Archive for Agosto, 2007
O problema de Bertrand Russel

Bertrand Russell dizia que as perguntas, em filosofia, eram mais importantes do que as respostas. “A filosofia começa quando alguém faz uma pergunta de caráter geral, e o mesmo acontece com a ciência”. Assim o matemático e filósofo inglês inicia a sua História do pensamento ocidental (1959), guia espirituoso e claro para conhecer um pouco da história da filosofia.
Alinhando hierarquicamente as informações sobre os filósofos, Russell encadeia o pensamento, as obras e os fatos que os precederam e sucederam. Assim, é possível entender como as teorias foram elaboradas num determinado ambiente cultural, social e político, e quais foram os impactos na época e o legado para o pensamento humano.
Embora na matemática o filósofo não se preocupasse nem um pouco com o público não especializado, nessa sua História do pensamento ocidental facilita a vida de quem nunca leu sobre o assunto.
Nos capítulos O cristianismo primitivo e A escolástica sintetiza como a Igreja Católica exerceu uma posição paradoxal na história: ampliou as possibilidades do conhecimento humano calcado na fé, tendo Santo Agostinho desempenhado um papel fundamental; tentou manter os princípios cristãos em meio a decadência geral dos costumes; mas também se investiu de autoridade e tomou para si um poder que, desempenhado por qualquer religião, tende a ser catastrófico.
Tratando de política, Russell mostra no capítulo Empirismo britânico os méritos do liberalismo na Inglaterra do século XVII. O pensamento liberal, segundo ele, oxigenou a política e a filosofia e, de modo pragmático, representou uma nova atitude em relação aos problemas sociais e intelectuais numa época em que a maior parte da Europa estava “dilacerada pelas lutas religiosas e torturada por um fanatismo intransigente”.
Nesse período, o pensamento de John Locke (1632-1704) impulsionou o debate intelectual. No Ensaio sobre o entendimento humano, Locke foi o primeiro, segundo Russell, a tentar estabelecer diretamente os limites da mente e o tipo de investigação que é possível realizar. E sua investigação epistemológica, a base de uma filosofia crítica empírica nos dois sentidos, influenciou George Berkeley, David Hume, J. S. Mill e Immanuel Kant.
O, por assim dizer, problema de Russelll é nem sempre explicar devidamente aquilo que julga serem erros e acertos filosóficos. Ao afirmar, por exemplo, que uma das principais dificuldades da teoria do conhecimento de Locke é a explicação de como ocorre o erro, não avança mais do que observar que o filósofo não foi sistemático no tratamento do problema e muitas vezes abandonava um raciocínio diante das dificuldades.
Russel não tinha qualquer senso prático. No ensaio Bertrand Russel: um caso de tolices lógicas, o historiador inglês Paul Johnson lembra que “ninguém se mostrou mais distante da realidade física quanto Russel”. Segundo Johnson, o filósofo não conseguia cumprir nenhuma tarefa do dia-a-dia, sequer preparar o chá que tanto adorava. Essa inabilidade não era somente no aspecto físico. O mundo humano também o desconcertava constantemente, escreveu o autor de Tempos modernos. Era profunda sua falta de auto-conhecimento.
Russell nasceu em Wales, Inglaterra, em 1872. Talentoso expositor de idéias, parece ter escrito sobre tudo, da geometria passando pela filosofia, justiça, átomos e até, ora!, ora!, casamento. Sua obra-prima, segundo a crítica, é o Principia mathematica, em parceria com Alfred North Whitehead. “Nenhum intelectual na história jamais deu conselhos à humanidade durante um período tão longo”, observou Paul Johnson, para quem Russell era o típico intelectual aristocrata, que, embora tenha se assumido comunista (e, curiosamente, mantido um espírito liberal), desprezava o povo e às vezes tinha pena dele.
