Publicar é preciso. Escrever, não
Reproduzo aqui esse belo texto do escritor Antonio Fernando Borges que cito no post acima. O artigo, publicado no finaldo No Mínimo, não está mais disponível no site:
No Mínimo - 14/09/05
Publicar é preciso. Escrever, não
Antonio Fernando Borges
“Numa época em que a literatura ainda não privilegiava tanto a quantidade de exemplares lidos - e sobretudo vendidos -, o escritor francês Stendhal fazia questão de alardear que escrevia seus livros para no máximo cem pessoas. Passível de soar como elitista nestes tempos em que todos parecem aspirar a comover multidões, a frase ganhou espaço na literatura brasileira por conta de uma nota introdutória às ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, de Machado de Assis - um gênio inconteste, hoje sucesso de vendas, mas que em vida angariou muito mais prestígio do que leitores. Outros tempos, outras referências: para os padrões atuais, ser lido por muitos é preciso; escrever bem, nem tanto.
No calendário machadiano, o ano de 2005 registra uma curiosa efeméride: o sesquicentenário da estréia de Machado em letra de forma. Em 1855 (tinha apenas 16 anos), ele publicava no jornal ‘Marmota Fluminense’ seu primeiro trabalho - a esquecível poesia ‘Ela’. A posteridade também costuma consagrar alguns medíocres, mas dificilmente Machado de Assis teria entrado para o Panteão nacional se não tivesse dedicado a vida inteira a reverter e superar a estréia apressada, pouco promissora. Mas uma coisa é certa: essa precocidade faz dele uma espécie de ‘patrono involuntário’ das centenas de jovens aspirantes a escritores que atualmente se acotovelam nos blogs e nas coletâneas para neófitos, em concursos literários e nas portas das editoras - todos reivindicando seu espaço na mídia e na estante dos contemporâneos.
Fernando Pessoa publicou em vida um único livro (o magnífico ‘Mensagem’); Kafka amargou a rejeição ao ver encalhar as modestas edições de ‘A metamorfose’ e ‘Colônia penal’; e Álvares de Azevedo, o ‘nosso Rimbaud’, não chegou a ver publicada em vida sua ‘Lira dos vinte anos’. Mortos prematuramente, eram em compensação artistas que aspiravam acima de tudo à imortalidade literária. Hoje, ao contrário, a pressa parece comandar o espetáculo - como se permanecer inédito fosse o único pecado imperdoável em literatura. É só fazer um teste, leitor: pergunte a qualquer jovem aspirante a escritor sobre o ‘principal desafio da literatura’. Ele não vai demorar a responder: a dificuldade de publicar.
O jornalismo recomenda que toda afirmação venha sempre acompanhada de exemplos - e certamente exemplos não faltam, em matéria de blogs, coletâneas, concursos literários e editoras. Mas, no presente caso, é a prudência quem aconselha a que se permaneça nas linhas gerais, ao largo das exemplificações. Afinal, dado o tom crítico deste artigo, quem for citado há de se sentir ‘pessoalmente atingido’, ao passo que os ‘omitidos’ poderiam alegar discriminações e exclusões. De resto, por ser um fenômeno ainda em curso, e de natureza tentacular, a lista nunca estaria completa.
Fiquemos, então, nas linhas gerais do fenômeno, que se propaga desordenado como as epidemias. Mas quem quiser exemplos não terá dificuldades em encontrá-los. Numa busca ligeira na Internet, é possível ter acesso a dezenas de sites dedicados a divulgar ‘jovens talentos’, enquanto no mundo real acontece parecido: por todo o país, incontáveis oficinas literárias de escritores veteranos convivem com uma boa quantidade de guias e manuais sobre a arte da ficção, tudo isso feito de encomenda para quem procura atalhos que conduzam, afinal, ao mais parecido possível com o sucesso. Por isso, não há exagero em se falar de epidemia - já que disso afinal se trata: no País dos Iletrados, a literatura vem se revelando cada vez mais um instrumento de visibilidade social. Obstinados em defender seu (inegável) direito de serem lidos, todos parece que se esquecem do pequeno ‘detalhe’: o dever de escrever bem - e, sem isso, nenhuma literatura se sustenta.
