Um bandido que escreve bem? Não podia ser no Brasil

Houve um tempo em que Charles Bukowski era a bola da vez dos jovens escritores brasileiros. Era uma turma que, no Rio, freqüentava a Prado Júnior, em Copacabana, conhecido ponto de botecos e prostíbulos; e, em São Paulo, a Vila Madalena. Agora, os novos escritores não citam Bukowski nem sob tortura. Não se sabe se é medo ou se mudou, de forma saudável, a referência. Mas era engraçado ver os jovenzinhos de tênis cultivando barbas ralas enquanto bebia o chope ruim que se serve em terras cariocas.
Todo bom leitor sabe que Bukowski era um escritor de quinta. Sua prosa rivaliza com os bares fétidos que freqüentou. Sua escrita, tanto quanto seu corpo de bêbado, fede. O odor se espalha pelas páginas de seus livros e, décadas depois, a fetidez contaminou os jovens de que falei.
E por que falo do supervalorizado Bukowski? Invocar seu fantasma é importante enquanto a obra do americano Edward Bunker vem sendo lançada no Brasil pela editora Barracuda. Já foram traduzidos os bons Cão come cão, Nem os mais ferozes, Educação de um bandido, O menino e Fábrica de animais.
Bukowski me parece ser mais celebrado por sua vida bandida do que propriamente pela obra que deixou, embora a confusão sirva para misturar vida e obra num mesmo milk shake de álcool, pobreza e desolação do espírito. Porque, meu caro leitor, a vida de Bukowski foi pinto perto da de Bunker, que não só comeu o pão que o diabo amassou como arou a terra, plantou e colheu o trigo, fez a massa e depois roubou lúcifer.
Voltando à vaca fria, meu preferido é a autobiografia Educação de um bandido. Há ali um vigor extraordinário que faz um esnobe como eu entrar no submundo do crime fazendo cara de nojo, mas sem vomitar. E só o comprovado QI acima da média explica como um sujeito que passou mais da metade da vida na prisão, lendo de forma desordenada o que lhe caía às mãos, conseguiu forjar um texto tão desenvolto e conciso, à maneira de Hemingway, para contar histórias cruas, violentas, nessa sua sangria autobiográfica.
Bunker compôs um auto-retrato sem pena, humildade, tristeza, lamento ou autocomiseração. Não há resquícios de culpa ou fragmentos de purgação. Bunker não quer ser salvo pela literatura. Seu tempo esgotou-se e ele sabia disso quando escreveu Educação de um Bandido. Sua relação com a literatura é de outra ordem. Talvez uma maldição da qual não conseguiu se livrar até a morte, em julho de 2005, aos 71 anos.
O escritor comeu o pão que o diabo amassou porque tinha fome, pressa, adrenalina, vontade de se jogar no abismo das emoções juvenis e não porque desconhecesse o custo de suas ações. Pelo contrário: assumiu o risco com prazer integral e irremediável.
A mais notável síntese do que foi a vida de Edward Bunker não está na orelha do livro, mas nas três fotos que ilustram a obra: a da primeira página, de quando tinha 19 anos; a segunda, na última página, de quando tinha 33 anos; e a da belíssima capa, beirando os 70.
A foto dele mais jovem mostra a face de um selvagem que exala ódio. É o rosto de lutador de boxe de brio ferido, doido para entrar no ringue. A imagem intermediária já mostra um sorriso doce e sobrancelhas carregadas de placidez cínica. Obviamente, o seu currículo não deixaria ninguém tranqüilo mesmo diante do rosto de vendedor de sapatos que freqüenta a Igreja Universal do Reino de Deus.
A foto da capa, com Bunker velho, pilotando um charuto, nem parece a do homem que vivera grande parte de sua vida preso. Não há desolação. Ali está um homem que sorve feliz a fumaça espessa após décadas enfrentando maços de Camel atrás das grades. É provável que a postura do escritor, à maneira dos felinos selvagens no zoológico, tenha amansado por conta dos anos no cativeiro.
Bunker não suaviza suas confissões. Está lá o menino que roubava o posto de gasolina e com o passar dos anos cometeria toda a sorte de crimes previstos no Código Penal. Sua vida está no livro com todos os detalhes, desde as ações criminosas ao histórico de fugas e violências sofridas e cometidas.
Ele foi um homem que durante a vida reagiu contra todos os que quiseram submetê-lo de alguma forma. A mãe logo cedo declinou da obrigação de criá-lo. O pai, sem traquejo para a função, entregou- o aos cuidados de internatos, escolas militares e reformatórios. Bunker não nasceu anjo. Precisava de amor e rédeas. Não os teve. Deu no que deu.
“Ao contrário da maioria dos criminosos americanos, nasceu branco”, anota o crítico William Styron na introdução, como que para mostrar que o crime corria nas veias de Bunker, embora ele fosse exceção entre uma população criminosa de cor predominantemente negra.
