Archive for Agosto, 2007
Mais Bernardo Carvalho, ou coitado de Thomas Bernhard

Em março de 2004, Martim Vasques da Cunha escreveu para o Digestivo Cultural o texto que reproduzo logo abaixo e que antecipa o que Bernardo Carvalho iria se tornar. O ensaio é bom e coloca as coisas em seus devidos lugares.
5 commentsBernardo Carvalho e a arte da fuga
Martim Vasques da Cunha
A pior coisa que existe para um escritor é o sucesso. O motivo é muito simples: a literatura é uma arte que envolve risco e isso implica em aceitar, sem nenhum resmungo, o fracasso inerente na empreitada. Infelizmente, o sucesso atacou a obra promissora de Bernardo Carvalho. Seu nome e seus livros são incensados pelos mandarins da imprensa cultural como A Nova Esperança da Literatura Brasileira; rascunhos de ensaios a seu respeito são publicados em cadernos culturais no intuito de dar ao leitor uma espécie de sentido postiço que, exceto por um lampejo ou outro de talento imaturo, não chegará a lugar nenhum; e, last but not least, existem leitores que, ao lerem qualquer linha de seus romances, não percebem que neles existe uma casca de niilismo que somente os levará para a pior de todas as mortes – a morte do Espírito.
É provável que nem Bernardo Carvalho saiba do perigo – para ele e para a mente de um leitor despreparado e, sobretudo, ingênuo. Seus dois últimos lançamentos, os romances Nove Noites (2002) e Mongólia (2003), são produtos de carpintaria literária esforçada, uma imitação pálida de Thomas Bernhard com alguns toques de Joseph Conrad e guias do Lonely Planet para dar a impressão de “diversidade cultural” ou de que existe um “pluralismo de visões”. Mas não passam de produtos de aprendizagem que, se fosse um escritor mais rigoroso, deixaria guardados na gaveta. Em Nove Noites, Carvalho cria um paralelo entre sua própria vida e a trajetória misteriosa do antropólogo Buell Quain, que se suicidou no Xingu em 1937; em Mongólia, há uma trama contada em três vozes narrativas que deveriam se cruzar em uma suposta epifania, mas terminam num anti-climáx digno de novela mexicana. Em ambos, ele age como o escritor que acredita estar escrevendo algo importante, que acredita que o que está no papel é algo relevante, mesmo que, em público, negue tudo isso e pratique um ceticismo de armário sobre a perenidade da literatura. Trata-se, enfim, de uma obra esquizofrênica, elaborada por uma pessoa que ainda não sabe de suas potencialidades como artista.
A afirmação acima pode ter sua dose de ironia, mas esconde uma tragédia implacável. Se a obra de um talento promissor como Bernardo Carvalho cai nessa sinuca dramática, é sinal de que a literatura de um país está em fase terminal. Afinal de contas, a cultura de uma nação não evolui somente através de gênios; estes são sempre as exceções, as lacunas inexplicáveis da evolução espiritual. Quem constrói realmente a cultura, projetando-a para a integração de uma civilização, são os homens de médio porte, os intelectuais que, conscientes do seu papel moral na formação dos indivíduos, lentamente moldam a educação e a língua de um povo, não de acordo com os padrões de uma determinada época e sim segundo as leis da perenidade. O fato de uma nação como o Brasil possuir apenas gênios do porte de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Bruno Tolentino não é, definitivamente, uma boa notícia. Não são os formadores de uma cultura sólida e fértil; eles existem justamente para revolverem uma cultura que está decrépita e transformarem-na em algo novo e frutífero. Entretanto, o fardo de fazer essa mesma cultura perdurar através da consciência humana e dos anos está nas mãos dos bons escritores e dos bons intelectuais.
Como Bernardo Carvalho não é definitivamente um gênio, mas é um talento promissor, podemos que está incluído na classificação de “bom escritor”. Contudo, com Nove Noites e Mongólia – este último premiado injustamente com o prêmio Portugal Telecom 2003, quando, no mesmo evento, concorria com Meditação Sob Os Lajedos, de Alberto da Cunha Melo – Carvalho dá amostras de que seu talento é algo do passado. Seus romances iniciais (em especial, Os Bêbados e os Sonâmbulos e Teatro) tinham algum frescor, apesar do estilo mecânico, sustentados por frases curtas e de tom impessoal. Muitos críticos reclamavam que ele imitava Thomas Bernhard, influência que o próprio escritor afirmava em seus artigos literários para a Folha de São Paulo e também em diversas entrevistas. Ora, não havia nada de errado nisso: de fato, Bernhard era um grande escritor e sua coragem moral, por mais auto-destrutiva que parecesse, poderia ser um exemplo para nossos inteliquituais brazucas. Mas tudo dava a impressão que o problema não era com o mestre e sim com o pupilo.
Havia indícios dessa crônica de uma morte anunciada. Em primeiro lugar, Carvalho habitua a sua narração em duas vozes narrativas que são aparentemente distintas, mas no final revelam-se como versões de uma mesma história. A estrutura binária tenta ser um artifício contrastante; contudo, em Nove Noites, o artifício domina o impacto emocional do texto e o que sobra é uma mera colcha de retalhos, ligada apenas por um tênue fio narrativo. Carvalho tenta consertar esse dilema em Mongólia ao incluir uma terceira voz, mas a indecisão entre ser um guia de viagens e uma história de mistério revelam que ele não está querendo agradar a si mesmo e sim a uma casta de leitores que, como diria um dos integrantes dessa mesma patota, estão “encharcados de tolerância cultural”. E, em segundo lugar, sua preferência em reduzir qualquer comportamento humano como uma mistura bizarra de impulsos homossexuais reprimidos e de tendências auto-destrutivas dão um travo amargo ao supor até onde vai a limitação intelectual do rapaz.
Ainda assim, este não é o verdadeiro problema. Mesmo que Carvalho fosse o queridinho entre um determinado grupo de literatos, mesmo que ele não soubesse nada de técnica literária, mesmo que tivesse o aguilhão da soberba – isso não é nada se comparado ao seu erro maior: o de acreditar que a vida não tem sentido ou, o que é pior, de acreditar que ela tem, mas nunca seremos capazes de descobri-lo. E aqui chegamos perto do xis da questão na obra de Bernardo Carvalho e, se formos além, em toda literatura brasileira contemporânea: Se a criação artística é também uma busca pelo sentido da vida em um mundo corrompido pelos homens, como uma obra de arte pode pregar justamente o contrário? No livro recém-publicado, Gramáticas da Criação (Editora Globo), o crítico George Steiner discorre sobre como os artistas do nosso tempo perderam o eixo de que toda a criação artística é, em maior ou menor grau, um diálogo com o Sagrado e como essa perda levou a sociedade cair na ilusão sinistra do niilismo. Pois esta é precisamente a tragédia não só de Bernardo Carvalho, como também de Arnaldo Antunes, Patricia Melo, Chico Buarque, Rubem Fonseca e que, infelizmente, contamina a nova geração, representada por Marcelo Mirisola, Clarah Averbuck e Paulo Polzonoff Jr. São pessoas de talento inegável, mas que fazem de tudo para fugirem do combate entre luz e trevas que é a vida. Suas obras são reflexos de consciências deformadas por forças demoníacas que brotam de suas almas e que não conseguem controlar porque falta aquela capacidade de ver acima das desgraças e dos prazeres, de ver que a condição humana é, de fato, um “pega-pra-capar”, mas que guarda uma pérola oculta de sabedoria e luz. Contudo, o medo da travessia e da incerteza que ela causa em qualquer coração sincero provoca uma perturbação que poucos conseguem suportar. E é dessa forma que a arte desses sujeitos, em especial a de Bernardo Carvalho, implode numa projeto rasteiro de literatura que não leva a lugar nenhum simplesmente porque seus criadores não sabem para aonde vão.