Vá lá, um exemplo: modelo emblemático e bem-sucedido dessa tendência crescente é a militância desenvolvida pelo pernambucano Raimundo Carrero, dublê de ficcionista e professor empenhado não só em revelar ‘os caminhos da arte de escrever narrativas’, num ‘convite irresistível à criatividade’, mas também em ‘facilitar o acesso ao mercado editorial’. Responsável por três concorridíssimos seminários na última Festa Literária de Parati, Carrero promove em Recife oficinas que costumam durar quase o ano inteiro, sempre com lotação esgotada. E, para quem não dispõe de tanto tempo e prefere o aprendizado sem mestre, Carrero oferece ‘Os segredos da ficção’ (lançamento recente da editora Agir), onde ele reúne por escrito as dicas que apresenta em sala de aula. Dividido em três grandes partes - ‘A Voz Narrativa’, ‘O Processo Criador’ e ‘A Construção do Personagem’ -, de ambições abrangentes e quase definitivas, o livro é na verdade um apanhado pouco sistemático de textos curtos sobre determinados aspectos da arte de escrever ficção. Alguns comentários parecem pertinentes, outros são superficiais em excesso. Mas, num caso e no outro, estão muito distantes das reflexões mais profundas, embora igualmente didáticas, do livro ‘Aspectos do romance’, do inglês E. M. Forster, ou de ‘A arte da ficção’, do americano John Gardner - duas referências obrigatórias nesse terreno, e que o próprio Carrero não deixa de citar, embora chame ao primeiro de ‘ingênuo’ e ao segundo de ‘enfadonho’.
‘É preciso acreditar que o trabalho literário exige disciplina e método’, adverte acertadamente Raimundo Carrero, logo na Introdução. Mas se seu livro ajuda a destruir alguns mitos nefastos como o da facilidade da escrita, e a afastar os fantasmas da autocomplacência e da preguiça (de que padecem tantos aspirantes), também é fato que nutre um punhado de outras ilusões. Algumas são apenas opiniões questionáveis, como a de que quem escreve a ficção não é o autor, e sim os personagens. Outras, em contrapartida, são mais graves: sugerir, por exemplo, que a mestria está ao alcance de todos. Para animar seus leitores nessa direção, Carrero aconselha, de saída: esqueçam inspiração e talento. Deus do céu! Os gênios da literatura devem estar se revirando nos túmulos.
Antes de mais nada: não se trata de diminuir os méritos do trabalho de Raimundo Carrero, nem de questionar sua generosa proposta de partilhar a experiência acumulada como escritor. Trata-se de analisar um fenômeno - e este, no fim das contas, é coisa muito mais ampla e, nos aspectos mais problemáticos, ultrapassa as fronteiras específicas das Letras para invadir um terreno bem mais controverso: a democratização compulsória de tudo, verdadeiro clichê nestes dias que correm. Em nome de um irrefreável (e vago) ideal de igualdade, procura-se facilitar o acesso de todos não apenas a bens materiais mas também ao conjunto de valores culturais que integram o valioso patrimônio de nossa civilização. É à luz dessa curva tendencial que se deve analisar a ingênua chantagem de nossos jovens aspirantes a escritores, ao reivindicarem sua imediata ‘inclusão editorial’, numa idade em que deveriam estar, na melhor das hipóteses, lendo e exercitando a humildade de aprender.
