Archive for Julho, 2007

Um bico no consenso

Me chamar de Virgílio, Garschagen? Gostei, mas não exagera senão o povo vai achar que sou ainda mais arrogante do que ja acham, ehehee!

Quando leio os prólogos de Jorge Luís Borges não busco densidade, teorias mirabolantes muito menos frases para notas de pé de página. Quero, como Dante, um Virgílio para me guiar pelos círculos infernais, pelas cinzas do purgatório e pelos caminhos celestiais de obras e autores. É o que faz Borges, ao abraçar quem o lê com adjetivos e metáforas, conduzindo as emoções pelas sinuosas e insustentáveis levezas do ser.

Se havia uma lacuna no mercado editorial brasileiro de coletâneas de ensaios e resenhas de autores nacionais, alguns lançamentos remetem à maior das dúvidas: por que demorou tanto? “Contra o consenso”, do jornalista Reinaldo Azevedo, foi o melhor do gênero em 2005, quando foi publicado. Os ensaios e resenhas, publicados nas revistas “Bravo!” e “Primeira Leitura” (e no site desta), remete à essa entidade cada vez mais vilipendiada chamada humanismo.

Como Borges e Virgílio, Reinaldo Azevedo serve de guia; conduz à margem do consenso literário; amplia o foco dos temas e personagens buscando sempre um viés inexplorado, uma opinião over, uma máxima out, até quando coloca para tocar a música regional de Ariano Suassuna. Sua defesa da grandiosidade do “Romance da Pedra do Reino” faz qualquer indivíduo civilizado correr para o romance. Quem leu, vai reler numa outra afinação; quem esperava uma oportunidade, sorri feliz e canta “Let’s do it”, de Cole Porter.

Sem concessões, sem argumentos tolos, sem elogios desmerecidos e com frases cunhadas em fogo ardente, o jornalista faz ver a luz que Goethe clamava no leito de morte. Quando o jornalismo cultural brasileiro se lança no abismo da superficialidade e do frenesi do furo, já identificado por Sérgio Augusto, o hoje blogueiro e colunista de Veja, mostra que é possível suscitar discussões, valorizar nomes e obras pisoteadas pelo senso comum, popularesco, e pela ignorância sobre os cânones, famosos ou esquecidos em depósitos trancados.

“Eis ali o melhor de uma prosa desempolada, crítica, interessada em questionar as raízes brasileiras”, escreve Azevedo sobre a obra de Monteiro Lobato, o que pode ser aplicado a seus próprios textos, que incursionam pela literatura, invadem o cinema, temperam o teatro, a intelectualidade, a imprensa o antiamericanismo. Azevedo é irritantemente bom. E frasista preciso:

“Alguns morrem para entrar na história, outros vivem para dar corpo à infâmia”

Para o crítico George Steiner, as anotações feitas à margem do texto é a prova imediata da resposta do leitor ao que ele lê, no que chama de diálogo entre o leitor e o livro. “Contra o consenso” é desses livros que pedem anotações, sublinhados, comentários, debates e discussões. Se falhamos ao não ampliar as idéias, idiossincrasias e opiniões de Reinaldo Azevedo publicadas na imprensa, certamente seremos julgados pelo Tribunal da Honesta Inteligência. O livro não fez o barulho bom que eu esperava, agravando o diagnóstico de nosso jornalismo de idéias. Resenhas passam, as idéias ficam. Os debates não podem ser encarcerados em comentários que podem ou não ajudar na venda de uma obra. Nem isso teve. Reinaldo, pelo menos, foi contratado pela Veja. Sorte a nossa.

“O leitor que há em mim não transige com períodos truncados, com o deslumbramento retórico que tenta demonstrar o que há de supostamente profundo no rústico e no banal”.