Pois um escritor somente tem controle de suas forças demoníacas e, no fim, dos meios de sua criação se ficar na penumbra do fracasso e nunca nos holofotes do sucesso. Toda e qualquer criação – especialmente a Criação Divina – vive e respira o fracasso. Veja o próprio Deus: a todo momento o ser humano parece provar que o Genesis foi um lamentável engano e que a Crucificação foi um truque de prestidigitação. Mas há algo que impele Deus a continuar o investimento na nossa espécie, como se fosse a única coisa razoável a se fazer. O que seria isso, ninguém jamais saberá e aí reside o doloroso enigma da esperança. O escritor deve fazer o mesmo: persistir na sua obra, não se importando com o sucesso ou com os atrativos do mundo porque estes são apenas passageiros e não pagam a recompensa que somente a grande arte alimenta. O triste caso de Bernardo Carvalho e de seus companheiros de niilismo é que a arte que criam é uma arte da fuga da vida em toda a sua riqueza, complexidade e, sobretudo, mistério. Eles retiraram a nobreza que existia em nossa literatura e somente um relacionamento intenso com o fracasso de nossos atos e com a perseverança de fazer o bem provocará o retorno da grande arte dos verdadeiros mestres - aqueles que não só acreditavam, como também sabiam que o sentido da vida está aí, pronto para ser descoberto e, sobretudo, redescoberto. Enquanto este panorama cultural digno de hollow men continuar – naquele deserto vazio da indecisão que termina na morte da alma –, espera-se – sim, pois será uma verdadeira espera – que não cheguemos ao ponto de recitar, sílaba por sílaba, o famoso verso de Eliot (apud Cavalcanti): Because I do not hope to turn again. Porque, afinal de contas, tudo o que queremos é voltar para algum lugar e que, algum dia, o tremor e o terror da nossa condição se revele apenas como um estágio precário na vida da eternidade.
As paranóias e curiosas opiniões do escritor Bernardo Carvalho

Juro que durante dias prometi a mim mesmo não tocar no assunto, mas algumas promessas estão aí para serem quebradas. É do jogo. Quem está na chuva é para se queimar, já dizia o grande pensador e presidente do Corinthias, Vicente Matheus. Mas, divago. Falo da entrevista com o escritor Bernardo Carvalho publicada pelo jornal Rascunho, do inteligente e abnegado Rogério Pereira. Comento alguns trechos da entrevista:
• Elite grosseira
Se eu tivesse de responder em uma frase à pergunta “qual a importância da literatura no Brasil”, eu diria: “nenhuma”. É um país de analfabetos. Durante algum tempo, trabalhei na periferia de São Paulo com o grupo de teatro Vertigem. Ali, fiz alguns ateliês e oficinas de criação literária com jovens. Foi a pior experiência da minha vida. Eu me dei conta, não só que as pessoas são analfabetas, mas que o texto não faz parte da cultura brasileira; faz parte apenas de uma cultura de classe média irrisória no país. Mas o texto - e não precisa ser necessariamente literatura - não faz parte do cotidiano das pessoas. Além disso, o Brasil tem uma elite muito grosseira, muito iletrada. Em comparação com a elite de outros países, a brasileira é especialmente ignorante, e cultiva e reproduz a ignorância para os seus filhos. Isso é muito chocante e revoltante.
Você deve ter lido na Veja da semana passada a matéria sobre o livro do sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor do livro A cabeça do brasileiro (editora Record). Para refrescar a memória:
A parcela mais educada da população é menos preconceituosa, menos estatizante e tem valores sociais mais sólidos. Se todas as pessoas em idade escolar estivessem em sala de aula hoje, a pleno vapor, o Brasil acordaria uma nação moderna no dia 1º de janeiro de 2025 – depois de um ciclo completo de educação. Os brasileiros passariam a ter baixíssima tolerância à corrupção e esperariam menos benesses de um estado protetor. Funcionários públicos ineficientes e aproveitadores seriam uma raça em extinção. Os cidadãos lutariam mais por seu futuro, em vez de se entregar distraidamente à loteria do destino. Nesse país, as pessoas de qualquer credo ou classe social se veriam como portadoras de direitos iguais. As diferenças sexuais seriam mais respeitadas. Provavelmente pouquíssimos endossariam a frase estampada no alto da página 87 – ‘Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio’.
Vejo que Bernardo Carvalho não faz parte da parcela mais educada da população, o que o coloca junto com os analfabetos que ele critica de forma tão dura. Eu não sei até onde a burrice pode levar o indivíduo. Por isso me assusto ao ver tais coisas. Constatar que a literatura não tem importância alguma no Brasil não torna o país analfabeto. É uma relação de causa e efeito que não existe. Saber ler e escrever não torna o sujeito intelectualmente lustrado. E o sujeito intelectualmente lustrado nem sempre dá boa coisa, não é mesmo?
Agora, jovens da periferia rejeitarem ou não se adaptarem aos “ateliês e oficinas de criação literária” ministradas pelo Benardo Carvalho não quer dizer nada, pois não? Acho oficinas literárias chatíssimas, embora não lhes negue o valor. Mas é uma pretensão descarada achar que o não-envolvimento de jovens em oficinas literárias possa tornar o país analfabeto. O país pode ser analfabeto, mas por outras razões. Acho que até que o não-envolvimento desses jovens na oficina do escritor lhes confira certo valor…
• Sem conseqüência
(…) Eu vivo num mundo de fantasia. Crio um tipo de literatura que eu acho que tem alguma importância porque preciso continuar criando, mas que, na verdade, não tem nenhuma importância, não tem nenhuma conseqüência social. E no capitalismo tem um negócio que se estabeleceu: o mercado. A arte já não funciona mais para o estado, para a religião, mas se também não funciona no mercado, ela não faz sentido. Isso é terrível. Nessa situação, eu sou nada. A minha literatura pode ser de resistência, mas é muito pequena, não tem o menor significado. É nada. O que eu faço é totalmente insignificante.
Mais um escritor que se acha o gênio incompreendido. Bernardo Carvalho quer que sua literatura tenha uma conseqüência social. Está claro: seu sonho é ser o panfletista da causa, de um partido. Ele deseja curar o mal do analfabetismo, da malária, da catapora, das dores do espírito, com sua literatura. Agora, cá para nós, literatura de resistência? Sempre que vejo esse moço falar me dá a impressão de que ele não releu seus livros. Que resistência, meu filho? Reconheço na obra dele um talento para desenvolver trama e enredo, mas seu desleixo com a escolha de palavras e formulação de frases traz a maior das dúvidas: como alguém pode se tornar um bom escritor desse jeito? Odeio concordar com o moço, mas contra fatos não há argumentos: de fato, o que ele faz é totalmente insignificante.