O filósofo morreu em 1970 após uma vida atribuladíssima, profícua, com prisões por atividades antibélicas, 68 livros, centenas de artigos para jornal e o Nobel de Literatura (1950).
5 commentsDá-lhe Schopenhauer!

Gosto muito de Schopenhauer. Seu arame farpado verbal me faz até edulcorar seus exageros pessimistas e gritar vivas! Ele tem textos poderoso e idéias estimulantes: nada de relativismos; o que é é e ponto final. Em Da Leitura e dos Livros, recolho e reproduzo esse texto que eu adoraria ter escrito:
2 commentsBoa e má Literatura
O que acontece na literatura não é diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrigível plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legiões, preenchendo todos os espaços e sujando tudo, como as moscas no verão.
Eis a razão do número incalculável de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e atenção do público - coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins - e são escritos com a única intenção de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, não são apenas inúteis, mas também positivamente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura actual não possui outro objectivo senão o de extrair alguns táleres do bolso do público: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante, para adestrá-lo a ler a tempo, ou seja, fazendo com que todos leiam sempre a mesma coisa, isto é, a última novidade, de modo que no seu círculo de relações eles possam ter matéria de conversação: a esse fim servem os maus romances e as produções semelhantes de penas algum dia renomadas, como as de Spindler, Bulwer, Eugênio Sue e outros, que eram lidos no passado. Mas o que pode ser mais miserável do que o destino de tal público das belas-letras, que se vê obrigado a ler perpetuamente as escrevinhações mais recentes de cabeças tão comuns, cabeças que escrevem apenas por dinheiro, e por isso as suas produções encontram-se sempre em grande quantidade, enquanto das obras dos espíritos raros e superiores de todos os tempos e países, esse público conhece somente o nome! De modo particular, a imprensa quotidiana das belas-letras é um meio engenhado com astúcia para roubar do público que se interessa por estética o tempo que ele deveria dedicar às produções autênticas do género, em prol da própria educação, e para fazer com que esse tempo seja dedicado às obras malfeitas das cabeças banais.
Como as pessoas lêem sempre apenas as novidades em vez das melhores obras de todos os tempos, os escritores permanecem no âmbito restrito das idéias circulantes, e a época afunda-se cada vez mais na sua própria mediocridade.
Por isso, no que concerne à nossa leitura, a arte de não ler é de máxima importância. Ela consiste no facto de não se assumir a responsabilidade por aquilo a que todo o instante ocupa imediatamente a maioria do público, como panfletos políticos e literários, romances, poesias e similares, que são rumorosos justamente naquele determinado momento, e chegam até a atingir várias edições no seu primeiro e último ano de vida. É preferível então pensar que quem escreve para loucos encontra sempre um grande público, e que o escasso tempo destinado à leitura deve ser exclusivamente dedicado às obras dos maiores espíritos de todos os tempos e de todos os povos, que sobressaem em relação ao restante da humanidade e que são assim designados pela voz da glória. Apenas estes instruem e ensinam realmente.
Nunca se chegará a ler um número muito reduzido de obras más nem obras boas com muita frequência. Livros maus são um veneno intelectual: estragam o espírito. A condição para ler obras boas é não ler obras más, pois a vida é breve, e o tempo e as forças são limitados.
A grandiosidade da releitura

Giacomo Leopardi, em sua Pequenas obras morais, tem um trecho esplendoroso sobre a segunda leitura, a importância monumental da segunda leitura, daquela oportunidade repetida que o intelecto tem para renovar o espírito, ampliar as possibilidades de entendimento ou descobrir uma grande obra onde antes só havia silêncio e trevas.
A Importância de uma Segunda Leitura
As obras mais próximas da perfeição têm normalmente a faculdade de à segunda leitura agradarem mais do que à primeira. O contrário acontece com muitos livros compostos com um talento e um esforço apenas medíocres, mas apesar disso não privados de algum valor intrínseco e aparente; os quais, lidos uma segunda vez, descem na opinião que o homem deles fizera quando da primeira leitura. Mas se forem lidos, tanto uns como os outros, uma única vez, enganam por vezes de tal maneira até mesmo os doutos e experientes, que os ótimos são preteridos a favor dos medíocres.
