Archive for Julho, 2007

André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente

Porra, Garschagen, que texto ducaralho. Mas, opa, você falou mal de mim? Corajoso sou eu, escritor de vanguarda, experimental, transgressor, jovem, contemporâneo...

Adoro colecionar textos, ou apenas frases, tanto defendendo quanto maldizendo a crítica. É comum escritores, por boutade, sinceridade ou rancor, lançarem vitupérios contra a dona crítica. É compreensível, até porque a maioria das críticas é muito chata, ilegível ou maldosa mesmo. Lembro do escritor Cesare Pavese comparando o crítico a uma mulher na idade crítica: rancoroso e reprimido, o que sempre achei uma maldade com a mulher na idade crítica. Ou o crítico inglês Kenneth Tynan ao definir o crítico como alguém que conhece a estrada mas não sabe dirigir. E ainda o escritor William Somerset Maugham quando disse que as pessoas pedem uma crítica, mas querem mesmo um elogio.

Garschagen, meu filho, onde você quer chegar? Já digo, já digo. Leio no Rascunho um texto de André Sant’Anna, que se apresenta e é apresentado como escritor. Leia o texto e volto logo depois:

PENETRAÇÕES - André Sant’Anna

Corajoso é o crítico literário Jerônimo Teixeira, que abriu mão do afeto de seus semelhantes literatos, que se despiu de toda a vaidade, abrindo mão até mesmo da possibilidade de expor, a nível de literato iniciante, jovem, a seus semelhantes críticos literários, qualquer trabalho que venha a fazer, a nível de literato semelhante meu, em troca de viver sua vida a redigir a opinião de seu superior, a nível de hierarquia, o chefe, na revista de alta circulação nacional, que a média burra dos consumidores de revistas nacionais julga ser inteligente e, ganhar no final do mês, a nível de trabalho honesto, o salário mais ou menos que a Veja paga a ele, crítico literário, ainda jovem intelectual formador de opinião, com alto poder de penetração nacional, o que não deixa de ser mais ou menos legal e suficiente para dar conta, mais ou menos, da vaidade, que todos nós, a nível de gente do meio literário, temos, claro, coisa normal, essa vaidade, já que ninguém é livre desse pecadilho, a nível de artista ou formador de opinião nacional, com alto poder de penetração inteligente.

Corajoso é o experiente jornalista e semelhante meu, a nível de literato, Mario Sabino, chefe do crítico literário Jerônimo Teixeira, ao atrair para si, a nível de chefe de revista burra para consumidores médios de revistas nacionais que se julgam inteligentes, o ressentimento de seus semelhantes literatos, aos quais trata com desprezo monumental, com um grande desprendimento de vaidade, já que possui a coragem de assumir publicamente, a nível de programa inteligente de literatura da televisão, programa que só gente inteligente, a nível de se interessar por literatura, assiste, que ele, o maduro jornalista, o inteligente semelhante meu, a nível de universo literário, é melhor, superior, a todos os seus, dele, do chefe formador da opinião de seus subalternos formadores de opinião com alto poder de penetração nacional, alto poder de viver uma vida legal, vida de formador de opinião, em São Paulo, de noite, assim no inverno, aquele friozinho, aqueles bares legais, um grupo novo de amigos, o crítico literário, lá, desbravando aos poucos as entranhas da grande capital, da cultura multidisciplinar do friozinho de inverno, na noite de São Paulo, aquelas sacadas sobre a literatura, a arte, a morte, os semelhantes inferiores, semelhantes literatos. Pô, se o Mario Sabino escreve melhor do que os outros, por que não assumir publicamente essa superioridade? Só as pessoas corajosas têm a coragem de se exibir, em um programa inteligente literato, assistido apenas por literatos inteligentes, a nível de literatura, dizendo que seus colegas de arte sofrida, apenas um lápis, um papel e a madrugada sombria, ruídos distantes na madrugada cor de laranja da grande metrópole nacional, continental, internacional, mundial, cosmopolita, penetrada semanalmente pela opinião corajosa e, por que não?, desmistificadora, iconoclasta, sim, purificadora opinião do experiente e corajoso editor cultural praticamente internacional, são farsantes corruptos, literatos exploradores do dinheiro público, atrasados vanguardistas, usurpadores da arte, essas paradas. Agora o cara vai ficar meio sem graça de aparecer por aí, vai pagar o preço por sua destemida coragem.

Corajosos são esses formadores de opinião literária, com alto poder de penetração, a nível de suplementos, blogs, revistas e jornais inteligentes, a nível cultural, que têm a coragem de desagradar a todos os seus contemporâneos, a nível de gente inteligente, a nível de meio literário, a nível de literatos, afirmando, sem qualquer sombra de dúvida, que somos todos, a nível de literatos contemporâneos, muito inferiores ao Machado de Assis.

Alguém, afinal, precisa falar a verdade, doa a quem doer.

Corajoso sou eu, escritor de vanguarda, experimental, transgressor, jovem, contemporâneo, que, ao invés de ganhar uma graninha estável, redigindo, com facilidade extrema, as opiniões corajosas de algum chefe de revista com alto poder de penetração nacional, ou até estadual, já vale, uma graninha mais ou menos, que dê pra sair de noite no inverno gostosinho de São Paulo, a arte, a morte, a literatura, pensando grande, pensando maior, varando madrugadas a escrever um grande romance, sem concessões ao gosto médio dos consumidores burros de revistas inteligentes, para ser reconhecido por semelhantes literatos, inteligentes, que varam madrugadas, sem dinheiro, pensando na arte, na morte, na literatura, nos livros dos outros, para ser ridicularizado na Veja, compreendido por semelhantes pobres, tímidos, com baixo poder de penetração sexual, e depois ir para o escritório na segunda de manhã, para ganhar uma graninha, para não precisar redigir a opinião corajosa de um chefe intelectual com alto poder de penetração anal, a nível de formador de opinião nacional.