• Idéia política
A idéia de que a literatura não serve para nada surgiu na modernidade; e a considero muito importante. É uma idéia política. É essa idéia que vai fazer a literatura de verdade sobreviver. A literatura que serve para alguma coisa é a que o mercado quer. Se vivêssemos na Idade Média, a literatura serviria para a Igreja. Se vivêssemos num país comunista, faríamos literatura oficial. Não servir para nada é um negócio radical e muito importante; permite que se faça uma literatura de ruptura, que não obedece a demandas preexistentes; cria uma nova demanda. Não é o novo pelo novo. Não é isso. É criar um mundo que ainda não existe. Criar uma vontade nas pessoas que elas ainda não têm. Isso é genial. É uma oferta para ver se germina. É lógico que eu acho que a literatura serve para alguma coisa. Mas preciso manter esta idéia, porque é uma idéia política, de resistência: literatura não serve para nada mesmo. Mas eu vou continuar fazendo. A ilusão de que não tem função é superimportante. Para mim, é fundamental; me dá um alento; me deixa respirar.
Primeiro o moço brada aos céus seu desejo ardente e delirante de que a literatura deveria ter importância e conseqüência social. Logo em seguida, diz considerar muito importante a idéia de que a literatura não serve para nada, razão pela qual a literatura irá, de verdade, sobreviver. Afirmações como a de que a “literatura que serve para alguma coisa é a que o mercado quer” pode fazer a platéia jovem universitária aplaudir, mas é um sofisma mal formulado. O mercado segue um curso natural: editoras colocam à venda livros que acham que podem vender. E uma parte do catálogo é formada por aqueles livros que o editor acha importante lançar, independente se vai gerar lucro ou não. O que não dá é para ter isso como norte da empresa: publicar livros sem qualquer perspectiva de venda. Não cobro de ninguém conhecimento rudimentares de economia, embora seja muito bom tê-los. O que espero é que, não tendo a mínima noção, fique de bico calado. Se fala sem saber é por má-fé, e merece uns petelecos.
Bernardo Carvalho ainda mistura questões de mercado com a subserviência da arte a propósitos políticos e religiosos. “Se vivêssemos na Idade Média, a literatura serviria para a Igreja. Se vivêssemos num país comunista, faríamos literatura oficial”. Isso nem é má-fé; é burrice descarada.
Depois de se embananar nam explicação cheia de cambalhotas que faria Caetano Veloso corar de inveja, ele tenta se explicar: “A ilusão de que (a literatura) não tem função é superimportante. Para mim, é fundamental; me dá um alento; me deixa respirar”. Ah, bom, o moço gosta de cultiva ilusões, mas mistura a realidade da ilusão com a ilusão da realidade. Alguém, por favor, manda chamar o síndico Tim Maia.
• A importância do mercado
Para o tipo de literatura que eu faço, há cada vez menos espaço. Isso é uma coisa que já discuti com o pessoal da Companhia das Letras. Se eu começasse a publicar hoje, acho que a editora não me publicaria. Eu estou meio decepcionado.
Qual tipo de literatura o moço acha que faz, minha Santa Rita do Passa Quatro? O sol se põe em São Paulo não tem nada de transgressor, novo et caterva. É um livro meia-bomba muito do desleixado no qual parágrafos que poderiam ser bons são ceifados por palavras mal escolhidas e mal encaixadas. Duvido que houvesse essa resistência que imagina o escritor. Isso é estratégia para levantar a própria bola e posar de injustiçado, renegado, blábláblá. E meio decepcionado, convenhamos, é igual meio grávida, pois não?
• Sempre o mercado
Mas acho que o mundo da literatura sempre foi guiado pelo mercado. (…) Se um cara como Beckett surgisse hoje, não teria a menor chance. Para esses escritores ingleses com quem eu estive na Itália, que são supercaretas, supertradicionais, se você fala em Beckett, eles respondem: “gênio”. Eu pensava, é hipocrisia; esse cara não acha Beckett um gênio. Ele acha Beckett um gênio porque está no cânone, está consagrado. Se eu desse um livro do Beckett sem o nome do autor, ele iria achar uma porcaria. Aí, eu perguntava: “por que Beckett é bom?” Ele respondia: “porque escreve muito bem”. Mentira, porque não é isso que o Beckett faz. O Beckett faz um outro negócio. Mas não escreve bem, não é isso que salta aos olhos.
O mundo da literatura não foi guiado pelo mercado. É bobagem, ignorância. O mercado lançou e vendeu muita porcaria, mas também lançou e vendeu muita coisa boa. Atribuir os males do mundo ao mercado é demonizar a nós mesmos. Quem é o mercado, Pedro Bó? Não somos nós que vendemos e compramos? Ou o moço acredita que o mercado é um monstro de sete cabeças com sete cornos?
Então quer dizer que Beckett entrou para o cânone porque não escreve bem? Uau! Só um bom escritor conseguia usar histórias e palavras como Beckett fazia. Se isso não é escrever bem, meu nome é Valdemar. O curioso é Bernardo Carvalho tomar como exemplo de opinião geral e sacramentada comentários de um grupo de escritores com quem esteve na Itália. Quem são esses moços? Escrevem bem? São confiáveis? Pensam bem?
• Imperialismo anglo-saxão
Tivemos um intervalo que valorizou as vanguardas, uma arte mais inovadora, dissonante, mas agora a coisa é cada vez mais careta. É um movimento respaldado pela imprensa. Hoje, entre os jovens críticos, por exemplo, qualidades inquestionáveis na literatura são personagens bem construídos psicologicamente e uma trama bem construída realisticamente. Qualquer crítico literário jovem vai tomar isso como um juízo de valor. Quando isso deveria ser um dos modelos. O crítico deveria entender que esse aí é um modelo de literatura e que existem outros que vão contra esse modelo. Mas isso é consensual. Isso é muito terrível porque não há literatura dissonante que sobreviva num clima de consenso. Eu acho que esse consenso se dá porque há um imperialismo do mercado anglo-saxão, onde impera esse juízo de valor, e uma subserviência do resto do mundo. A trama bem construída e personagens bem construídos realisticamente são tradições da literatura anglo-saxã e muito bem-feitos no século 19 por grandes autores. Isso não quer dizer que esse modelo deva ser hegemônico e se impor ao resto do mundo. Mas é lei na imprensa, e entre as editoras.
Bernardo Carvalho toma suas crenças como verdade universal. O que percebo nos críticos que leio, sejam jovens ou experientes, é a exigência pela qualidade da obra literária, não importa se segue ou não a tradição. Escritores sempre reclamam da crítica tomando como exemplo a não-repercussão de suas obras. É desonesto e não tem qualquer valor analítico.
• Imposição
Qual mercado importa hoje no mundo? O anglo-saxão. E o que ele faz em ficção? Faz um texto bem construído, com personagens críveis e psicologicamente bem construídos. É isso que vende, é isso que o público quer. (…) Ao mesmo tempo, acho muito chato o discurso do ressentido. Parece que estou aqui falando que tenho raiva do mercado, que os meus livros não vendem, eu sou uma porcaria. Mas não é isso. É uma constatação de um negócio que é fato, é claro. Ao mesmo tempo é engraçado.