Lembro assim, de chofre, de livros cujas releituras me abrem mundos. São assim, por exemplo, Os ensaios, de Montaigne. E você?
5 commentsHoje tem
Mais um dia apertado, desta vez por trabalhos que não ousam esperar. Senão, não garanto o uísque das crianças, não é mesmo? Vamos lá, não tão produtivo, mas limpinho. Ah, só volto a postar domingo.
1 commentTem mas acabou. Agora só amanhã
Hoje foi impossível pensar e escrever qualquer coisa digna aqui. Muita coisa ainda a ser resolvida antes da viagem. Volto amanhã, ok? Não me abandone.
1 commentO grande Albee em documentário

Na Folha:
Perfil disseca vida e dramaturgia de Albee
VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL“Dobrei o guardanapo, após acabar o café, e me levantei da mesa. Subi as escadas, arrumei uma pequena mala e fui embora. Nunca olhei para trás.”
Na boca do dramaturgo Edward Albee, 79, parece fala de um dos seus personagens em movimento de “remoção de ilusão”. Mas a passagem descreve o dia em que o autor abandona a casa dos pais adotivos, aos 18 anos. “Eu não era o que eles compraram”, afirma, em desarmado diálogo com o crítico Frank Rich (”NY Times”).
É uma conversa saborosa, que não cai na louvação. Antes, privilegia o embate de idéias e disseca a escrita e as convicções pessoais de Albee.
Em cada peça, diz o dramaturgo, é como se ele segurasse um espelho na frente do público. Exemplo: o desnudamento psicológico do casal de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”.O programa intercala trechos de leituras, montagens e adaptações para o cinema de textos de Albee. Em meio às “carapaças” que o entrevistado aponta na sociedade americana, o público é situado quanto aos anos de formação e à amizade com Tennessee Williams.
No final da década de 1940, Albee aportou no boêmio Greenwich Village, NY, onde conheceu Pollock, W.H. Auden e Thornton Wilder. Chegou a roubar uma máquina de escrever para pôr as primeiras cenas no papel. E deu no que deu.
EDWARD ALBEE
Quando: hoje, às 23h
Onde: Film & Arts
Quem já leu Três mulheres altas e Quem Tem Medo de Virginia Woolf? não tem dúvidas de que Albee é um grande dramaturgo. Ele consegue trabalhar a tensão dos diálogos sem a vulgaridade que normalmente se lê em diálogo nos quais os personagens se odeiam ou disputam algo - posição, cargo, dinheiro, mulher, homem etc.
Quem puder gravar esse documentário em DVD e me mandar depois, agradeço imensamente.
1 commentE lá vem mais Jorge Amado…

Na Folha (assinante):
Obra completa de Jorge Amado vai para a Companhia das Letras
Catálogo estava com a Record; relançamentos começarão em 2008
EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCALA Companhia das Letras anunciou ontem que venceu a concorrência entre oito grandes editoras brasileiras para publicar a obra completa do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001). Os livros começarão a ser relançados em 2008 e os primeiros títulos previstos são três adultos (”Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Mar Morto” e “Capitães de Areia”), um infantil (”A Bola e o Goleiro”) e ainda uma antologia de artigos inéditos do escritor.
Desde 1975 a obra de Amado era publicada pela editora Record, com sede no Rio de Janeiro. Com a negociação, feita ao longo deste mês, todos os 32 títulos do catálogo passam a pertencer à Companhia das Letras.
Segundo João Jorge Amado, 60, filho do escritor, todas as editoras concorrentes atenderam ao pedido da família “do ponto de vista econômico”. “Mas a proposta editorial da Companhia nos pareceu a melhor, embora todas tenham sido boas”, disse João Jorge, que não quis revelar os valores da negociação. A Companhia também não disse quanto pagou.