Nessa comédia de erros, não há dúvida de que o erro maior é a confusão entre os usos e efeitos que a palavra ‘democracia’ (ah, quantos equívocos em seu nome!) possa ter em esferas tão diferentes quanto, por exemplo, a política e a vida do espírito - onde a Arte brota e floresce. Infelizmente, hoje o verbo democratizar é usado à revelia dessas diferenças. Pode significar, por exemplo, permitir que as pessoas afinal tenham acesso à literatura dos grandes autores, passando a incorporar às suas vidas essa imensurável grandeza; mas também serve - hélas - para difundir a tese populista de que os grandes autores são no fundo inacessíveis aos ‘excluídos’, devendo-se substituí-los urgentemente por similares mais ‘fáceis’.
Feitas as contas, o resultado de todo esse processo não poderia ser outro senão a ascensão do homem-massa, a que se assiste hoje, mas da qual Ortega y Gasset já falava em meados da década de 1920, no clássico ‘A rebelião das massas’. Ao promover uma descrição comparativa do ‘homem nobre’ e do ‘homem vulgar’, o filósofo espanhol nos legou um verdadeiro diagnóstico da degradação intelectual e moral da moderna sociedade de massas. Consciente do caráter explosivo de suas análises, Ortega tomou a precaução de advertir que este seu conceito-chave não era uma apologia da desigualdade social, nem podia ser reduzida a uma classificação econômico-social. Sua distinção entre elite e massas era de natureza moral, inspirando-se na doutrina hindu do dharma e do karma. Segundo Ortega, o ‘homem-massa’ pode se encontrar nas famílias ricas, ao passo que o ‘nobre’ muitas vezes nasce e cresce entre os mais pobres. Ignorar essas sutilezas é perder de vista todo o resto.
A equação se completa, quase perfeita. A este novo homem-massa, preguiçoso e arrogante, que tenta impor sua ignorância como padrão exclusivo de julgamento e referência, talvez interesse que os grandes autores, e seus ‘livros difíceis’, sejam substituídos por uma nova geração de autores-massa, que não ‘ofendam’ sua (falta de) inteligência. É este o perigo de propostas facilitadoras como as de Raimundo Carrero: baixar os padrões de exigência da literatura e, por extensão, da cultura, gerando uma linha de produtos ‘mais baratos’ que sirvam de alimento aos homens-massa.
Desconhecedores felizes desse perigo latente, alheios ao exemplo de disciplina e amadurecimento do ‘patrono’ Machado, nossos jovens parece que ignoram também outras reflexões sutis e contundentes, como a do filósofo romano Sêneca, que dizia que a fama é uma coisa horrível, pois depende sempre da opinião dos outros. Em busca de aplausos, ou de um proverbial lugar-ao-sol, o fato é que a meninada segue se desdobrando numa gincana literária sem fim, em que o amor à literatura é, no fim das contas, o que menos importa. Repetem a seu modo, e em geral sem saber, o destino do ambicioso e arrivista Julien Sorel, trágico protagonista de ‘O vermelho e o negro’ - romance que acabou garantindo a Stendhal bem mais do que os cem leitores inicialmente previstos. De resto, fica a sugestão: se a vida vai imitar a arte, que ao menos tentem escrever um final mais feliz.”
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Sempre é preciso ter em mente que Stendhal não se orgulhava de ter cem leitores. Isso é mais uma constatação do que motivo para escrever. Stendhal entrou em várias polêmicas na sua vida, e de acordo com os relatos, foi bem no final que recebeu a devida atenção de outros célebres autores, como Balzac. Este escreveu um ensaio valoroso sobre a Cartuxa de Parma. Os cem leitores eram citados numa espécie de amargura debochada, como tudo que ele dizia em público, por sinal.
Em todos os campos a descrição acima parece válida: “publish or perish” é, por exemplo, a norma padrão da ciência atual. Quem não publica, não recebe apoio financeiro, nem tem prestígio no meio acadêmico. E assim temos cientistas, doutores, com dezenas de artigos publicados, mas que não sabem ciência básica, simples, ou que não sabem escrever frases com sujeito, verbo e predicado…