêmico com o de ter deixado fãs e admiradores? E qual é a diferença entre fãs e admiradores? As polêmicas nas quais meu xará se envolveu é um aspecto secundário e menor diante de sua obra monumental. Saiba de uma coisa: quem começa a falar de Tolentino trazendo à baila as polêmicas é porque não leu uma linha de sua obra. E seu leu, não entendeu patavinas. Quando leio alguém se referir a Tolentino como polemista e não como grandioso poeta que foi, o maior de nossa língua depois de Camões, como definiu precisamente Olavo de Carvalho, penso logo: é uma besta (uma besta, você sabe, quando não consegue fazer nada na vida faz filhos, já disse Nelson Rodrigues).

Devo me contentar com uma nota que apenas divulga uma homenagem a Tolentino? Absolutamente. Se as editoras do cadermo de literatura do maior jornal do Rio não fazem idéia de quão monumental é a obra de Tolentino, só lamento e ofereço, depois do meu desprezo, um cálice de cicuta.

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As baixas no jornalismo e mais um picareta intelectual

O Globo:

Baixas da guerra

Confronto no Iraque destroem, além de vidas, paradigmas da modernidade e são vistos como ‘laboratórios’ de transformações

Rachel Bertol

Nã se sabe quantas pessoas já morreram no Iraque desde 2003. Fala-se em pelo menos 70 mil, segundo a Organização Iraq Body Count, mas este número pode ser bem maior, acima de cem mil. A catástrofe, porém, parece incontrolável e, segundo análises de especialistas, pode ser considerada um “ponto de virada” na atualidade, uma espécie de “laboratório” da guerra total ou um exemplo do “estado de exceção” que se configuraria como normalidade.

Um professor de faculdade, o melhor que tive, sempre dizia em sala: de onde não se espera nada é que não sai nada mesmo. Me parece que a moça que escreveu o texto não sabe nada de história e geopolítica. Que o governo americano fez bobagem desde o início da invasão é o óbvio ululante. A imprensa americana, acusada peremptoriamente de ser aliada do governo George W. Bush, tem sido feroz nas reportagens e avaliações de sua administração. Esse mérito não é reconhecido: a melhor crítica que se faz aos Estados Unidos é, na maioria da vezes, feita pelo próprios americanos.

Jornalismo se faz com ética e correição, não com essa bobagem de imparcialidade. Como um sujeito será imparcial ao redigir um texto? É maluquice. Ele dever ser honesto, íntegro e saber escrever, coisa que não está muito fácil de achar.

Tomar Immanuel Maurice Wallerstein como uma boa referência é o fim da picada. Porque em nenhum momento a matéria diz que o sujeitinho é de esquerda, um teórico crítico do capitalismo global e que ganhou evidência a partir do sucesso dos grupos antiglobalização. Como se vê: uma besta!

Wallerstein é da corja de Karl Marx, Fernand Braudel, Noam Chomsky e Pierre Bordieu, para citar alguns. Além de ser uma besta que propaga opiniões historicamente incorretas, negligencia a dimensão cultural, propagando-a de forma vil e reduzindo-na ao que oficialmente é chamado de ideologias dos estados. É um imbecil que tenta adequar a história segundo suas convicções (sic). Mas, não canso de me indagar, tarado tem convicção que preste?

Na entrevista, o tal de Wallerstein, ao se referir ao Iraque, solta essa:

Tínhamos um país relativamente seguro, com economia relativamente saudável, e havia um ditador, Saddam Hussein era terrível, mas não é a única pessoa terrível do mundo. Não tornamos as coisas melhores tirando o poder.

Ah, bom! Essa frase justifica qualquer coisa, da pedofilia ao incesto. Se um pai é pedófilo e a polícia o prende, era uma coisa terrível, mas não é o único pai pedófilo no mundo, pois não? O sujeito que dá uma resposta como a de Wallerstein merece uma surra com vara de goiabeira, que dobra mas não quebra (a versão correta de “nóis bate mas não capota”). E cadeia, claro.

