O problema de Bertrand Russel

Bertrand Russell dizia que as perguntas, em filosofia, eram mais importantes do que as respostas. “A filosofia começa quando alguém faz uma pergunta de caráter geral, e o mesmo acontece com a ciência”. Assim o matemático e filósofo inglês inicia a sua História do pensamento ocidental (1959), guia espirituoso e claro para conhecer um pouco da história da filosofia.
Alinhando hierarquicamente as informações sobre os filósofos, Russell encadeia o pensamento, as obras e os fatos que os precederam e sucederam. Assim, é possível entender como as teorias foram elaboradas num determinado ambiente cultural, social e político, e quais foram os impactos na época e o legado para o pensamento humano.
Embora na matemática o filósofo não se preocupasse nem um pouco com o público não especializado, nessa sua História do pensamento ocidental facilita a vida de quem nunca leu sobre o assunto.
Nos capítulos O cristianismo primitivo e A escolástica sintetiza como a Igreja Católica exerceu uma posição paradoxal na história: ampliou as possibilidades do conhecimento humano calcado na fé, tendo Santo Agostinho desempenhado um papel fundamental; tentou manter os princípios cristãos em meio a decadência geral dos costumes; mas também se investiu de autoridade e tomou para si um poder que, desempenhado por qualquer religião, tende a ser catastrófico.
Tratando de política, Russell mostra no capítulo Empirismo britânico os méritos do liberalismo na Inglaterra do século XVII. O pensamento liberal, segundo ele, oxigenou a política e a filosofia e, de modo pragmático, representou uma nova atitude em relação aos problemas sociais e intelectuais numa época em que a maior parte da Europa estava “dilacerada pelas lutas religiosas e torturada por um fanatismo intransigente”.
Nesse período, o pensamento de John Locke (1632-1704) impulsionou o debate intelectual. No Ensaio sobre o entendimento humano, Locke foi o primeiro, segundo Russell, a tentar estabelecer diretamente os limites da mente e o tipo de investigação que é possível realizar. E sua investigação epistemológica, a base de uma filosofia crítica empírica nos dois sentidos, influenciou George Berkeley, David Hume, J. S. Mill e Immanuel Kant.
O, por assim dizer, problema de Russelll é nem sempre explicar devidamente aquilo que julga serem erros e acertos filosóficos. Ao afirmar, por exemplo, que uma das principais dificuldades da teoria do conhecimento de Locke é a explicação de como ocorre o erro, não avança mais do que observar que o filósofo não foi sistemático no tratamento do problema e muitas vezes abandonava um raciocínio diante das dificuldades.
Russel não tinha qualquer senso prático. No ensaio Bertrand Russel: um caso de tolices lógicas, o historiador inglês Paul Johnson lembra que “ninguém se mostrou mais distante da realidade física quanto Russel”. Segundo Johnson, o filósofo não conseguia cumprir nenhuma tarefa do dia-a-dia, sequer preparar o chá que tanto adorava. Essa inabilidade não era somente no aspecto físico. O mundo humano também o desconcertava constantemente, escreveu o autor de Tempos modernos. Era profunda sua falta de auto-conhecimento.
Russell nasceu em Wales, Inglaterra, em 1872. Talentoso expositor de idéias, parece ter escrito sobre tudo, da geometria passando pela filosofia, justiça, átomos e até, ora!, ora!, casamento. Sua obra-prima, segundo a crítica, é o Principia mathematica, em parceria com Alfred North Whitehead. “Nenhum intelectual na história jamais deu conselhos à humanidade durante um período tão longo”, observou Paul Johnson, para quem Russell era o típico intelectual aristocrata, que, embora tenha se assumido comunista (e, curiosamente, mantido um espírito liberal), desprezava o povo e às vezes tinha pena dele.
O filósofo morreu em 1970 após uma vida atribuladíssima, profícua, com prisões por atividades antibélicas, 68 livros, centenas de artigos para jornal e o Nobel de Literatura (1950).
6 Comments so far
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Gosto bastante desse homem, mas não tenho a menor inclinação para matemática. Um dia vou ler sua obra filosófica.
Oh, que doce coincidência ler isso, pois estou a ler exatamente o volume de que trata o post. E gostando. =]
O velho Bertrand era meio pancada, é só ler as idiotices que ele conseguiu empilhar no seu Why I am Not a Christian …
E o velho ainda foi professor do Wittgenstein.
Alguns dos melhores capítulos da História da Filosofia de Bertrand Russel são sobre os filósofos da Modernidade. O mais impagável é sobre Rousseau. Não dá para lê-lo e continuar e levar o genebrino a sério. Não sei se Russel carregou demais nas tintas, mas Russeau é retratado como um bufão, uma figura patética, mentiroso contumás e espertalhão, além de ladrãosinho barato. E o que é pior, em vez de pai da democracia, Russel demonstra como ele era, na verdade, um dos pais do totalitarismo. A coleção é muito bem humorada. No capítulo sobre Nietzche, Russel lembra uma frase famosa de Nietzsche (”ides ao encontro de mulheres? Não vos esqueçais do vosso chicote.)e comenta: “De cada dez mulheres, nove tomariam o chicote das mãos de Nietzsche e lhe davam uma surra.” Russel adorava gozar dos filósofos, achar detalhes pitorescos da vida dos mesmos. Sobre os longos períodos de meditação de Sócrates, por exemplo, dizia que eram na verdade crises de catatonia. Já li muitas críticas ao tratamento que Russel deu ao trio Sócrates-Platão-Aristóteles e aos Escolásticos, mas creio que há muitos capítulos irrepreensíveis na obra.
Sou um estudioso e admirador das obras de Bertrand Russel e da enorme influência que o seu pensamento exerceu no século XX, principalmente em questões filosóficas, religiosas e políticas.
Não concordo quando, como alguém disse aí em cima, o consideram “meio pancada”. Muito pelo contrário: era um filósofo e conferencista ativo, palestrante respeitadíssimo na Europa do Século XX, amigo de Einstein,e um fervoroso idealista que lutava pela paz mundial.
Deixou uma das mais vastas bibliografias já publicadas por um filósofo, sem contar as inúmeras palestras e artigos de jornal. Como morreu com idade avançada, claro que, a partir dos 90 anos, ele já estivesse ficando senil e um tanto esquecido. Isto é mais do que natural. Mas duvido muito que alguém consiga chegar a essa idade com o brilho com que chegou Russel - respeitadíssimo.
Quanto à sua conferência “Por que não sou Cristão?”, foi publicada em vários países e despertou, como obra polêmica (porque ataca a religião)tanto elogios como críticas severas por parte dos fanáticos religiosos que sempre existiram. Aliás, um dos motivos por que Russell foi perseguido, perdeu dois empregos de professor universitário e foi até preso, não só por causa de suas críticas políticas, mas, principalmente, por criticar as religiões cristãs. Basta ler a sua autobiografia e ver as explicações.
Na minha modesta opinião, Russell foi o maior filósofo do século XX, jamais suplantado por qualquer outro. Leiam mais sobre Russell e suas obras no meu blog “Debata, Desvende e Divulgue!” (http://debatadesvendeedivulgue.com/blog/), na seção “Biografias de Filófosofos”.