Essa de falar do Mario Sabino e do Jerônimo Teixeira, que me chamaram de débil mental, na revista independente de alto poder de penetração nacional, foi corajosa, hein!?!?

Pois é. É lamentável que um escritor criticado prefira partir para o ataque pessoal a defender sua obra. E quando não há obra a defender? Aí é um problema sério. Há pouco mais de um ano a Veja deu um cacete justo no moço, que não só faz biquinho como acusa Jerônimo Teixeira de estar a serviço, não de sua consciência e preferências estético-literárias, mas do seu chefe, o redator-chefe de Veja, Mario Sabino, jornalista culto e de texto impecável. E aí você me pergunta: quem diabos é André Sant’Anna? E eu, em vez de ficar aqui enumerando os defeitos de seu trabalho, prefiro expô-los em praça pública. Olha só como esse moço escreve:

Nothing is real

No banheiro do palácio da rainha da Inglaterra:
” George, porra, passa o baseado.”
” Peraí, acabei de acender.”
” Vai logo, senão chega o guarda.”
” Deixa de ser paranóico, John. Daqui a pouco você vai ser Lord Lennon.”
” Só se for o Lord da privada.”
Barulho de descarga.
” Cacete. Não faz barulho.”
” E agora com vocês, o fabuloso de Liverpool, o nowhere man, mais famoso que Jesus Cristo, Lord John Lennon - o nobre beatle de olhos vermelhos da privada do Palácio de Buckingham.”
” Eu queria ser um polvo.”
” Ih! O Ringo tá doidão.”
” Eu sou um polvo, eu sou um polvo.”

Tem mais Garschagen? Ô…:

Esse cara tá mal

Porra… É só ir lá e ver. É ou não é? Tudo é assim. Ta tudo lá, claro e evidente, você tá me entendendo? Todo mundo não sabe que tudo que é policial rodoviário leva caixinha? Porra… É claro que sabe. Se você for parado na estrada, seu carro tá com problema, o policial descobre… Você não vai ter que dar uma grana pro cara, pra não ter que pagar uma grana maior de multa? Porra… É claro que vai. Corrupção, porra… Todo mundo não sabe que, pra ganhar eleição, você vai ter que arrumar uma grana preta e que pra ganhar essa grana preta, você vai ter que fazer uns acordos estranhos com umas empreiteiras, uns financiadores escondidos, essas parada? Caixa dois, essas porra que todo mundo sabe? Você não sabe que, pra governar o país, a nível federal, o cara vai ter que comprar o Congresso todo? Deputado, senador e o caralho… Porra… Se todo mundo sabe, se eu sei, se tudo que é jornalista sabe, porque é que fica todo mundo espantado, falando isso e aquilo na televisão, quando algum filha da puta fala que algum desses filha da puta aceitou uma graninha pra fazer uma parada?

Nossa!, Garschagen… Está achando muito? Ô…:

É O CARALHO

Era de noite, chovia, dentro do ônibus, olhando pra fora, em Copacabana. Tinha visto um filme do Buñuel e nem sabia que era do Buñuel, nem sabia que havia o Buñuel. Gostou das duas atrizes que faziam o personagem feminino principal. Estava apaixonado por elas.

Em casa, explicou quem era o Buñuel.

Não se importou que tivesse matado aula para ver o filme do Buñuel.

Era pra ver qualquer filme, não o do Buñuel especificamente. Deu sorte com o diretor e eram muito lindas mesmo, muito charmosas mesmo, que fazem ficar apaixonado. Podiam ensinar tudo e dar muito carinho e ser mães e ser namoradas amantes professoras.

Sabia que ia ser assim, se acontecer de novo, não vai perceber, está sempre acontecendo. Estavam esperando, não está mais começando, não vai virar mito. Não dá pra inventar toda hora. O que deve ser ser dos Beatles? O George Harrison, pensa no Itamar Assunção, lembra da Alzira, naquela noite, tão relaxado com as mulheres, nadou nu no mar. Perguntou quem era. Foram à praia, à cachoeira, deu um passe de calcanhar, jogou muito bem, brigou com o amigo, falou no telefone, outro dia, uma saudade, do amigo, fazendo coisas muito bacanas, conseguiu ficar músico, andando pela calçada, em Copacabana. Ficou lá deitado na banheira de hidromassagem, podia continuar pra sempre, eterno, tudo, inventando de novo.

Literatura, o caralho.

O texto de André Sant’Anna é ruim, mal construído. Sua obra padece de uma pobreza, de um primarismo estético, deplorável. E não é só isso. O moço salpica palavrões como um pizzaiolo o faz com o orégano. O palavrão é o alicerce de sua produção literária, e é o que a define, justifica e celebra. André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente. Se hoje fossem abolidas as palavras “porra” e “caralho” o moço teria que vender laranja na praça. Digo e repito: André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente.