Wallerstein, certamente, sabe que Satan Hussein mandava jogar inimigos e críticos ao regime num moedor de carne. As pessoas eram jogadas de pé, para que sentissem o máximo de dor e vissem até quanto suportassem a destruição do próprio corpo. Num regime como o que havia, levar uma bala na têmpora era prêmio.

Sobre a reportagem do Prosa & Verso, o que pensar? Que a mocinha não sabe de quem se trata, ou escolheu o sujeitinho de forma deliberada, como acredito, para dar um verniz à sua matéria precária? Quanto tempo será que o Prosa & Verso dura com essa turma pipipopó que edita e escreve o caderno. Eu cansei! Vou avaliar se a partir da próxima semana vale a pena comentar um caderno desses.

A guerra do Iraque merece um caminhão de críticas plenamente justificáveis. Agora, questionar que Saddam Hussein merecia ficar ou não no poder é coisa de gente com titica de galinha na cabeça.

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Um escritor ruim celebrado é muito mais do que um escritor ruim celebrado

Seu crítico filho da mãe. Tome isso: pou! E isso: pou!

Um escritor ruim celebrado é muito mais do que um escritor ruim celebrado. É a celebração da vulgaridade, da burrice, da jequice. E aí, quando se pergunta quem são os escritores brasileiros o sujeito vai dizer os nomes dos escritores ruins, mas que saem nos jornais, aparecem na TV. Como esses escritores ruins conseguem tantos confetes e exposição? Está aí um mistério importantíssimo a ser desvendado.

Mas o que mais me preocupa não são os escritores ruins, mas as pessoas que se deixam influenciar pela exposição dessas figuras e passam a ler seus livros como sendo uma referência de boa literatura. Uma má formação de leitura degenera gerações. E aí, já sabe, né? Lascou-se tudo. Até explicar que Lima Barreto não é Paulo Coelho já se foi um leitor. Ter boas indicações de leituras é fundamental para que cada indivíduo estabeleça seus cânones. São essas referências que vão ajudar na hora de ler outros livros, e até de se arriscar na escrita. Se não há esse background de leitura o sujeito vai achar bom qualquer livro medíocre que for ler ou texto que for escrever.

Agora é preciso deixar claro o seguinte: não estou propondo que escritores ruins, por mais que eu desejasse que tivessem autocrítica ou um amigo sincero, devam parar de escrever. Têm é que escrever melhor. Escrever algo com o mínimo de ambição. Não tenho laivos de ditador e sou um defensor intransigente da liberdade. Não tolero proibições de qualquer ordem, embora lamente as árvores cortadas para imprimir coisas tão ruins. O que me irrita mesmo é a falta de senso crítico de muitos escritores. E depois a bajulação, o louvaminhas. Uma cordialidade deplorável.

Veja bem: não estou defendendo que as pessoas virem inimigas, mas que briguem por uma cultura melhor. O sujeito civilizado sabe separar as coisas. Não é necessário deixar de ser amigo, de se freqüentar, porque as opiniões são divergentes ou porque se é amigo de um escritor medíocre. Só sugiro, para o bem da amizade, que não se fale de literatura. Embora ache que a divergência seja sempre boa para elevar a qualidade da literatura e até da conversa, a amizade vai para o vinagre, não tem jeito. Além do mais, mantenho, com sincera placidez, a certeza de que alguns duelos fariam muito bem à cultura nativa.

E vamos deixar de lado essa bobagem assaz estimulada e provocada de tentar vender a idéia de que há uma briga besta e insolúvel entre crítica e literatura. O que existe é um crítico que deu petelecos num escritor ruim, ou um mau crítico que escreveu bobagens. Para cada escritor ruim há um critico tolo. Peneirar leitura é preciso, mais do que navegar.

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Garschagen anda no Rio feito Lampião

Garschage, Garschagen, olha a faaaaaaaaaaaaaaaca!

O dia hoje, além de começar cedíssimo, o que sempre me incomoda bastante, está sendo pesadíssimo. Muitíssimas coisas a resolver, cópias autenticadas, atestado médico, e a ansiedade de que o visto saia no prazo. Já falei que portador de passaporte brasileiro sofre como nordestino da caatinga, não? Pois é. Estou andando no Rio vestido como lampião. Não é uma cena bonita de se ver, mas no momento é preciso. Volto mais tarde, ok? Não me abandone.