Também acho muito chato o discurso do ressentido. É o que Bernardo Carvalho demonstra ser: um chato ressentido. Passemos adiante:
• Livros verdes
O tipo de livro que vai corresponder a essa venda é o livro que bate com a demanda do público. Não é um livro que contraria a demanda, que quer criar uma demanda que não existe. Coitadinho do autor que faz um livro que é uma ruptura literária, que deseja romper com o consenso, criar uma literatura totalmente nova. Esse cara não vai ser editado. E se for, não vai ser vendido pelo livreiro que é dono de uma rede de 50 livrarias. Mercado significa fazer a literatura vender igual à cultura pop. Qual literatura vai vender como cultura pop? O mercado não sabe. É o leitor quem vai dizer. É o leitor do Paulo Coelho que diz que se deve publicar Paulo Coelho. O problema é quando os escritores começam a funcionar nessa lógica de mercado. Se a literatura gira em torno do mercado, ela sai empobrecida. A pergunta é “como dentro desse mercado, desse mundo dos grandes conglomerados, pode ser criada alguma coisa interessante”? O padrão do mercado é o lugar-comum. De vez em quando acontece de as pessoas defenderem uma arte mais estranha, mas em princípio não é esse o padrão.
Sempre defendi, me alinhando a Faulkner, que o escritor não tem que se preocupar se vai ou não vender, se o mercado quer ou não o tipo de livro que ele escreve. O escritor sente uma necessidade de escrever e escreve. Se for preciso, rouba até a mãe para exercer o seu ofício, já disse Faulkner na famosa entrevista à Paris Review. O escritor Antonio Fernando Borges já tratou muito bem o tema no artigo Publicar é preciso. Escrever, não, no finado No Mínimo (reproduzido no post abaixo). Escritor que escreve para o mercado não deve ser lido pelo leitores de bem, ponto final. O que não dá é para assumir o papel bobo de salvador de almas pela literatura. Literatura terá sempre leitores contados. Se isso é bom ou mau, pouco importa. É fato e não vai mudar. É a mesma coisa do jogador de futebol querer que todo mundo jogue. E aí vai seu vizinho te perturbar enquanto você tenta ler em paz o livro de Cesare Pavese que chegou um dia antes.
• Paranóia
Eu sou um pouco paranóico. Mas se pode ver a paranóia como a criação do sentido. Se o mundo não faz sentido - e não faz -, o paranóico é que aquele que vê sentido onde não tem. O mundo não faz sentido, a vida não tem sentido, não faz sentido eu estar vivo. A paranóia me atraía como uma matriz de sentido, uma matriz desvairada. A idéia da paranóia me atraía como ficção, como produção de ficção.
Isso explica por que o moço é assim. Passemos adiante.
• O jogo
Eu escrevo os romances que eu gostaria de ler. É importante que o leitor participe de forma ativa da leitura, que seja empurrado para dentro do texto não de maneira meramente passiva, queria deixar isso claro. Então, o jogo em meus livros é importante. Tem a função de cooptar o leitor, de fazê-lo ter uma participação ativa no livro.• Sem pensar no leitor
Se eu pensasse no leitor, eu não escreveria. Eu escrevo o livro que eu gostaria de ler. Eu não tenho talento para saber o que o leitor quer ler. Mas há autores que sabem. O Paulo Coelho, por exemplo, tem uma sintonia entre a oferta e a demanda. Há uma sintonia absoluta.
Peraí, primeiro Bernardo Carvalho diz que está se lixando para o leitor, depois que tenta cooptá-lo, depois que se pensasse no leitor, não escreveria. Caetano, de novo, coraria de inveja. Gilberto Gil idem.
• Manipulação do leitor
Os meus livros explicitam a manipulação do leitor até quase o grotesco. É muito visível. Minha obra é quase só a manipulação do leitor. É o princípio do todo romance, de toda obra romanesca - o que o romance faz é manipular o leitor e fazer com que ele participe. Agora, quando se explicita isso, como é o caso dos meus livros, dá-se ao leitor uma participação mais ativa. Você mostra que está jogando com ele. É quase um convite explícito. No romance do século 19, este convite está lá, mas é mais implícito. Nos meus livros, eles quase se reduzem à explicitação desse jogo.
E lá vem Bernardo Carvalho, novamente, deixar claro que delira pelo leitor, que tenta manipular o leitor. O gozado é a citação do romance do século 19 como uma referência do que ele faz. Mas no tópico Imperialismo anglo-saxão ele não critica justamente a “trama bem construída e personagens bem construídos realisticamente” que “são tradições da literatura anglo-saxã e muito bem-feitos no século 19 por grandes autores”.
Do que deu para entender de seu pensamento é possível afirmar: Bernardo Carvalho pensa mal e isso se reflete, de certa forma, em seus livros.
8 commentsPublicar é preciso. Escrever, não
Reproduzo aqui esse belo texto do escritor Antonio Fernando Borges que cito no post acima. O artigo, publicado no finaldo No Mínimo, não está mais disponível no site:
2 commentsNo Mínimo - 14/09/05
Publicar é preciso. Escrever, não
Antonio Fernando Borges
“Numa época em que a literatura ainda não privilegiava tanto a quantidade de exemplares lidos - e sobretudo vendidos -, o escritor francês Stendhal fazia questão de alardear que escrevia seus livros para no máximo cem pessoas. Passível de soar como elitista nestes tempos em que todos parecem aspirar a comover multidões, a frase ganhou espaço na literatura brasileira por conta de uma nota introdutória às ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, de Machado de Assis - um gênio inconteste, hoje sucesso de vendas, mas que em vida angariou muito mais prestígio do que leitores. Outros tempos, outras referências: para os padrões atuais, ser lido por muitos é preciso; escrever bem, nem tanto.
No calendário machadiano, o ano de 2005 registra uma curiosa efeméride: o sesquicentenário da estréia de Machado em letra de forma. Em 1855 (tinha apenas 16 anos), ele publicava no jornal ‘Marmota Fluminense’ seu primeiro trabalho - a esquecível poesia ‘Ela’. A posteridade também costuma consagrar alguns medíocres, mas dificilmente Machado de Assis teria entrado para o Panteão nacional se não tivesse dedicado a vida inteira a reverter e superar a estréia apressada, pouco promissora. Mas uma coisa é certa: essa precocidade faz dele uma espécie de ‘patrono involuntário’ das centenas de jovens aspirantes a escritores que atualmente se acotovelam nos blogs e nas coletâneas para neófitos, em concursos literários e nas portas das editoras - todos reivindicando seu espaço na mídia e na estante dos contemporâneos.