Antes de se tansformar no Paulo César Pereio da literatura brasileira recente, Sant’Anna tocou baixo, compôs músicas e trabalhou com publicidade. É o caso de fazer o caminho de volta.

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Calçando a avaiana de pau

Este é o melhor instrumento para ser usado pelo bom crítico.

Mais um dia nublado e de temperatura agradável aqui no Rio. Estou colocando a leitura dos jornais em dia após uma noite de excessos prazerosos. Mas, ó, vem paulada daqui a pouco. Li algumas coisas que me deixaram, digamos, salivando. Agüenta que logo mais volto. Ahhhhhhhhhhhhhh!! Muleeeeeeeeeeeeeeeeeeque!

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Antonio Fernando Borges pega escritora de morro abaixo

O escritor Antonio Fernando Borges, que entrou recentemente para o mundo blogue, cada dia melhor, entra no debate sobre a bobagem dita pela escritora Ana Maria Gonçalves em entrevista ontem ao Estadão:

Um defeito de raiz, ou: Leviandade, teu nome é mulher!

Incrível a maneira leviana com que as pessoas confudem opinião com fato concreto, quase sempre em detrimento do segundo. Saber esta diferença é um dos pressupostos mais elementares da lógica. “Está chovendo” é um fato; “Não gosto da chuva!” é uma opinião. Simples assim.

* * *

A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do badalado romance Um defeito de cor, parece ter faltado a esta aula: promovendo seu livro, que gira em torno da surrada questão do “racismo no Brasil”, sai-se com a seguinte pérola de ressentimento em entrevista ao Estadão: “O homem cordial de Buarque de Holanda nunca existiu, é uma desculpa para o racismo velado”.

* * *

Quem conhece a famosa tese exposta em Raízes do Brasil sabe que Madame Gonçalves atirou no que não viu tentando acertar no que imagina ter visto: o “homem cordial”, cuja existência ela nega, é justamente um dos retratos mais fiéis do Homo Brasiliensis - e, junto com o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, constitui uma das pragas nacionais! Madame Gonçalves, no entanto, acha que ele estava fazendo um elogio…

Pior: acha que basta ela decretar a não-existência de uma coisa para que a coisa, pluft!, desapareça.

* * *

Com este prontuário de equívocos, as chances de que Um defeito de cor seja bom diminuem a cada minuto…

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João Pereira Coutinho debate com Turgenev o problema da integração arbitrária

Sem arte verdadeira, Garschagen, é impossível respirar. A propósito, me dá a bombinha de asma que está em cima da mesa...

No Expresso (Portugal)

Conta-me histórias

Confesso certa estranheza com as declarações de Saramago. Parece que o Nobel, em entrevista recente, declarou ser destino e interesse da pátria a integração com Espanha. A estranheza não está apenas na natureza absurda da sentença, que o ministro dos Negócios Estrangeiros se apressou a comentar. Está na inutilidade dela. Sem livro novo para vender, qual o interesse de Saramago em agitar o esplendor do iberismo? Mencken dizia que um cínico é alguém que sente o cheiro a flores e olha em volta para ver onde está o funeral. Não vou por aí. Baixando a guarda do cinismo, talvez a união ibérica seja, para Saramago, questão sincera. E uma expressão de alma mais pessoal do que política. Bem vistas as coisas, Espanha deu-lhe uma casa; uma mulher; milhares de leitores; vinte quilos de doutoramentos “honoris causa”. E, com a fantástica rábula da ‘perseguição’ e do ‘exílio’, o Prémio Nobel da Literatura. Se isto não transforma qualquer um em iberista, eu gostaria de saber o que transforma.

Na Folha

A união desfaz a força

Arte européia? Não existe. E mesmo no interior de cada país, a diferença impede qualquer generalização apressada. Não existem catedrais góticas ou pinturas renascentistas. O gótico espanhol é distinto do gótico inglês. E, mesmo dentro do primeiro, o gótico leonino (e mais clássico) é distinto da exuberância do gótico andaluz e sevilhano. Para não falar do português, ou do alemão. Ou das diferenças regionais no interior de Portugal ou da Alemanha.

Não existe pintura do Renascimento. Existem pintores, como Mantegna ou Bellini, ambos italianos e ambos distintos do francês Jean Fouquet, a trabalhar na mesma altura. E se falamos da modernidade artística, e até cinematográfica, não sei que espécie de unidade pode promover a diversidade do cinema de Almodóvar, de Bergman ou do próprio Wenders.

João Pereira Coutinho, sempre excelente, trata em dois textos sem ligação de um ponto em comum: o problema da tentativa de integração arbitrária que dissolveria, como ácido na mão, a maravilhosa individualidade que caracteriza e marca um povo, uma arte. Anexar Portugal à Espanha? Para quê, minha Santa Rita do Passa Quatro? A União Européia é uma grande idéia porque integrou os países sem descaracterizá-los. Todos se mantêm como nações independentes que precisavam facilitar a vida dos indivíduos e promover um desenvolvimento mais ou menos integrado, algo que uma boa loja maçônica faz com seus membros.

No caso da arte, a individualidade é tanto ou mais fundamental. E mesmo dentro de um país dificilmente se acerta ao dizer coisas do tipo: a arte italiana; a arte inglesa; a arte francesa; a arte brasileira. Imagine colocar num mesmo balaio de gato Pancetti e o picareta do Hélio Oiticica?