A obra de Jorge Amado não me apetece. Quando folheio seus livros ou leio algo a seu respeito, imediatamente me vem a frase do Joel Silveira:
“Jorge Amado é uma porcaria, sempre foi”.
1 commentAdeuzinho para os jornais? Cacilda!

Para quem se interessa por jornalismo, um texto bem interessante no New York Review of Books assinado por Russell Baker. O artigo é bastante extenso, por isso reproduzo só a introdução:
No commentsGoodbye to Newspapers?
By Russell Baker1.The American press has the blues. Too many authorities have assured it that its days are numbered, too many good newspapers are in ruins. It has lost too much public respect. Courts that once treated it like a sleeping tiger now taunt it with insolent subpoenas and put in jail reporters who refuse to play ball with prosecutors. It is abused relentlessly on talk radio and in Internet blogs. It is easily bullied into acquiescing in the designs of a presidential propaganda machine determined to dominate the news.
Its advertising and circulation are being drained away by the Internet, and its owners seem stricken by a failure of the entrepreneurial imagination needed to prosper in the electronic age. Surveys showing that more and more young people get their news from television and computers breed a melancholy sense that the press is yesteryear’s thing, a horse-drawn buggy on an eight-lane interstate.
Then there are the embarrassments: hoaxers like Jayson Blair and Stephen Glass turn journalism into farce. The elite Washington press corps is bamboozled into helping a circle of neoconservative connivers create the Iraq war. What became of heroes? Journalists used to dine out on the deeds of Bob Woodward and Carl Bernstein during Watergate; of David Halberstam, Neil Sheehan, and Malcolm Browne in Vietnam; of “Punch” Sulzberger and Kay Graham risking everything to publish the Pentagon Papers. Instead of heroes, today’s table talk is about journalistic frauds and a Washington press too dim to stay out of a three-card-monte game.
Rupert Murdoch of course has long spread melancholy in newsrooms around the world, but it was the disclosure in May that the Bancroft family, which controls The Wall Street Journal, might be ready to sell him their paper for five billion dollars that really struck at journalism’s soul. The sale of another newspaper is common enough these days, but The Wall Street Journal is not another newspaper. It is one of the proudest pillars of American journalism. Like The New York Times and The Washington Post, it has for generations been controlled by descendants of a founding patriarch.
IMPRESSIONANTE: Músico diz “xô satanás!” para projeto com dinheiro público

Quase caí da cadeira hoje de manhã ao ler essa nota da coluna Gente Boa, em O Globo:
Tem Lei Rouanet? Estou fora
Músico pede para sair de espetáculo com incentivo fiscal
O músico Zé Rodrix, um dos diretores do espetáculo “Rei lagarto”, sobre a vida de Jim Morrison, pediu demissão. Tomou a decisão ao ler, em Gente Boa, que a peça, com estréia marcada para outubro, teria fundos da Lei Rouanet. Ele enviou o seguinte e-mail aos produtores:
“Acabo de descobrir exatamente nos detalhes desta notícia que não vou mais participar do projeto. Vocês conhecem a minha opinião sobre Renúncia Fiscal e Leis de Incentivo. Enquanto isto era um empreendimento privado, no máximo com os patrocínios e os apoios diretos de empresas que se associariam ao empreendimento, eu estava dentro. Infelizmente, ao entrar na jogada da Lei Rouanet, MiniCul etc., ele se torna impossível para mim.
Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e os sustento da arte não é, a mer ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria liberdade. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estare negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público.
Desejo ao pessoal da produção o máximo de sorte e sucesso possíveis, e sei que serão muito felizes, graças à qualidade artística de todos os envolvidos”.