Fernando Pessoa publicou em vida um único livro (o magnífico ‘Mensagem’); Kafka amargou a rejeição ao ver encalhar as modestas edições de ‘A metamorfose’ e ‘Colônia penal’; e Álvares de Azevedo, o ‘nosso Rimbaud’, não chegou a ver publicada em vida sua ‘Lira dos vinte anos’. Mortos prematuramente, eram em compensação artistas que aspiravam acima de tudo à imortalidade literária. Hoje, ao contrário, a pressa parece comandar o espetáculo - como se permanecer inédito fosse o único pecado imperdoável em literatura. É só fazer um teste, leitor: pergunte a qualquer jovem aspirante a escritor sobre o ‘principal desafio da literatura’. Ele não vai demorar a responder: a dificuldade de publicar.
O jornalismo recomenda que toda afirmação venha sempre acompanhada de exemplos - e certamente exemplos não faltam, em matéria de blogs, coletâneas, concursos literários e editoras. Mas, no presente caso, é a prudência quem aconselha a que se permaneça nas linhas gerais, ao largo das exemplificações. Afinal, dado o tom crítico deste artigo, quem for citado há de se sentir ‘pessoalmente atingido’, ao passo que os ‘omitidos’ poderiam alegar discriminações e exclusões. De resto, por ser um fenômeno ainda em curso, e de natureza tentacular, a lista nunca estaria completa.
Fiquemos, então, nas linhas gerais do fenômeno, que se propaga desordenado como as epidemias. Mas quem quiser exemplos não terá dificuldades em encontrá-los. Numa busca ligeira na Internet, é possível ter acesso a dezenas de sites dedicados a divulgar ‘jovens talentos’, enquanto no mundo real acontece parecido: por todo o país, incontáveis oficinas literárias de escritores veteranos convivem com uma boa quantidade de guias e manuais sobre a arte da ficção, tudo isso feito de encomenda para quem procura atalhos que conduzam, afinal, ao mais parecido possível com o sucesso. Por isso, não há exagero em se falar de epidemia - já que disso afinal se trata: no País dos Iletrados, a literatura vem se revelando cada vez mais um instrumento de visibilidade social. Obstinados em defender seu (inegável) direito de serem lidos, todos parece que se esquecem do pequeno ‘detalhe’: o dever de escrever bem - e, sem isso, nenhuma literatura se sustenta.
Vá lá, um exemplo: modelo emblemático e bem-sucedido dessa tendência crescente é a militância desenvolvida pelo pernambucano Raimundo Carrero, dublê de ficcionista e professor empenhado não só em revelar ‘os caminhos da arte de escrever narrativas’, num ‘convite irresistível à criatividade’, mas também em ‘facilitar o acesso ao mercado editorial’. Responsável por três concorridíssimos seminários na última Festa Literária de Parati, Carrero promove em Recife oficinas que costumam durar quase o ano inteiro, sempre com lotação esgotada. E, para quem não dispõe de tanto tempo e prefere o aprendizado sem mestre, Carrero oferece ‘Os segredos da ficção’ (lançamento recente da editora Agir), onde ele reúne por escrito as dicas que apresenta em sala de aula. Dividido em três grandes partes - ‘A Voz Narrativa’, ‘O Processo Criador’ e ‘A Construção do Personagem’ -, de ambições abrangentes e quase definitivas, o livro é na verdade um apanhado pouco sistemático de textos curtos sobre determinados aspectos da arte de escrever ficção. Alguns comentários parecem pertinentes, outros são superficiais em excesso. Mas, num caso e no outro, estão muito distantes das reflexões mais profundas, embora igualmente didáticas, do livro ‘Aspectos do romance’, do inglês E. M. Forster, ou de ‘A arte da ficção’, do americano John Gardner - duas referências obrigatórias nesse terreno, e que o próprio Carrero não deixa de citar, embora chame ao primeiro de ‘ingênuo’ e ao segundo de ‘enfadonho’.
‘É preciso acreditar que o trabalho literário exige disciplina e método’, adverte acertadamente Raimundo Carrero, logo na Introdução. Mas se seu livro ajuda a destruir alguns mitos nefastos como o da facilidade da escrita, e a afastar os fantasmas da autocomplacência e da preguiça (de que padecem tantos aspirantes), também é fato que nutre um punhado de outras ilusões. Algumas são apenas opiniões questionáveis, como a de que quem escreve a ficção não é o autor, e sim os personagens. Outras, em contrapartida, são mais graves: sugerir, por exemplo, que a mestria está ao alcance de todos. Para animar seus leitores nessa direção, Carrero aconselha, de saída: esqueçam inspiração e talento. Deus do céu! Os gênios da literatura devem estar se revirando nos túmulos.
Antes de mais nada: não se trata de diminuir os méritos do trabalho de Raimundo Carrero, nem de questionar sua generosa proposta de partilhar a experiência acumulada como escritor. Trata-se de analisar um fenômeno - e este, no fim das contas, é coisa muito mais ampla e, nos aspectos mais problemáticos, ultrapassa as fronteiras específicas das Letras para invadir um terreno bem mais controverso: a democratização compulsória de tudo, verdadeiro clichê nestes dias que correm. Em nome de um irrefreável (e vago) ideal de igualdade, procura-se facilitar o acesso de todos não apenas a bens materiais mas também ao conjunto de valores culturais que integram o valioso patrimônio de nossa civilização. É à luz dessa curva tendencial que se deve analisar a ingênua chantagem de nossos jovens aspirantes a escritores, ao reivindicarem sua imediata ‘inclusão editorial’, numa idade em que deveriam estar, na melhor das hipóteses, lendo e exercitando a humildade de aprender.
Nessa comédia de erros, não há dúvida de que o erro maior é a confusão entre os usos e efeitos que a palavra ‘democracia’ (ah, quantos equívocos em seu nome!) possa ter em esferas tão diferentes quanto, por exemplo, a política e a vida do espírito - onde a Arte brota e floresce. Infelizmente, hoje o verbo democratizar é usado à revelia dessas diferenças. Pode significar, por exemplo, permitir que as pessoas afinal tenham acesso à literatura dos grandes autores, passando a incorporar às suas vidas essa imensurável grandeza; mas também serve - hélas - para difundir a tese populista de que os grandes autores são no fundo inacessíveis aos ‘excluídos’, devendo-se substituí-los urgentemente por similares mais ‘fáceis’.
Feitas as contas, o resultado de todo esse processo não poderia ser outro senão a ascensão do homem-massa, a que se assiste hoje, mas da qual Ortega y Gasset já falava em meados da década de 1920, no clássico ‘A rebelião das massas’. Ao promover uma descrição comparativa do ‘homem nobre’ e do ‘homem vulgar’, o filósofo espanhol nos legou um verdadeiro diagnóstico da degradação intelectual e moral da moderna sociedade de massas. Consciente do caráter explosivo de suas análises, Ortega tomou a precaução de advertir que este seu conceito-chave não era uma apologia da desigualdade social, nem podia ser reduzida a uma classificação econômico-social. Sua distinção entre elite e massas era de natureza moral, inspirando-se na doutrina hindu do dharma e do karma. Segundo Ortega, o ‘homem-massa’ pode se encontrar nas famílias ricas, ao passo que o ‘nobre’ muitas vezes nasce e cresce entre os mais pobres. Ignorar essas sutilezas é perder de vista todo o resto.