Não consigo imaginar um artista verdadeiro, uma arte verdadeira, a exemplo do escritor russo Ivan Turgenev, “sem autenticidade, sem educação, sem liberdade em seu significado mais amplo - na relação consigo mesmo, com as próprias idéias preconcebidas, até mesmo com o próprio povo e com a própria história”. Sem este ar, dizia ele, não é possível respirar.

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O homem cordial e a conjugação da tosquice com a ignorância e a má-fé

Ô Garschagen, releve, a moça não sabe o que diz.

Raízes do Brasil. Eu já tinha lido vários tipos de sandices, disfarçadas de opinião, sobre a tese do homem cordial desenvolvida por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. A da escritora Ana Maria Gonçalves, citada no post abaixo, é única na conjugação de tosquice, ignorância e má-fé. Daí você me pergunta: mas Garschagen, se ela ignora o significado do homem cordial, como poderia agir de má-fé ao dizer tal asneira? Simples, digo eu: levando em consideração que ela leu mal o livro (considerando que ela o tenha lido), deveria, ao menos, cotejar sua impressão pós-leitura com os vários estudos e artigos para jornal que analisam a tese do homem cordial. Ignorar as análises que foram feitas e que a permitiriam entender o conceito é má-fé, pura e simples. Se ela, como disse, mergulhou na história de uma personagem africana para elaborar o seu Um defeito de cor, por que não fez o mesmo com um autor brasileiro antes de citá-lo equivocadamente? Por que, aliás, a escritora disse tamanha bobagem?

O homem cordial existe, óbvio, enquanto traço característico e negativo de nossa formação cultural - é o que mostra Sérgio Buarque de Holanda e eu assinto, mas lembrando que a definição não é determinista, sendo mais uma elaboração psicossociológica de tipos, como o semeador e o caudilho, também citados na obra. O que caracteriza o homem cordial? O desrespeito aos limites existentes entre o que é privado e o que é público. Em nossa cultura política, por exemplo, predomina o afeto, o sentimento, em detrimento dos valores, ideais e instituições políticas. Para dar um exemplo corriqueiro, é o servidor que age como se a repartição pública fosse a sua sala de estar, privilegiando, quando necessário, os amigos ou aqueles de que gosta, e que igualmente acham que podem ter privilégios no serviço público porque têm uma relação afetiva ou de simpatia com um servidor, que também faz de tudo para atazanar a vida de um desafeto quando pode prolongar um atendimento ou a concessão de um benefício.

Além do mais, essa cultura de valorização anabolizada do afeto, que confunde o ambiente de casa com o da rua, serve para apresentar sob falsa aparência as diferenças sociais. A desigualdade, assim, é legitimada por um acordo tácito selado diariamente por sorrisos, abraços, piadas, cervejinha no bar e tapinha nas costas (o preconceito de cor de pele entra no bolo, claro, mas é questão acessória). Não é à toa que o cordial, da expressão criada pelo escritor Ribeiro Couto e aproveitada por Sérgio Buarque, vem de cordis, coração em latim.

Dizer que o “homem cordial de Buarque de Holanda nunca existiu, é uma desculpa para o racismo velado” é algo ignóbil, ignominioso, e aqui já peço desculpas pela “linguagem Jânio Quadros”. É o que eu disse lá em cima: trata-se da conjugação de tosquice, ignorância, daquelas que não ousam dizer o nome, e má-fé que cheira a enxofre.

O ignóbil, aliás, me deu uma idéia: este blog passa a conceder, a partir de hoje, copiando descaradamente o que se faz em Harvard com pesquisas tolas, o Prêmio Ignóbil.

E o primeiro Prêmio Ignóbil 2007 vai para Ana Maria Gonçalves.

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Ou isso é uma ignorância daquelas que não ousam dizer o nome ou uma ingenuidade que cheira a enxofre

Cientistas descobriram que rede faz muito mal para a cuca.

Estava demorando…

A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do elogiado Um defeito de cor, garantiu hoje em entrevista ao Estadão que “esse homem cordial de Buarque de Holanda nunca existiu, é uma desculpa para o racismo velado. Não foi, no entanto, uma definição de má-fé. Ela apenas retrata a sociedade brasileira da época”. Ai, minha Santa Rita do Passa Quatro! Essa moça não só faz uma análise equivovada do conceito de homem cordial como diz que nunca existiu, e, pior, que é uma desculpa para o racismo velado. E ainda, ora, ora, trata Buarque de Holanda como um idiota que precisa dela para se desculpar. Ou isso é uma ignorância daquelas que não ousam dizer o nome ou uma ingenuidade que cheira a enxofre. Estou indignado. Amanhã desenvolvo.

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A volta do jegue e da bicicleta (sorry Henry James)

Hmmm, o que acha de pegar no mein führer, Stálinesca? Hein? Hein?

Como os grandes líderes agem para impedir que os insatisfeitos fujam do país? Nos conta a extensa biliografia histórica: Stálin, amor de pessoa, metia os ingratos nos gulags; Hitler, um docinho, nos campos de concentração; Mao, uma fofura, nos campos de trabalhos forçados; Fidel, gente boníssima, nas prisões subterrâneas. E o que faz Lula? Acaba com o setor aéreo. Se alguém quiser sair do Brasil tem que apelar para bicicleta ou jegue. Lula conseguiu acabar com um achado aqui do Rio que dizia: nossa única saída é o Galeão. (Sopa de Tamancos)

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“Alguns tiveram a forca como preço pelo próprio crime, outros, a coroa” (Juvenal)

Juvenal, Juvenal, balança o meu livro.