Nunca tinha ouvido falar em Zé Rodrix e já virei fã do sujeito (muito embora, pela minha pesquisa, nunca irei ouvir o que ele compôs). É preciso ter muito colhão para sair de um trabalho nesses tempos bicudos e uma coragem exemplar para apontar razões dessa ordem. O meio artístico é conhecido por ter uma massa que está sempre em busca de uma boquinha no serviço público para se arranjar ou de um edital para financiar suas “aventuras pessoais” (gostei muito dessa expressão, eheheh!).
Espalhe essa mensagem do Rodrix como exemplo de caráter do artista honesto que mantém princípios.
14 commentsFrancisco Umbral: sua escrita quase absolvia suas idéias

Você certamente já leu sobre a morte de Francisco Umbral. Achei bom esse obituário do El Pais:
REPORTAJE: Fallece el cronista irreverente
Muere Umbral, la voz de la ironía
El columnista, que publicó más de ochenta libros, falleció ayer a los 72 años
JOSÉ ANDRÉS ROJO
Francisco Umbral murió en una clínica de Madrid durante la madrugada de ayer a los 72 años de un fallo cardiorrespiratorio. Considerado uno de los grandes columnistas de las últimas décadas, supo llevar a la prosa periodística una fuerte carga lírica, una audaz irreverencia y llenó sus textos de humor, sarcasmo e ironía. Desde 1961, cuando llegó a Madrid y se zambulló en el Café Gijón, su fama empezó a crecer y se consolidó escribiendo en los periódicos más importantes. Publicó más de ochenta libros y obtuvo premios como el Príncipe de Asturias (1996) y el Cervantes (2000). Hoy será incinerado a las 10.30 en La Almudena, y descansará definitivamente en el nicho en el que reposa su hijo, que falleció a los seis años.
Murió Umbral. Y ya circula la leyenda de que lo hizo mientras dictaba su última columna. Lo dijo Esperanza Aguirre que se lo transmitió el doctor Abarca y que a éste se lo había comentado María España, la mujer del escritor. Le dijo que estaba recogiendo las frases que le dictaba, pero que ya no se le entendía. La anécdota subraya que de todo lo que escribió Francisco Umbral lo más importante fueron sus colaboraciones diarias en la prensa. Era un hombre de su tiempo, que se zambulló en sus contradicciones para dar cuenta de ellas todos los días, así que murió con las botas puestas.
“¿De qué he posado…? De quinqui, de dandi, de revolucionario, de todo”, escribió
A las 2.30 de ayer, a Umbral se le paró el corazón en la clínica Montepríncipe de Boadilla del Monte, en las afueras de Madrid. El fallo cardiorrespiratorio se llevaba así a uno de los escritores que más hizo por incorporar la energía de la lengua española, sus variedades y recursos, su riqueza de términos y sus posibilidades expresivas, sus metáforas y su fuerte carga poética, a la escritura de todos los días, a la prosa periodística. Umbral llenó sus columnas de humor, ironía y sarcasmo y las cargó con la pólvora de la actualidad. Sus víctimas fueron muchas y de condición muy variada. Muchos fueron también los que fueron bendecidos con sus elogios.
Por el tanatorio de la clínica en la que murió, informa Silvia Blanco, pasaron ayer políticos (Ruiz-Gallardón, Esperanza Aguirre, Rajoy, César Antonio Molina), periodistas, personajes de la vida social (Jaime de Marichalar, Ramoncín, Massiel) y algún escritor (Luis Alberto de Cuenca). Uno de sus seguidores más fieles tachó de “miserable” a la Academia por no haberlo integrado en la institución.