A equação se completa, quase perfeita. A este novo homem-massa, preguiçoso e arrogante, que tenta impor sua ignorância como padrão exclusivo de julgamento e referência, talvez interesse que os grandes autores, e seus ‘livros difíceis’, sejam substituídos por uma nova geração de autores-massa, que não ‘ofendam’ sua (falta de) inteligência. É este o perigo de propostas facilitadoras como as de Raimundo Carrero: baixar os padrões de exigência da literatura e, por extensão, da cultura, gerando uma linha de produtos ‘mais baratos’ que sirvam de alimento aos homens-massa.
Desconhecedores felizes desse perigo latente, alheios ao exemplo de disciplina e amadurecimento do ‘patrono’ Machado, nossos jovens parece que ignoram também outras reflexões sutis e contundentes, como a do filósofo romano Sêneca, que dizia que a fama é uma coisa horrível, pois depende sempre da opinião dos outros. Em busca de aplausos, ou de um proverbial lugar-ao-sol, o fato é que a meninada segue se desdobrando numa gincana literária sem fim, em que o amor à literatura é, no fim das contas, o que menos importa. Repetem a seu modo, e em geral sem saber, o destino do ambicioso e arrivista Julien Sorel, trágico protagonista de ‘O vermelho e o negro’ - romance que acabou garantindo a Stendhal bem mais do que os cem leitores inicialmente previstos. De resto, fica a sugestão: se a vida vai imitar a arte, que ao menos tentem escrever um final mais feliz.”
O queijo, os vermes, Marx e Ginzbug

No Estadão:
Ficção x realidade
Ubiratan Brasil
O historiador italiano Carlo Ginzburg gosta de se aventurar pelos diversos mares de erudição. Mundialmente famoso pelo livro O Queijo e os Vermes (Companhia das Letras), lançado em 1987 e que traz uma apaixonante história sobre a Inquisição e sobre a cultura popular e erudita daquela época, ele agora se volta para as relações entre fato e ficção, entre história e literatura, tema dos artigos presentes na obra O Fio e os Rastros, lançado pela mesma Companhia das Letras (456 páginas, R$ 59).
O título é uma dica do que se pode esperar da leitura do livro. ‘Há muito tempo trabalho como historiador: procuro contar, servindo-me dos rastros, histórias verdadeiras (que às vezes têm como objeto o falso)’, escreve ele, que faz hoje a palestra Medo, Reverência, Terror: Lendo Hobbes Hoje, a partir das 16 horas, no Auditório do prédio da Geografia, na Cidade Universitária, com entrada franca.
Ginzburg, que também participa, na quinta-feira, da 12ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, é conhecido por ser um dos pioneiros no estudo da micro-história, cuja proposição metodológica baseia-se no recorte temático em um assunto bastante específico. Ou seja, observar um determinado aspecto histórico com uma lupa, como se utilizasse o zoom de uma máquina fotográfica.
Ginzburg sofreu forte influência marxista, o que é sempre um desperdício intelectual de um talento, principalmente quando se trata de um leitor de Croce. Aliás, não entendo como alguém pode passar de Croce para Marx. Ginzburg é um homem talentoso, sim, mas seus livros devem ser lido com muita prevenção. E dispomos de tempo hoje para gastá-lo com obras assim? Ginzburg, em entrevista à revista Estudos históricos, disse:
A.A.- O senhor também sofreu influência do marxismo?
Realmente, como todos sabem, a vida intelectual na Itália foi impregnada pelo marxismo. Meu encontro com Gramsci sem dúvida foi muito importante. Lembro-me do momento em que comecei a ler suas Cartas da prisão: era 1957, eu estava terminando o colégio, e foi muito marcante. Depois conheci Cantimori, que havia sido membro do Partido Comunista e tinha traduzido o primeiro volume de O capital como dever de militância.
Cantimori talvez tenha sido o historiador comunista mais importante depois da guerra. Li Hegel e Marx no curso de um intelectual comunista chamado Cesare Luporini, uma figura interessante. Evidentemente, isso também me marcou. Mas acho que os historiadores comunistas daquela época na Itália interessavam-se por Gramsci numa perspectiva um pouco escolástica. Estavam interessados não tanto na história do Partido Comunista, mas na história do movimento operário da Itália antes do partido. Queriam fazer a história política do movimento operário, e este não era um tema que me interessasse.
Lembro que quando fui para Londres, ainda estudante, Cantimori me mandou procurar um amigo seu que falava muito bem o italiano. Era Eric Hobsbawm. Eu era muito tímido e não o procurei. Só o conheci mais tarde, e é engraçado, porque ele foi o primeiro a escrever sobre meu livro Os andarilhos do bem. Mas antes disso li na revista teórica do Partido Comunista Italiano, Società, um artigo de Hobsbawm intitulado “Por uma história das classes subalternas”. Era um artigo que partia de Gramsci, mas sugeria um panorama internacional, esboçava uma perspectiva mais ampla. Àquela altura eu já estava trabalhando com as
feiticeiras e pensei: “Estou no bom caminho.” Foi uma sensação agradável, porque durante muito tempo tive a impressão de que estava completamente isolado. É bom estar sozinho, mas também é bom compreender que existem outras pessoas trabalhando na mesma direção. Eu tinha essa sensação de isolamento porque ninguém, entre os historiadores que eu conhecia, sobretudo depois da morte de Cantimori, se interessava pelo Instituto Warburg, pelas feiticeiras ou coisas desse tipo. Lembro que em 1968-1969 eu era assistente da faculdade em Roma, e todos os estudantes que se interessavam por história só queriam saber de um único
período: o que havia ocorrido em Turim entre maio e setembro de 1920, ou seja, Gramsci, os conselhos operários etc. Não existia nada fora disso.
Pois é, pois é.
1 commentEste blogue não é a casa da mãe Joana

Tenho apagado muita gente que entra aqui só para me provocar. Isto aqui não é a casa da mãe Joana, ok? Dessa gente cujo nome é legião inclui um escritorzinho de meia tigela cuja literatura já demontei aqui. Ele quer atenção, coitado, mas eu não dou mais. Fica lendo este blogue e fazendo comentário. Fazia. Minha paciência acabou. Estou apagando todos os comentários que ele tenta deixar. Se escapar do primeiro filtro, apago depois. Tenho dito. Bilu.
PS: Ah, bom, não sinto ódio de ninguém, nem do mau escritor, é preciso deixar claro. O incômodo ao ler uma fraude ou um escritor tosco passa rápido. Só me encho de pena mesmo das árvores cortadas para imprimir seus livros.
No commentsBlogues e Henry James? Tá de brincadeira, né?

Na Folha (assinante):
Exterminador do passado
BERNARDO CARVALHO
AS CELEBRIDADES e os reality shows fazem parte do mesmo universo dos blogs pessoais e de uma literatura que, originária e devedora dos blogs, foi reduzida a crônica, expressão da opinião e da experiência pessoal.
A exemplo da encenação pública da intimidade, o eu dos blogs é uma projeção que se realiza numa segunda realidade, numa rede de inter-relacionamentos constituída por confrarias cujos parâmetros são os seus próprios limites, o elogio do igual, a reiteração do mesmo e a execração do diferente.