Nelson Galeão Cumbica Jobim assumiu ontem o cargo dizendo que fila em aeroporto é o preço que se paga pela segurança. O ministro Guido Mantega Claybom já havia dito que as filas eram o preço que se pagava pelo desenvolvimento econômico do país (mais gente viajando, blábláblá). Anos antes, o então ministro Ricardo Nhonho Berzoini não só disse como fez os velhinhos pagarem o preço de ser aposentados. Os brasileiros que não votaram em Lula pagam o preço de tê-lo como, digamos, presidente. Como já alertara Juvenal, nas Sátiras, o preço do crime, para alguns, foi a forca; para outros, a coroa.

(No Sopa de Tamancos)

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Entrevista: Nélida Piñon

A sempre elegante escritora Nélida Piñon. Ah, se eu não fosse tão velho...

Em 1969, família no Brasil era uma instituição sagrada, as moças não exibiam seus mistérios em público e os homens, os menos espertos, só conheciam biblicamente a amada após o casamento. Naquele ano em que se vivia o começo de várias mudanças sociais, a escritora Nélida Piñon descreveu em seu quarto livro, Fundador, uma cena de sexo que mesmo hoje provocaria frêmitos de decotes, para furtar, mais uma vez, frase de Nelson Rodrigues. Três anos depois, ela ampliaria a provocação com A casa da paixão. São dois bons livros, acredite. O restante da obra ficcional não chega aos pés.

Nélida Piñon, carioca descendente de espanhóis, ficou nacionalmente conhecida por ter sido a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (1996-1997), que a elegeu imortal em 27 de julho de 1989 como sucessora de Aurélio Buarque de Holanda. Nas universidades sua obra é assunto para teses e dissertações, mas dificilmente você encontra um conhecido que tenha lido algum de seus 17 livros, incluindo uma coletânea de discursos, que lhe valeram prêmios nacionais e internacionais. Gozado.

Li a obra completa de Nélida para uma entrevista que fiz para a revista Entrelivros em 2005. Mas, ora, ora, a entrevista foi editada, mutilada, e o melhor se perdeu. Curioso. A entrevista é boa porque Nélida sabe conversar. Você sabe que cada dia mais entrevista com escritor se parece com entrevista com jogador de futebol. Vamos lá? Vamos. Sirva-se de uísque e empreenda a leitura:

Você já recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais por sua obra. Até que ponto o reconhecimento literário atrapalha o trabalho do escritor?
NÉLIDA PIÑON - Não me atrapalha em nada. Pelo contrário, acho muito agradável. Quando o escritor atinge um determinado patamar se despreocupa com isso. Além do mais, estimula o fato de ser reconhecido por seus pares. Para uma pessoa com a minha formação não faz a menor diferença. Me julgo imune a essas grandes vaidades.
Os prêmios são maravilhosos, mas em nada facilitaram a minha vida em relação ao texto. Ser reconhecida é muito agradável, fico honrada e agradeço comovida, mas minha batalha com a linguagem, com o saber humano, fica intacto. Sou uma grande solitária que fica lapidando o texto. Os prêmios não escrevem meus textos.

Como é essa batalha com a linguagem?
NÉLIDA - Eu sei que o texto quer me enganar; e eu a ele. Há uma tendência a um mútuo acordo, a uma lassidão. Eu não caio nessa armadilha. Vou até as últimas conseqüências no texto. Eu trabalho, reviso, vejo a musicalidade. Adoro música. Sei que há uma linguagem que além de captar essa essencialidade estanque pode ser acrescida de uma harmonia, de uma simetria à história. A história, o enredo, sem linguagem é um apanágio do fracasso.

Você falou de musicalidade, que é marcante especialmente na novela A casa da Paixão, em que há parágrafos longos, uma narrativa ligeira, forte, e personagens rudes e complexos. Há ali uma influência de William Faulkner de Santuário e o Som e a fúria, ou, antes, de James Joyce?
NÉLIDA - A questão dos personagens pode ser explicada com algo muito simples: quando menina, vivi um mundo rural. Tenho uma dupla cultura. Ainda muito pequena fui levada para a Espanha. Lá eu falava o espanhol e o galego. Isso também me deu a sensação de que eu tinha a língua portuguesa no DNA. Eu falava a língua que deu o gênese a essa deslumbrante e suntuosa língua portuguesa. Sou completamente enamorada da nossa língua. Eu poderia ter usado o castelhano para escrever minhas obras — e claro que facilitaria minha vida de escritora —, mas eu não quis. Gosto da Espanha, da Europa, mas sou essencialmente brasileira.

Por ter vivido a infância num ambiente rural não precisei ser influenciada por ninguém para criar alguns tipos de personagens. Na Espanha, eu levava os cordeiros, as ovelhas, as vacas da minha avó para o monte. Tive essa experiência absolutamente deslumbrante. Apesar de dizerem que sou uma mulher sofisticada, tenho esse mundo rural na veia e essa é a minha força.

A Galícia, terra de minha família, era uma região muito pobre. Herdei da minha família essa retidão, de que o ser humano não pode ser marginalizado nem pela pobreza. Havia todo um sentimento de sobrevivência que eu aprendi. No Brasil, eu desfruto desse país forte, imenso, continental, mas minha origem é de uma região pobre, pequena.