Contrariando o senso comum, o escritor mostra que certos criminosos não se regeneram, mesmo que tenha opções. Mas se não as tiver, o sujeito desce aos infernos e nunca mais volta. Mesmo com a ajuda da senhorita Louise, esposa de Hall Wallis, o importante produtor de cinema responsável por “Casablanca”, Bunker, num dos breves períodos de liberdade, manteve-se no crime.
Pelas mãos dela, teve casa, trabalho, salário e conheceu a mansão do magnata das comunicações William Randolph Hearst, que não gostou nada nada de se ver retratado por Orson Welles em “Cidadão Kane”. Bunker estava em San Simeon, no casarão de Hearst, quando este morreu. E a imagem do velho decrépito na cadeira de rodas, a face marcada por alguns derrames, nunca lhe saiu da cabeça.
E há fatos tão extraordinários numa vida tão dura que é possível, em certos trechos, quicar no sofá: “Pera lá! Isso não!” Como o texto é bom, segue-se, então, serelepe.
Bunker, que nasceu em 1933 em Hollywood, na Califórnia, de onde não saiu, vivia o perigo com ardor. Passeava com desenvoltura pelo submundo e fez fama nas cadeias por quebrar a cara de criminosos tidos como durões. Ganhou respeito, como se diz na prisão, o que significa não ser amolado nem ter ameaçada a inviolabilidade de seu Marquês de Rabicó, como diria Paulo Francis.
Em certo momento, não sentia mais medo de vagar por presídios. Sua casca estava grossa demais pra temer bandidos como ele ou a agressividade dos policiais. O escritor atingiu aquele patamar em que nada mais o detinha.
Mas o tempo passa, a vida esgarça e a serenidade desponta. Bunker foi libertado em 1975, aos 42 anos. Conseguiu a liberdade provisória por conta de um texto sobre a crise racial nas prisões americanas para a revista Harper’s Magazine e da publicação de “Nem os mais ferozes”. Solto, continuou escrevendo ficção e assinou roteiros de sucesso, como o do filme “Expresso para o Inferno”.
Noves fora o turbilhão que foi sua vida, o que fica, afinal, é o seu bom texto. Nem adianta os moços que ainda gostam, e os que fingem não mais gostar, do idolatrado escritor “maldito” Charles Bukowski buscar em Bunker o odor da transpiração ou o mau hálito provocado pelas bebedeiras e comida ruim. Mesmo assim, se os rapazes bebedores de chope de Copacabana, no Rio, ou da Vila Madalena, em São Paulo, tiverem que eleger um ícone estilístico underground, que seja Bunker. Talvez aprendam a escrever.
7 Comments so far
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Bruno, os paulistas ainda lêem muito Bukowski. Acho que todos os amigos de Bortolotto o lêem, e só aí já vai meia literatura brasileira. O que parece ter mudado é o foco: agora os caras estão lendo a poesia dele. Uma cervejada lírica ;~
Os jovens em copacabana (e no Leblon, botafogo, lapa, flamengo, etc) ainda bebem chopp ruim em espeluncas de quinta. Aliás, a maioria deles aqui no Rio exalam o cheio dos livros do CB.
Pergunto novamente. O que você acha do Moacir Scliar como escritor?
Nunca li estes escritores brasileiros que buscavam imitar Bukowski, escolheram Bukowski ou por falta de conhecimento ou porque era mais fácil imitá-lo do que buscar inspiração nesse Edward Bunker ou em Henry Miller. Maldito por maldito tem muito mais maldição bem escrita em Bunker e Miller.
Bukowski é a catapora dos escritores ruins brasileiros: só pega quando se é muito novo, dura pouco, e mais tarde ninguém se lembra se pegou ou não. E não é tão perigosa quanto parece.
Mas existem duas doenças piores que atingem idades um pouco mais avançadas. Uma é o Fonsequismo, a que faz com que todo escritor jovem brasileiro resolva emular Rubem Fonseca. Atinge mais os homens e é quase uma peste.
Outra é a Lispectorose, quando toda mulher que passa dos trinta anos começa a achar que pode escrever como Clarice Lispector. Essa é mais branda e menos perniciosa, mas é igualmente irritante.
Valeu pela indicação do Bunker. Vou procurar.
Abração,
Edson
Haha, eu também cheguei a usar o termo “lispectorose”, que é uma moléstia auto-imune, ao que parece.
Mas também há a john-fantíase, igualmente tenaz.
Grande Garschagen,
Infelizmente, boa parte dos rebeldes-de-escola-particular ainda idolatra o velho bebum e mau escritor - convenhamos, a culpa não é dele, mas dos bobalhões que sequer demonstram disposição pra beber metade do que ele bebia, preferem só a pose de bebuns. Pfui. Bunker é nota 10, a autobiografia do cara pode ser lida de um fôlego só, como um bom (ótimo) romance. Nem os Mais Ferozes é excelente também.
Em tempo: conheci seu blogue há pouco tempo, mas já tinha lido matérias suas em Primeira Leitura. Abandonaste o jornalismo?
abs.