O arco-íris da gravidade
O dia começou cedo mais uma vez, o que me deixou aborrecido mais uma vez, o que é, confesso, o menor dos males. O que me incomoda é esse sono por ter acordado às seis da manhã, algo indigno a qualquer pessoa civilizada. Dormir às seis, ótimo; acordar, nem pensar. Mas, enfim, dei entrada no visto para Portugal. Saí de lá direto para o Vilariño, que já foi um bar importante num Rio de Janeiro cuja história passava pelos bares. Em quatro anos e meio no Rio só havia estado lá uma vez, mas não bebi. Hoje, cedi graciosamente. Estafado após três semanas de busca de documentos, sentei numa das mesas do Vilariño e pedi ao garçon uma generosa dose de Justerini & Brooks, vulgo JB. Enquanto assimilava cada gole do imperial malte, fazia um retrospecto da minha vida a partir da leitura, a partir do momento em que me tornei leitor.
Comecei a ler muito tarde, por volta dos 23, 24 anos. Perdi o fim da infância e adolescência sem ter lido um único livro. E lembro de como eu era e do que me tornei a partir da leitura. E quando digo “o que me tornei” falo de mudança interna, de expectativa de vida, de sonhos que se transformaram ao longo do tempo, não só pela maturidade, mas pelo novo horizonte sem limites que se abriu por causa da leitura. Não é a babaquice de dizer que me tornei uma pessoa melhor, embora isso seja real. O negócio é mais sério: fui civilizado. E só quem sabe a importância da civilização, de ser ou de ter se tornado uma pessoa civilizada, tem a dimensão dessa mudança, desse alçar a um novo patamar de existência.
A leitura, a boa leitura, pode levar a todos os mundos. O homem de bem vai se tornar melhor; o mal, pior. É ingenuidade achar que só a literatura tem o condão de salvar. Fosse assim não teríamos todos os tarados e assassinados cultos que a história registra, e, para ficar num exemplo atual e igualmehte vullgar, o tal do Marcola, que num depoimento no Congresso Nacional citou Nietzsche, que um deputado achou tratar-se de um comparsa do bandido.
Voltando à vaca fria, bebericando aquele uísque ficava matutando feliz que eu não teria feito escolhas diferentes das que fiz. E como quanto mais leio e envelheço mais vejo materializada a burrice humana. A burrice aparece para mim nas ruas como a adenóide gigante que aparece em O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon. E a inteligência, gozado, tão maior e mais bela, está sempre oculta para não ser vergastada pela imbecilidade. Para cada indivíduo inteligente há um milhão de bestas a atacar-lhe a jugular. O uísque acabou, protegi o pescoço e vim para casa.
PS: Estou esbodegado, de novo. Vou dormir um pouco. Mais tarde volto a postar, ok? Não me abandone e queira-me bem.
9 Comments so far
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Bruno,
Parabéns pelo blog! Cheguei através do blog do Levypla e com mais tempo vou lendo os seus posts.
Um abraço,
Alexandre Core
Vá se preparando para se acostumar a beber da bagaceira em Portugal. Aí, depois, inebriado pela lusa bebida, vá se acostumando a postar neste blog as impressões desta terra que originou (ou pelo menos contribuiu muito), para todo este estado de coisas tupiniquins.
Como bom filho de português, já que o representante em questão (meu pai), partiu há muito (e não para o além-mar,ehehehe), espero ter no amigo um porta-voz deste mosaico que continua, de uma forma ou de outra, nos refletindo perante o mundo…
A lingua portuguesa é fascinante. Tenho certeza que o amigo nos passará minudências, camonianas, pessoanianas, saramagonianas ou algo que o valha…
Mas, o que vale, mesmo, é ter um amigo na terrinha que pode (sem abusar!), servir de fonte de consulta das origens do nosso berço, que se não foi esplêndido, deu no que deu…
Abraços expressos,
Fernando Ventura
Oi!