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Garschagen, esbodegado, só volta amanhã

Garschagen, eu também estou morto. Vou dormir...

Hoje, encerro por aqui. Estou esbodegado. Ainda com cheiro de serviço público na alma. Putz.

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A terceira cultura

Beleza de chapéu, hein, seu Brockman!

Na Folha (assinante):

Idéias perigosas

Algumas questões, mesmo que formuladas com base em argumentos e evidências, podem criar pânico moral

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES

A HISTÓRIA da ciência está repleta de descobertas que foram consideradas social, moral e emocionalmente perigosas em seu tempo; as revoluções copérnica e darwinista são as mais óbvias. Qual é a sua idéia perigosa? Uma idéia sobre a qual você tem pensado (não necessariamente criada por você) que é perigosa, não por ser pretensamente falsa, mas porque pode ser verdadeira?

Essa questão, divertida e provocativa, foi proposta pelo site norte-americano Edge (www.edge.org) a seus afiliados -uma comunidade de cientistas. A Edge Foundation foi criada pelo empreendedor e agitador cultural John Brockman, que conheceu Andy Warhol e John Cage, leu MacLuhan, interessou-se por cibernética e internet, é autor de diversos livros sobre temas científicos e se tornou o agente literário de nove entre dez estrelas editoriais da ciência nos EUA.

Desde a década de 1980 os cientistas têm se esforçado em divulgar seus conhecimentos para um público maior. É um grupo importante de cientistas que tem reagrupado ciências e humanidades. Reagrupar porque os intelectuais dividiram o pensamento em dois blocos, ciências e humanidades. Essa divisão levou à especialização que, se por um lado ajudou nas pesquisas de alto nível, gerou uma conseqüência grave no ensino das escolas. Tudo é compartimentado e não há a necessária unidade metodológica entre as disciplinas que dê aos estudantes um conhecimento universal e integrado.

O panorama começou a mudar a partir de 1969 com a histórica palestra The two cultures, proferida em Cambridge, Inglaterra, pelo físico e escritor britânico Charles Percy Snow. Na peroração, Snow alertou que nenhuma sociedade pode pensar com sabedoria quando os dois ramos do conhecimento crescem separados.

A situação mudou muito desde a palestra. É crescente o interesse de leitores não especializados. Não são poucos os livros científicos lançados no Brasil. Cientistas como Stephen Jay Gould, Freeman Dyson, Steven Pinker, Richard Dawkins etc. são traduzidos e recebidos com entusiasmo. Brasileiros como Mário Novello, autor do bom Os jogos da natureza, e Marcelo Gleiser, do instigante A harmonia do mundo, procuram tirar a ciência do sacrossanto altar da sabedoria inacessível.

Textos saborosos, temas instigantes, eis o elo que aproxima a ciência do não-cientista. O site Edge, citado por Gonçalves em seu artigo na Folha, reúne os nomes que citei e mais dezenas de neurocientistas, antropólogos, físicos etc. Hoje o site é o grande núcleo de ligação entre cientistas e humanistas.

John Brockman, o editor de livros e criador do Edge, faz do site a materialização de sua teoria Third culture, ensaio que é um salto à palestra de Snow. Diz Brockman que a ciência não deve e não pode ser encarcerada em departamentos acadêmicos ou laboratórios. É a volta à era dos antigos filósofos, que não apenas refletiam sobre a existência e seus desdobramentos, mas conheciam medicina, química, física, biologia, artes.

Além do lançamento de livros, um dos sintomas de que leigos como eu querem cohecer temas científicos são as várias revistas disponíveis nas bancas, como a Scientific American, e DVDs com séries, como a famosa “Cosmos”, produzida por Carl Sagan.

Se hoje temos exemplos de cientistas que se aproximam das humanidades, vamos ver, aqui no Brasil, como os humanistas vão se relacionar com a ciência, sem a chatice literária do nosso naturalismo, salve, salve!

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