Nesse universo, um autor como Henry James (1843-1916) só pode ser ignorado ou percebido como um exterminador enviado pelo passado, pois celebra uma literatura que é, antes de mais nada, criação, invenção e reflexão. O protagonista da novela “A Fera na Selva”, recém-publicada pela Cosac Naify na tradução de José Geraldo Couto, é um homem autocentrado, que passa batido pela vida e cuja tragédia é fruto da sua autoconsciência tardia.
Embora sustentado unicamente pelo relato pessoal, o eu ensimesmado dos blogs também sofre da falta de experiência real, e a única diferença em relação ao personagem criado por James é que para ele não haverá tragédia, pois tampouco há autoconsciência ou reflexão possível, já que está demasiado ocupado com a expressão pública de si mesmo. O diário, antes um gênero que se mantinha, até segunda ordem, restrito à dimensão do privado, agora já é concebido para publicação.
Henry James professa a idéia de que a própria literatura é reflexão -e não apenas expressão de si ou de geração. Ela pressupõe invenção e transcendência; não é apenas relato ou crônica. O não-dito, por exemplo, que é um dos recursos dramáticos e romanescos mais fundamentais dos livros de James, é inconcebível dentro do princípio exibicionista da encenação pública do eu, na qual tudo deve ser dito e mostrado.
Mais um intelequitual de arco e flecha a querer aumentar a confusão entre a exposição pública da vidinha mais ou menos e o que se faz em blogues. Sempre digo: o homem se revela em analogias. Se invoca numa discussão, debate ou artigo o que de pior existe em sua área de atuação, é porque navega no que há de pior. Se alguém critica os blogues usando argumentos infantis como faz Bernardo Carvalho é porque as referências não são boas. Claro que existem blogues ruins e são maioria. Mas vale a pena citá-los a título de ilustração? Se se quer estabelecer um padrão e sair do rame-rame de uma opinião politicamente correta e em coro com o que pensa ao vulgo, absolutamente não.
O blogue é uma ferramente que, como um tacape, pode ser usado para o bem e para o mal. Só visito bons blogues. O resto não me interessa. É por isso que não perco meu tempo discutindo blogues. Me interessa o que está escrito. E se tenho sérias críticas a fazer em alguns blogues também as tenho para a mídia tradicional. Critico e elogio argumentos, conceitos e opinião, nunca a ferramenta. Me dá sono e não traz nada de relevante.
Bernardo Carvalho insere os blogues em seu texto sobre Henry James para quê? Para nada. Não há qualquer ligação possível. Narração de livros em primeira pessoa não é novidade e uma certa comparação com blogues, mesmo que para dar um cacete nos blogues, empobrece o texto. Não seria possível falar sobre os vários usos, resultados e implicações do uso do “eu” na melhor literatura ocidental sem tocar em blogues? Sim, claro, mas não iria atender ao propósito do moço. Ele quer posar de up-to-date fazendo o link entre o novo e a tradição, mas coloca tudo num mesmo balaio de gato injustificado. E ainda, meu Deus, identifica blogues como diários pessoais.
Se há possibilidades de fazer uma ponte analítica entre a linguagem dos blogues e a linguagem do romance o argumento deve vir da tradição para o novo, não o inverso. A não ser, claro, que o novo tenha superado em qualidade o antigo, ou aberto novas e vigorosas possibilidades de escrita. Mesmo assim, não acredito que o que se faz nos blogues algum dia possam ser comparáveis aos textos de livros. O texto e um blogue, mesmo literário, dedica-se a um fim inteiramente diferente de quem escreve livros. Porque a solidão de quem faz literatura para ser impressa é eivada de uma solidão, aí concordo inteiramente com Carvalho, que quem escreve para blogues, mesmo que, obviamente, escreva solitariamente, não tem. Quem escreve para blogue já sabe que será lido quase que imediatamente enquanto que o escritor, digamos, tradicional ainda terá de aguardar o processo industrial e comercial até ser lido. A repercussão, também, não é imediata. A manifestação dos leitores de livros, salvo se se trata de um escritor de sucesso em dia de lançamento, é silenciosa. A manifestação dos leitores de blogues é rápida.
O meio em que se escreve é fundamental para forjar o caráter do texto. Coteje os textos de Reinaldo Azevedo no livro Contra o consenso, coletânea de seus artigos para a República, Bravo! e Primeira Leitura, com os dele para o site. Perceba também como, depois que ele soltou o texto e o humor no site, seus textos para a Veja também estão menos quadrados do que os do livro. E entenda que eu adoro os textos do livro. Não vai aqui reclamação, apenas uma constatação.
Voltando à vaca fria, leia Henry James, qualquer livro dele. Gosto especialmente de A volta do parafuso.
3 commentsUm bandido que escreve bem? Não podia ser no Brasil

Houve um tempo em que Charles Bukowski era a bola da vez dos jovens escritores brasileiros. Era uma turma que, no Rio, freqüentava a Prado Júnior, em Copacabana, conhecido ponto de botecos e prostíbulos; e, em São Paulo, a Vila Madalena. Agora, os novos escritores não citam Bukowski nem sob tortura. Não se sabe se é medo ou se mudou, de forma saudável, a referência. Mas era engraçado ver os jovenzinhos de tênis cultivando barbas ralas enquanto bebia o chope ruim que se serve em terras cariocas.
Todo bom leitor sabe que Bukowski era um escritor de quinta. Sua prosa rivaliza com os bares fétidos que freqüentou. Sua escrita, tanto quanto seu corpo de bêbado, fede. O odor se espalha pelas páginas de seus livros e, décadas depois, a fetidez contaminou os jovens de que falei.
E por que falo do supervalorizado Bukowski? Invocar seu fantasma é importante enquanto a obra do americano Edward Bunker vem sendo lançada no Brasil pela editora Barracuda. Já foram traduzidos os bons Cão come cão, Nem os mais ferozes, Educação de um bandido, O menino e Fábrica de animais.
Bukowski me parece ser mais celebrado por sua vida bandida do que propriamente pela obra que deixou, embora a confusão sirva para misturar vida e obra num mesmo milk shake de álcool, pobreza e desolação do espírito. Porque, meu caro leitor, a vida de Bukowski foi pinto perto da de Bunker, que não só comeu o pão que o diabo amassou como arou a terra, plantou e colheu o trigo, fez a massa e depois roubou lúcifer.
Voltando à vaca fria, meu preferido é a autobiografia Educação de um bandido. Há ali um vigor extraordinário que faz um esnobe como eu entrar no submundo do crime fazendo cara de nojo, mas sem vomitar. E só o comprovado QI acima da média explica como um sujeito que passou mais da metade da vida na prisão, lendo de forma desordenada o que lhe caía às mãos, conseguiu forjar um texto tão desenvolto e conciso, à maneira de Hemingway, para contar histórias cruas, violentas, nessa sua sangria autobiográfica.
Bunker compôs um auto-retrato sem pena, humildade, tristeza, lamento ou autocomiseração. Não há resquícios de culpa ou fragmentos de purgação. Bunker não quer ser salvo pela literatura. Seu tempo esgotou-se e ele sabia disso quando escreveu Educação de um Bandido. Sua relação com a literatura é de outra ordem. Talvez uma maldição da qual não conseguiu se livrar até a morte, em julho de 2005, aos 71 anos.