Como entra nesse período sua paixão pelos gregos?
NÉLIDA - Além dessa experiência rural, comecei a ler a grande literatura muito precocemente e sempre fui apaixonada pelos gregos. A civilização que gerou Atenas era, na verdade, rural. Você sente que o texto grego é um texto rural. O mundo rural é povoado de mitos. O mundo urbano ainda não fabricou seus grandes mitos. É muito difícil fazer um texto urbano mobiliado, povoado, pelos mitos do mundo rural. Tudo isto está nas grandes tragédias gregas, nas epopéias, nos épicos.

A casa da Paixão é uma espécie de poema em que faço uma homenagem aos pré-socráticos, à grande metáfora da essência humana. É uma história que gira e gravita em torno dos quatro elementos da terra. Há todo um saber na retaguarda daquele texto.

Eu trabalho, de modo geral, com essa configuração mítica. Me parece que ajuda muitíssimo para fixar sentimentos aparentemente inatingíveis, que ganham visibilidade através desse distúrbio de comportamento.

As influências para minhas criações é a minha própria história de vida. Evidentemente, sou uma leitora de Faulkner e de Joyce, mas eu tenho direitos de criar esses tipos de personagens por ter vivido num mundo rural, uma grande experiência que me deu uma dimensão extraordinária da minha própria humanidade. É como se eu tivesse tocado o coração da minha gente trabalhando a terra.

Na famosa entrevista para a Paris Review, o escritor americano William Faulkner disse que “a única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. (…) se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará”. A senhora, ao perfilar os personagens da paródia “Força do destino” confessa que “não escreve por esporte, também não se deixa seduzir pelo dinheiro”. Por qual razão a senhora escreve?
NÉLIDA - Paixão, escrevo por paixão. Escrever representa a mais esplêndida descoberta em minha vida. Eu me realizo escrevendo. Acho que a humanidade não pode prescindir da literatura. A literatura constrói sentimentos que não teria outro lugar onde se encastelar. Além disso, é importante escrever sem medo. Produzir hoje um texto que pode expulsá-lo provisoriamente do mercado é um ato heróico. Sempre escrevi sem medo.

Quanto a Faulkner, aquilo tudo era totalmente ficcional. Ele criou uma persona pública. O Faulkner fazia um gênero de ignorante, mas tinha lido Cervantes ainda criança. Eu só sou teatral nos meus textos.

Quais são seus autores referenciais?
NÉLIDA - Sou apaixonada por Cervantes, por Homero, por Shakespeare e tenho uma paixão por Machado de Assis. Nunca deixo de conversar com a estátua de Machado toda vez que entro na Academia (Brasileira de Letras). Sempre de forma respeitosa; nunca o tratei por “você”. Venerando Machado estou venerando o Brasil. Machado pra mim é um grande gênio. Se Machado de Assis foi possível o Brasil é possível, não tem o direito de fracassar.

Você se lançou como escritora em 1961. Qual era o país que a jovem Nélida Piñon viveu e enfrentou para escrever com liberdade temas considerados tabus?
NÉLIDA - Nunca ninguém havia me perguntado isso: que Brasil eu tive na minha geração? Um país acanhadíssimo, modestíssimo. Apesar de todos os nossos desastres, o Brasil, naquela época, era muito sereno de tão modesto. Mesmo assim, as tragédias estavam escondidas, debaixo da cama, dos lençóis, do tapete; você não via aparentemente nada. Hoje você vê essa ebulição, está tudo muito à vista.

Era um Brasil muito acanhado, mas eu, pelas minhas leituras, por uma certa vocação para solidão, embora fosse cercada de afeto, amizade, tolhi muito, não a minha feminilidade, mas o meu arrebate. Eu, que freqüentei ópera, teatro dramático, balé, não somente aprendia com a arte, com a arte fora da palavra, como entendi que podia me valer desses elementos dramáticos, que exploro nas minhas obras em certos momentos.

A leitura de Cervantes me deu a noção do ridículo, de uma ironia mancomunada com desatinos. Fui aprendendo tudo isso sendo um ser passional. Tive essa combinação que me ajudou muito a pensar em mim. As viagens também me ajudaram muito.

A sensualidade e a sexualidade são elementos marcantes de sua obra, especialmente em Fundador (1969) e Casa da Paixão (1972). De onde vem isso?
NÉLIDA - É uma presença marcante no meu olhar artístico do mundo. Tenho uma visão sexual da narrativa. A carnalidade explica; não é um simples conteúdo. Como posso lidar com palavras em linguagem sem conviver com a sexualidade e com esse corpo em chamas? Esse corpo é o veículo condutor da nossa complexidade. Quando você está lidando com um texto é assaltado por sobressaltos; quase todos os nossos grandes sobressaltos, mesmo anímicos, advém de nossos desejos.

Que tipo de preocupação referencial a senhora tem ao escolher os nomes dos personagens (Fundador, Ptolomeu, Joe, Johanus, Dodô, Polidoro)?
NÉLIDA - Mais do que o nome você escolhe uma genealogia. Cada um pertence a uma tribo, tem características, tem memória. Por exemplo, na “Doce canção de Caetana” tirei o nome do personagem Polidoro da tragédia grega (olha aí os gregos de novo): trata-se de um filho muito pouco conhecido de Príamo com Hécuba (os outros são Páris, Laocoonte, Heitor, Polidoro, Troílo, Ilionéia, Polixena e Cassandra). Muitas vezes custa muito encontrar um nome ideal para o personagem.