Depois da bienal Rubem Braga passei a ler, e a leitura me deu uma visão mais crítica das coisas.E ler é muito bom.
VC trabalha muito merece descansar.
Gostei muito do post. A leitura também muda a minha vida constantemente. A vida, mesmo a cotidiana parece mais fascinante depois que lemos certas obras. Quando leio livros teóricos começo a enchergar a teoria andando pelas ruas encarnada nas pessoas, mas passa um tempo e constato que a teoria não explica a vida muito bem, pois já dizia Goethe, cinzenta é a teoria, mas verde é a árvore maravilhosa da vida. Outro problema que vejo é que quanto mais leio, fico frustrado porque, embora me civilize um pouco mais como você diz, nunca consigo ser digno das leituras que faço. Leio por exemplo Ética a Nicômaco de Aristóteles e me convenço racionalmente de que a temperança é uma virtude importantíssima, e que os homens temperantes são mais felizer, mas como é difícil ser temperante na vida real! Estou a um mar de distância de me tornar o spoudaios aristotélicos e meus vícios e caprichos não me permitem ser mesmo. Há um descompasso entre o conhecimento que adquirimos e a capacidade de colocá-los em prática, não é verdade. Bom descanso e torne logo a postar.
Gostei muito do post. A leitura também muda a minha vida constantemente. A vida, mesmo a cotidiana parece mais fascinante depois que lemos certas obras. Quando leio livros teóricos começo a enchergar a teoria andando pelas ruas encarnada nas pessoas, mas passa um tempo e constato que a teoria não explica a vida muito bem, pois já dizia Goethe, cinzenta é a teoria, mas verde é a árvore maravilhosa da vida. Outro problema que vejo é que quanto mais leio, fico frustrado porque, embora me civilize um pouco mais como você diz, nunca consigo ser digno das leituras que faço. Leio por exemplo Ética a Nicômaco de Aristóteles e me convenço racionalmente de que a temperança é uma virtude importantíssima, e que os homens temperantes são mais felizer, mas como é difícil ser temperante na vida real! Estou a um mar de distância de me tornar o spoudaios aristotélicos e meus vícios e caprichos não me permitem ser mesmo. Há um descompasso entre o conhecimento que adquirimos e a capacidade de colocá-los em prática, não é verdade. Bom descanso e torne logo a postar.
Ei, Bruno, belo post! De fato as leituras podem nos civilizar, mas isso também requer certo pensar sobre elas..Nunca me esqueço de que Rui Barbosa - se não me engano já dizia “Vulgar o ler, raro o refletir”, ou seja, Marcola ler e não ler dá no mesmo haja vista a leitura não o ter melhorado para o viver em sociedade, por exemplo. E, pensando sobre o comentário do Vinícius de Oliveira, digo que realmente é custoso colocar em prática certos ensinamentos, o da temperança, por exemplo. Porém ter ciência da importância de tais ensinamentos - alheios a uma grande maioria - já é um grande passo para exercitá-los, ainda que não se exercite plenamente. Quando li sobre a temperança, em Aristóteles, soube ali que aquilo era o que eu gostaria de alcançar, e o que alcancei com a meditação.
E o menino começa a se revelar. Belo texto!
Bruno, parabéns. Tenho acompanhado seu blog diariamente nas últimas semanas e posso afirmar, sem exagero, que depois dos últimos posts, você é dono do melhor blog de cultura do país. Culto, sensato, leve, mas sem deixar de dar porrada quando necessário. É parada obrigatória para quem procura lucidez e inteligência na internet. Antes eu o recomendava para amigos. Hoje já o divulgo para qualquer um.
Um abraço e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho.
Edson
Senhor Garschagen
Ah! Portugal. Quem me dera. Ja que não posso ir, faço meus seus olhos. Fico aguardando as noticias, esperando que contenham o mesmo humor e ironia de sempre. Como me divirto, são fantásticas.
Obrigado
Fernando De Lellis