Fue registrado como Francisco Pérez Martínez cuando nació en Madrid el 11 de mayo de 1935. Se trasladó pronto con su familia a Laguna de Duero, en Valladolid, donde pasó sus primeros cinco años. A los 10 empezó su formación escolar y a los 11 lo echaron del colegio. Comenzó a trabajar como botones tres años después. Así que llegó a la literatura de manera autodidacta y fueron sus lecturas las que verdaderamente lo formaron (”En el libro no hay nada. Todo lo pongo yo. Leer es crear. Lo activo, lo creativo, es leer, no escribir”, escribió). Su obra da cuenta de ello: no sólo en la irrupción permanente en sus artículos de los clásicos (Quevedo, sobre todo), los ilustrados, la generación del 98 y las vanguardias, sino también en los libros que dedicó a Larra, Lorca, Valle y Ramón y en su polémicos Diccionario de literatura y Las palabras de la tribu, donde mostró sus filias y fobias de manera arbitraria y caprichosa.
Empezó a publicar en Cisne, una revista del Sindicato Estudiantil Universitario (SEU) y su primer gran paso fue en 1958 cuando de la mano de Miguel Delibes empezó a colaborar en El Norte de Castilla. De ahí fue a León y en 1961 desembarcó en Madrid, como quien dice directamente al Café Gijón, y fue esta ciudad la que le dio la fama y la que se convirtió en una de sus materias literarias más queridas. Colaboró con los diarios Ya, ABC, La Vanguardia, EL PAÍS (entre 1976 y 1988), Diario 16 y, desde 1989, El Mundo, además de estar presente en numerosas revistas. Umbral se casó en 1959 con la fotógrafa María España y tuvo un hijo, Pincho, que falleció de leucemia a los seis años.
En Mortal y rosa (1975), para muchos su mejor novela, Umbral volcó su dolor por esa pérdida que lo marcó de manera definitiva (”El hijo es un relámpago de futuro que nos deslumbra. Por él, por mi hijo, he visto más allá, más adentro, y más lejos, y quizás, ay, eso basta”). Toda su literatura ha sido siempre testimonial, con una arrolladora presencia del yo y con un obsesivo afán por ser memoria de una época y de unos lugares. Sus obras de ficción tienen así mucho de autobiográfico, como lo tienen sus ensayos: en realidad, la literatura de Umbral tiene la consistencia de una larga columna, que no tiene necesariamente que construirse con la prisa de la actualidad y que puede desarrollarse también en espacios mucho mayores.
“¿De qué he posado yo en la vida? De quinqui, de dandi, de revolucionario, de todo”, escribió Umbral. Las gafas de pasta oscura, la melena larga, la bufanda, los jerseys claros de cuello alto, la chaqueta de pana, el largo abrigo (según las temporadas). El gato, del que tanto habló, y las mujeres. La política y el poder, la crónica rosa, las anécdotas sobre los personajes públicos que iba atrapando, sus rotundas afirmaciones y su gusto por provocar. Todo eso forma parte del personaje.
Reconocieron su escritura galardones de la importancia del Príncipe de Asturias (1996) o el Cervantes (2000) -tras una maratoniana reunión del jurado y después de 10 votaciones-, amén de otros muchos que resultaría demasiado prolijo citar. No tuvo suerte con la Academia: en 1986 fue presentado por Delibes, Cela y Areilza para ocupar el sillón F. A pesar del respaldo de sus padrinos, el elegido fue José Luis Sampedro.
Entre sus libros, que son más de ochenta, destacan Las ninfas (1975), La noche que llegué al Café Gijón (1977), Trilogía de Madrid (1984), El socialista sentimental (1999), ¿Y cómo eran las ligas de Madame Bovary? (2003) y Días felices en Argüelles (2005). En marzo de este año publicó el último, Amado siglo XX, donde hacía un balance de su vida.
“Quizá la literatura sea eso”, escribió en Mortal y rosa. “Desaparecer en la escritura y reaparecer, gloriosamente, al ser leído. Por eso no hay que hacer demasiado evidente el esfuerzo del pensamiento al escribir. Para no entorpecer la resurrección de la carne que glorifica al autor cuando es leído. Toda lectura tiene, por lo menos, este doble fondo. Hay una superficie de prosa, de ideas, y debajo, como una figura inmovilizada dentro del hielo, está el autor”.