E como, antes, a senhora trabalha a criação desses personagens?
NÉLIDA - A crítica internacional sempre enfatiza o fato de eu criar homens e mulheres fortes. A Eulália (de A República dos sonhos), por exemplo, simula ser fraca por meio da distração. A distração, para mim, tem um objetivo específico: usei-o nas personagens femininas como instrumento de defesa. A grande defesa contra a impotência é a distração. Porque você recebe, mas não escuta o comando do outro. Com isso, se desvaloriza o autoritário. Fiz uma linhagem de mulheres distraídas em minhas histórias, mas agora não faço mais, esgotei.

Como voccê analisa o fato de seus personagens, regularmente, enfrentarem um misto de desejo e repulsa adornados por uma firme moralidade?
NÉLIDA - Há um sentido moral em minha obra que remete à Dostoiévski e muito pouca gente se atentou para isso. Acho muito difícil um autor aliar-se ao mal. O mal está presente na obra, mas o autor, por mais soberano, inclina-se às índoles da humanidade. Somos seres que nos debatemos contra o mal, mas ao mesmo tempo resistimos ao bem, para falar de uma forma muito simples.

A arte rejeita maniqueísmos. A arte é o caos e o caos semeia a discórdia; a arte é uma semeadora da discórdia. Tento captar essas angústias dos seres humanos. O personagem tem uma moral e serve a todas essas moralidades ao mesmo tempo.
Entendo moral como composição ética nessa trajetória do homem ao longo da história para arrecadar princípios que pudessem constituir um estatuto moral. Somos produtos da ética. A nossa ética não nasce da religião, nasce de nossas trajetórias, de nossos fracassos, de nossos acertos, de nossa busca por Deus. Todo mundo é assim, desde o menino do estábulo à prostituta; todos contribuem para o discurso moral. Basta conversar com o povo para ver que a moral é idêntica em qualquer lugar. Só a forma de se expressar que se diferencia.

No seu primeiro livro, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, você trata de instituições cristãs, digamos assim, como o pecado, o perdão e a relação do homem com Deus. Em vários textos você se refere a Deus pela boca dos personagens. De que maneira e de que forma você pretende usar Deus na literatura?
NÉLIDA - Uso Deus em minhas histórias porque é uma presença nobre e vil ao mesmo tempo. O homem tem dificuldade de viver sem Deus. Ele precisa amar a esse Deus ou se proclamar herdeiro da incongruência divina — não importa se monoteísta ou panteísta. Tenho uma formação religiosa, católica, mas não me sinto romana. Cada dia gosto menos de Roma. Cada dia me sinto mais cristã e tenho, ao mesmo tempo, atração pela história da igreja. Mas o que sinto forte é que sou uma panteísta e monoteísta.

Me identifico muito com uma certa época da história humana, quando se estava sob a jurisdição do cristianismo, monoteísta, mas as pessoas conviviam em casa, na aldeia, na montanha, com os vários deuses, com indivíduos panteístas. Foi uma época de extraordinária liberdade de pensamento religioso. Uma pessoa podia servir a vários deuses ao mesmo tempo.

Quando Moisés desce o Sinai, todos ali eram monoteístas. Mas bastou que ele se afastasse para depois encontra-los adorando o bezerro de ouro. Isso não foi bem analisado ainda: era a nostalgia pela visibilidade. Eles precisavam enxergar para crer. O monoteísmo foi uma quebra de paradigma extraordinária. A imaginação cria a fé.

Houve algum choque da família e dos amigos com o teor de sua literatura?
NÉLIDA - Talvez para meu pai tivesse sido um grande escândalo. Tinha uma verdadeira paixão por mim. Ele andava com os meus pequenos textos publicados num jornalzinho modesto da colônia espanhola. Recortava e guardava-os no bolso do paletó. Quando encontrava um conhecido na rua mostrava meus textinhos mesmo contra a minha vontade.

Aconteceu que de repente as pessoas viram que eu havia me tornado uma escritora. Elas não tinham o olhar que eu tinha sobre as coisas. Muito novinha, eu já dizia que queria escrever uma obra, não um livro. Eu tinha a noção dessa diferença. Uma obra é um grande risco. O escritor é julgado em toda a sua extensão e tem que dar provas de seu preparo, de sua habilidade, de sua capacidade criativa, de capacidade para enfrentar os grandes desafios estéticos, a sociedade, o país, as grandes encruzilhadas estéticas do mundo ocidental e oriental.

De que forma seus pais ajudaram-na a se formar escritora?
NÉLIDA - Meus pais não me impunham preconceitos. Eu decidia o que queria fazer. Tinha acesso a qualquer livro, tinha uma conta aberta numa livraria: se eu quisesse ler pornografia poderia ler, pois era eu que comprava meus livros. Mas logo me encaminhei para a grande literatura.

A minha imaginação era arrebatada desde menina. A descoberta do corpo não me mudou, como normalmente acontecia com as mulheres da época. Para minha grande surpresa, meus pais, minha família, não caíram na armadilha da intolerância contra as mulheres. Talvez pelo fato de serem imigrantes. Eu era a princesa, a rainha da casa, mas não uma rainha protegida.
Fui uma menina precoce e meu corpo também se desenvolveu rapidamente. Meu pai, que era um homem tão experiente, não cortou as minhas asas. E minha mãe me estimulou a voar. Ela só dizia assim: “Minha filha, os problemas da rua você deixa fora de casa. Só traga para casa aqueles que você não conseguir resolver”.