O escritor comeu o pão que o diabo amassou porque tinha fome, pressa, adrenalina, vontade de se jogar no abismo das emoções juvenis e não porque desconhecesse o custo de suas ações. Pelo contrário: assumiu o risco com prazer integral e irremediável.
A mais notável síntese do que foi a vida de Edward Bunker não está na orelha do livro, mas nas três fotos que ilustram a obra: a da primeira página, de quando tinha 19 anos; a segunda, na última página, de quando tinha 33 anos; e a da belíssima capa, beirando os 70.
A foto dele mais jovem mostra a face de um selvagem que exala ódio. É o rosto de lutador de boxe de brio ferido, doido para entrar no ringue. A imagem intermediária já mostra um sorriso doce e sobrancelhas carregadas de placidez cínica. Obviamente, o seu currículo não deixaria ninguém tranqüilo mesmo diante do rosto de vendedor de sapatos que freqüenta a Igreja Universal do Reino de Deus.
A foto da capa, com Bunker velho, pilotando um charuto, nem parece a do homem que vivera grande parte de sua vida preso. Não há desolação. Ali está um homem que sorve feliz a fumaça espessa após décadas enfrentando maços de Camel atrás das grades. É provável que a postura do escritor, à maneira dos felinos selvagens no zoológico, tenha amansado por conta dos anos no cativeiro.
Bunker não suaviza suas confissões. Está lá o menino que roubava o posto de gasolina e com o passar dos anos cometeria toda a sorte de crimes previstos no Código Penal. Sua vida está no livro com todos os detalhes, desde as ações criminosas ao histórico de fugas e violências sofridas e cometidas.
Ele foi um homem que durante a vida reagiu contra todos os que quiseram submetê-lo de alguma forma. A mãe logo cedo declinou da obrigação de criá-lo. O pai, sem traquejo para a função, entregou- o aos cuidados de internatos, escolas militares e reformatórios. Bunker não nasceu anjo. Precisava de amor e rédeas. Não os teve. Deu no que deu.
“Ao contrário da maioria dos criminosos americanos, nasceu branco”, anota o crítico William Styron na introdução, como que para mostrar que o crime corria nas veias de Bunker, embora ele fosse exceção entre uma população criminosa de cor predominantemente negra.
Contrariando o senso comum, o escritor mostra que certos criminosos não se regeneram, mesmo que tenha opções. Mas se não as tiver, o sujeito desce aos infernos e nunca mais volta. Mesmo com a ajuda da senhorita Louise, esposa de Hall Wallis, o importante produtor de cinema responsável por “Casablanca”, Bunker, num dos breves períodos de liberdade, manteve-se no crime.
Pelas mãos dela, teve casa, trabalho, salário e conheceu a mansão do magnata das comunicações William Randolph Hearst, que não gostou nada nada de se ver retratado por Orson Welles em “Cidadão Kane”. Bunker estava em San Simeon, no casarão de Hearst, quando este morreu. E a imagem do velho decrépito na cadeira de rodas, a face marcada por alguns derrames, nunca lhe saiu da cabeça.
E há fatos tão extraordinários numa vida tão dura que é possível, em certos trechos, quicar no sofá: “Pera lá! Isso não!” Como o texto é bom, segue-se, então, serelepe.
Bunker, que nasceu em 1933 em Hollywood, na Califórnia, de onde não saiu, vivia o perigo com ardor. Passeava com desenvoltura pelo submundo e fez fama nas cadeias por quebrar a cara de criminosos tidos como durões. Ganhou respeito, como se diz na prisão, o que significa não ser amolado nem ter ameaçada a inviolabilidade de seu Marquês de Rabicó, como diria Paulo Francis.
Em certo momento, não sentia mais medo de vagar por presídios. Sua casca estava grossa demais pra temer bandidos como ele ou a agressividade dos policiais. O escritor atingiu aquele patamar em que nada mais o detinha.
Mas o tempo passa, a vida esgarça e a serenidade desponta. Bunker foi libertado em 1975, aos 42 anos. Conseguiu a liberdade provisória por conta de um texto sobre a crise racial nas prisões americanas para a revista Harper’s Magazine e da publicação de “Nem os mais ferozes”. Solto, continuou escrevendo ficção e assinou roteiros de sucesso, como o do filme “Expresso para o Inferno”.
Noves fora o turbilhão que foi sua vida, o que fica, afinal, é o seu bom texto. Nem adianta os moços que ainda gostam, e os que fingem não mais gostar, do idolatrado escritor “maldito” Charles Bukowski buscar em Bunker o odor da transpiração ou o mau hálito provocado pelas bebedeiras e comida ruim. Mesmo assim, se os rapazes bebedores de chope de Copacabana, no Rio, ou da Vila Madalena, em São Paulo, tiverem que eleger um ícone estilístico underground, que seja Bunker. Talvez aprendam a escrever.
7 commentsOlha eu aí outra vez
Voltei, sem tanto fôlego, pois o dia foi de trabalho intenso, mas vivo, lépido e fagueiro. Por ora, divirta-se com o texto sobre Bunker que vai logo acima.
No commentsUma nota de despedida
Hoje deixei o Rio. Foi meu último dia numa cidade onde me senti acolhido durante quatro anos e meio. Fiz pouquíssimos e valorosos amigos. Levo comigo um pedaço bom da cidade e tento achar que deixo alguma lembrança no coração dos meus.
A última semana na cidade foi gozada. Cada lugar e pessoa que eu olhava, cada aroma inspirado, cada calçada caminhada eram toques de despedida sem mágoa, tristeza, desolação. Carrego na alma a eterna condição de sujeito deslocado, sem raízes que me façam sangrar na despedida.
Nos últimos dias o apartamento onde morei durante três anos e meio mudara de cheiro. Não era mais meu. Eu já andava, sorria e falava como o ex-morador que acena na despedida com olhos sempre voltados para o horizonte; olhos que já miram o atlântico.
Após uma semana de resoluções cansativas cedo ao ócio e me dou o fim de semana de folga. Espero que você entenda e volte aqui na segunda.
Bom fim de semana meu caro amigo leitor.
10 commentsLeitura, Copa de literatura e os mal-humorados

Hoje ficarei fora boa parte do dia porque, além de resolver coisas práticas da minha mudança, preciso terminar a leitura de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, para a Copa de Literatura Brasileira (o site ficou uma beleza!). Aliás, teve gente que não gostou do formato da Copa, achando que literatura é coisa séria demais para ser relacionada ao futebol, mesmo que isso se limite ao formato da disputa. Acho uma perda de tempo tentar convencer alguém de que é preciso tirar a alma o ranço mal-humorado da repartição pública. Há aqui no Rio o famoso Alfredinho, dono do Bip Bip, boteco não menos famoso pelo mau humor do dono famoso. Um dia estávamos eu e Rafael Lima lá quando Alfredinho mandou-nos calar a boca porque o grupo de chorinho ia começar a tocar. E emendou: “quem quiser conversar vai para o bar da esquina que a cerveja é geladinha!” E fez-se o silêncio. Voltando a vaca fria, tenho a dizer para esse pessoal da repartição que procurem outros site e blogues. Eu estou velho demais para ensinar criança a sorrir.
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