A maioria dos obituários e textos que li sobre a morte de Umbral destacava muito mais seu trabalho como colunista de jornal do que sua obra literária, que não li, ao contrário de seus artigos, que sempre acompanhava. Umbral escrevia muito bem. E era isso que me fazia voltar a seus artigos no jornal El Mundo (aqui você pode ler vários deles). Era dificílimo eu concordar com algo que ele escrevia, mas leia o texto aí embaixo e veja se eu não tinha razão em lê-lo:
No commentsLOS PLACERES Y LOS DIAS
Las criadas
FRANCISCO UMBRAL
Si pone usted un anuncio solicitando una criada, porque la necesita, en seguida verá pasar por su puerta toda la variedad errática del mundo del trabajo y del paro, todo el material suficiente para escribir una novela o una función de Jean Genet, que sacó sus obras maestras del mundo de las criadas y así todo le abuchearon en Barcelona y le aplaudieron en Madrid.
Si busca usted criada encontrará la joven y desesperada servidora, la ilustre fregona de Cervantes, que también anduvo mucho de criadas, solitario como era y necesitado del silencio que sólo emana de una criada en su timidez o su temor. Hay la criada hispanoamericana, en estos tiempos de inmigración/emigración, que suele ser más confortable que la criada africana, tan sorpresiva para nosotros. Pero las criadas no se dividen geográficamente sino psicológicamente. Son mujeres de fantasía, las únicas que segregan un silencio doméstico que nunca segregó la santa esposa, la del tango Volver, que no vuelve nunca, etc. Las dominicanas son también manicuras y hacen un trabajo muy fino que yo recomiendo al lector de manos sospechosas.
Hay la criada marroquí que ha obedecido la llamada de París, pero luego se queda en Madrid, un París que ella desconocía y que se vuel- ve mucho, se da la media vuelta para mirarla y decirle cosas en el francés del bachillerato. Nosotros, madrileños acérrimos, siempre gustamos de las mujeres árabes, aunque también nos atrae la criada de manos escamosas, tal y como la viera Ramón: «En este pasillo comienza la excursión hacia la criada de manos escamosas». O hacia aquella que nunca había visto carne latina y denunciaba ingenua: «Señora, señora, que le he visto las manos al señorito». También venía la criada que llevaba una señorita dentro, enfermiza y pulcra, que el poeta canta como «Un nido de mujer en el árbol del hotel», porque la criada de hotel no es lo mismo que la criada doméstica, sino que se le han contagiado muchos perfumes de Christian Dior.
En nuestra vida ha habido muchas o pocas mujeres y por eso sabe uno que las criadas son variadas y finas como las marquesitas, sólo que la cruel cultura del dinero ha elegido unas mujeres para limpiar y otras para emborronar. Las criadas de mi infancia nos enseñaban a leer el reloj, lectura que ellas mismas acababan de consumar. Aquellas criadas se hacían fotos con nosotros, en el parque, ilusionadas como si se retratasen con el princi- pito de Gales. Aquí en Madrid una criada adolescente, Piedita, se enamoró de mí. A una criada se le nota el amor en el cocido que nos trae.
La mujer casadera o casamentera habla mucho de criadas con otras mujeres. En la posguerra franquista se habló mucho de criadas, que eran como la política para los hombres: un estudio del ser humano. Era cuando nadie tenía criada y estaba hablando de memoria. Ahora vuelvo a oír conversaciones y hasta comedias con mucha criada. La vuelta de las criadas ha sido la vuelta del capitalismo de medio pelo. Incluso las criadas tienen criada, cosa que me parece muy bien. Y luego está la criada digital, que es la televisión. Pero la televisión es parlanchina, mientras que la criada habla, lejana y sola, la lengua de su país remoto o árabe o el español de su pueblo.