Portanto, não sofri esse drama de ser mulher naqueles anos. Acho que por isso me tornei uma feminista, por ser uma privilegiada. Mas eu sofri também quando resolvi fazer literatura. Havia preconceito sim, contra as mulheres, mesmo por parte de amigos queridos.

As minhas modestas conquistas sempre foram em função do meu trabalho, nunca pela minha condição de mulher. Nunca usei isso para prosperar. Toda a minha carreira foi absolutamente independente.

Você falou anteriormente sobre a necessidade de enfrentamento. É por isso que o velho Madruga, no final de A República dos Sonhos, diz à narradora para não se importar com as pessoas próximas e escrever sem medo sobre os acontecimentos?
NÉLIDA - Sim, sim. Porque o escritor não pode se preocupar em respeitar os códigos, os códices, os cânones de seu país, todos os grandes códigos da humanidade. Ao mesmo tempo, por mais que se esteja preparado para romper fronteiras, não sabe que pode ir além.

À medida que passa a ser uma nova pessoa a cada ruptura, essa nova pessoa encontrará outros obstáculos, o que é maravilhoso. Hoje eu sinto que estou numa etapa de rompimento. Cada dia me é mais necessário transpor tudo o que puder, fazer novas Nélidas. Eu sou palimpsesto. Cada vez que apago uma das camadas do meu palimpsesto surge uma nova Nélida e eu tenho que ser compatível a ela.

Uma coisa que sei ter sido fundamental para uma seqüência de rupturas em minha vida foi a morte de minha mãe. Eu já tinha perdido meu pai. Além de meu amor, de minha admiração, aquela mulher ajudou a me formar; eu devo muito a ela como escritora. Mesmo nos momentos difíceis ela me dizia que não tinha medo e que eu não podia aceitar nada que impedisse meu sonho.

Somos sempre desafiados a enfrentar grandes rompimentos. E uma ruptura nos induz a sermos mais resistentes. Cada livro que termino é como se eu esvaziasse o armário, jogasse fora todas as conquistas, toda a roupa empilhada, todas as jóias. Tudo o que consegui juntar eu jogo fora. Preciso me esvaziar — não me empobrecer — para os próximos livros. Não posso me permitir acumular sobras e começar um novo livro com essas sobras.

Embora sua obra tenha nítida influência inglesa, alguns críticos a consideram a “voz mais espanhola da literatura brasileira”. O que acha disso?
NÉLIDA - Completamente frívola essa opinião. Essas pessoas conhecem pouquíssimo de literatura (risos).
Tenho uma formação anglo-saxônica muito sólida. Li muito, tanto a literatura inglesa como a norte-americana. Até um tempo atrás era difícil um escritor dessas duas línguas que eu não tivesse lido. Minha obra tem uma complexidade que não se vê tanto na literatura em inglês. A língua inglesa, à exceção de um autor ou outro, expulsa bastante a carga metafórica. Eu tenho essa carga metafórica porque sou uma latina. Faço em minha literatura um jogo de frases sincopadas, sincronizadas, binárias. Nesse sentido, não tenho influência daquelas seqüências de subordinadas da língua portuguesa. A minha complexidade está concentrada nas frases curtas.

Você iniciou a carreira literária numa época em que a crítica nos jornais ainda tinha poder de fogo. O que acha do comportamento e da influência, se é que existe, da crítica literária no Brasil de hoje?
NÉLIDA - Hoje eu não sei, não acompanho. Na época eu admirava críticos de notável saber, com formação sólida. Era muito importante que essas pessoas se manifestassem e havia uma grande presença delas nos jornais. Mas não saberia dizer isso hoje.

Harold Bloom diz que a próxima geração de críticos não virá das universidades. Ao mesmo tempo, há uma geração de leitores e autores se formando e se conhecendo através da internet, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Você acha que a crítica universitária está fadada a ser apenas mais um ramo do funcionalismo público e perder toda a sua relevância?
NÉLIDA - Não, não. Acho que um certo saber literário nas universidades é muito importante. A crítica nas universidades pode se aprofundar numa obra. A crítica para jornais tornou-se muito leve e a gente precisaria de uma grande pena para fazer a crítica nos periódicos. A universidade faz trabalhos primorosos, analisando uma obra inteira, um papel que julgo insubstituível.

Como você acha que deve ser o comportamento do intelectual: atuante como foram John Milton, Swift, Zola etc., ou alheio ao debate político?
NÉLIDA - Acho que essa participação é inevitável. Cada escritor escolhe de que forma atuar, mas acho importante que isso não seja tão visível para não virar uma arte panfletária, partidária. O escritor não deve tomar partido. O texto tem que ser soberano, para o bem e para o mal.

Mas como participar do debate sem ser panfletário?
NÉLIDA - Se vigilando o tempo todo e aprendendo a fazer a grande arte literária.

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Dias nublados. Dias nublados e frios. Um ideal.

Garschagen prestes a entrar nesse caminho acolhedor com doçura.

Dias nublados. Dias nublados e frios. Um ideal. O Rio amanheceu nublado, deliciosamente nublado, e soprando uma brisa quase fria. Um dia excelente para beber. Um dia excelente para fazer qualquer coisa civilizada. Um dia para qualquer cavalheiro civilizado.

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