O queijo, os vermes, Marx e Ginzbug

Vai encarar, Garschagen?

No Estadão:

Ficção x realidade

Ubiratan Brasil

O historiador italiano Carlo Ginzburg gosta de se aventurar pelos diversos mares de erudição. Mundialmente famoso pelo livro O Queijo e os Vermes (Companhia das Letras), lançado em 1987 e que traz uma apaixonante história sobre a Inquisição e sobre a cultura popular e erudita daquela época, ele agora se volta para as relações entre fato e ficção, entre história e literatura, tema dos artigos presentes na obra O Fio e os Rastros, lançado pela mesma Companhia das Letras (456 páginas, R$ 59).

O título é uma dica do que se pode esperar da leitura do livro. ‘Há muito tempo trabalho como historiador: procuro contar, servindo-me dos rastros, histórias verdadeiras (que às vezes têm como objeto o falso)’, escreve ele, que faz hoje a palestra Medo, Reverência, Terror: Lendo Hobbes Hoje, a partir das 16 horas, no Auditório do prédio da Geografia, na Cidade Universitária, com entrada franca.

Ginzburg, que também participa, na quinta-feira, da 12ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, é conhecido por ser um dos pioneiros no estudo da micro-história, cuja proposição metodológica baseia-se no recorte temático em um assunto bastante específico. Ou seja, observar um determinado aspecto histórico com uma lupa, como se utilizasse o zoom de uma máquina fotográfica.

Ginzburg sofreu forte influência marxista, o que é sempre um desperdício intelectual de um talento, principalmente quando se trata de um leitor de Croce. Aliás, não entendo como alguém pode passar de Croce para Marx. Ginzburg é um homem talentoso, sim, mas seus livros devem ser lido com muita prevenção. E dispomos de tempo hoje para gastá-lo com obras assim? Ginzburg, em entrevista à revista Estudos históricos, disse:

A.A.- O senhor também sofreu influência do marxismo?

Realmente, como todos sabem, a vida intelectual na Itália foi impregnada pelo marxismo. Meu encontro com Gramsci sem dúvida foi muito importante. Lembro-me do momento em que comecei a ler suas Cartas da prisão: era 1957, eu estava terminando o colégio, e foi muito marcante. Depois conheci Cantimori, que havia sido membro do Partido Comunista e tinha traduzido o primeiro volume de O capital como dever de militância.

Cantimori talvez tenha sido o historiador comunista mais importante depois da guerra. Li Hegel e Marx no curso de um intelectual comunista chamado Cesare Luporini, uma figura interessante. Evidentemente, isso também me marcou. Mas acho que os historiadores comunistas daquela época na Itália interessavam-se por Gramsci numa perspectiva um pouco escolástica. Estavam interessados não tanto na história do Partido Comunista, mas na história do movimento operário da Itália antes do partido. Queriam fazer a história política do movimento operário, e este não era um tema que me interessasse.

Lembro que quando fui para Londres, ainda estudante, Cantimori me mandou procurar um amigo seu que falava muito bem o italiano. Era Eric Hobsbawm. Eu era muito tímido e não o procurei. Só o conheci mais tarde, e é engraçado, porque ele foi o primeiro a escrever sobre meu livro Os andarilhos do bem. Mas antes disso li na revista teórica do Partido Comunista Italiano, Società, um artigo de Hobsbawm intitulado “Por uma história das classes subalternas”. Era um artigo que partia de Gramsci, mas sugeria um panorama internacional, esboçava uma perspectiva mais ampla. Àquela altura eu já estava trabalhando com as
feiticeiras e pensei: “Estou no bom caminho.” Foi uma sensação agradável, porque durante muito tempo tive a impressão de que estava completamente isolado. É bom estar sozinho, mas também é bom compreender que existem outras pessoas trabalhando na mesma direção. Eu tinha essa sensação de isolamento porque ninguém, entre os historiadores que eu conhecia, sobretudo depois da morte de Cantimori, se interessava pelo Instituto Warburg, pelas feiticeiras ou coisas desse tipo. Lembro que em 1968-1969 eu era assistente da faculdade em Roma, e todos os estudantes que se interessavam por história só queriam saber de um único
período: o que havia ocorrido em Turim entre maio e setembro de 1920, ou seja, Gramsci, os conselhos operários etc. Não existia nada fora disso.

Pois é, pois é.

1 Comment so far

  1. Norberto Setembro 16th, 2007 1:59 pm

    Estimado:
    Vejo o seu comentário sobre Gramsci, com surpresa. Ele é leitor de Croce e de Gramsci, para um italiano não é inconveniente. O inconveniente parece ser para pessoas que entendem o marxismo segundo os pequeninos partidinhos criptorevolucionários e não conseguem enxergar nele um sistema de pensamento muito mais amplo e rico. Certamente é de bom tom e dá um ar de sabido quem diz: “pois é, pois é” e não explica nada. O que é logico de snobs e não de intelectuais.
    Saudações

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