Nos textos sobre Fernando Pessoa, Manoel de Barros, Murilo Mendes, Álvares de Azevedo, Eça de Queiroz, Mário Faustino, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Sá-Carneiro, Jean Genet, Sérgio Lemos, Ariano Suassuna, Monteiro Lobato, Marquês de Sade, João Gilberto Noll, André Sant’Anna, Cazuza, Júlio Bandeira e Rubem Fonseca, o jornalista contextualiza cada livro e sua importância na obra de cada escritor.

“A miséria do jornalismo atual se faz é de sua covardia analítica”.

Reinaldo Azevedo dá um bico no consenso e na covardia. Quem discorda que se manifeste, e esteja preparado para o contraponto. As críticas, lembro, por mais virulentas, não devem encerrar um debate. Devem amplificá-lo, provocar reações intelectualmente honestas e contra-ataques francos, mas nem por isso cordiais, de tapinha nas costas. “A maldição move, a benção relaxa”, já dizia William Blake, e eu repito raramente citando a fonte.

Os dois textos sobre Ariano Suassuna são um estímulo precioso à obra do escritor pernambucano. Crítica também deve fazer a ponte do leitor com certos autores e obras. É serviço essencial de saúde mental pública. Em “O Voltaire da Botocúndia” resgata a virilidade moderna de Monteiro Lobato contra o senso comum que situa o criador de “Reinações de Narizinho” como pré-modernista. As intervenções sobre Fernando Pessoa, um autor sobreposto pela celebrização de sua importância, são fundamentais para valorizar o que tem valor.

“Pessoa foi o autor completo de um país decadente”; “A dor de Pessoa é uma aventura do espírito”.

Sem medo de cutucar, Reinaldo desclassifica obras menores de autores coroados. Sobre “Retrato do Artista quando coisa”, diz que o livro integra a obra de Manoel de Barros como massa negativa. “É a soma que subtrai”. O incensado e supervalorizado Rubem Fonseca, felizmente, não é poupado:

“A auto-indugência é, no entanto, uma pantera pior que a solidão. Fonseca (…) também é, como o Brasil de seus livros, um vulto que cresce pela ausência”;

O colunista de Veja, sempre que pode, pulveriza a esquerda com seu verbalismo ácido. Muitos não gostam. É um estilo. Li alguém discordar de sua análise sobre “Diário de Motocicleta” porque ele dava uma traulitada no culto à imagem de Che Guevara e não se limitava à uma crítica cinematográfica. O bom leitor é o que sabe escolher e ler. E parece suficientemente óbvio que o pequeno ensaio tinha pretensões mais abrangentes do que simplesmente dizer que “a fotografia do filme é muito bonita”. O que seria do jornalista americano H. L. Mencken sem seus prejudices?

“Contra o consenso” também, claro, toca em questões políticas que afetam a cultura de um povo. “Pelo menos duas gerações de intelectuais preferiram produzir um presidente a produzir saberes para o Estado democrático”, diz, precisamente. Na mesma tocada, analisa o antiamericanismo (“A invasão do Iraque evidenciou que o antiamericanismo pulsa no mundo como um recalque do oprimido”) e o nefasto fenômeno Michael Moore:

“Admirar Michael Moore corresponde a lamber as feridas de nossa incompetência”.

Reinaldo não se arvora no direito de construir polêmicas frágeis. Seus textos transpiram uma vontade monumental de construir algo sólido, aliando vigor intelectual e arame farpado verbal. Ele não segue a máxima nietzschiana do porrete; é da escola dos samurais, das espadas afiadas. É civilizadamente impossível não gostar de seus textos. É o que difere o intelectual, jornalista ou não, do contínuo do pensamento.

É um erro achar que os ensaios e resenhas de “Contra o consenso” são para iniciados. São, também, para iniciar. Se percebo hoje uma confusão perniciosa do homem médio sobre o que seja alta cultura e cultura popularesca, o livro serve como uma bússola fundamental no passeio pelos círculos infernais da arte. É uma pena que não haja mais em nosso jornalismo cultural o debate público. Os bons argumentos e idéias se perdem com o vento, se espalham como folhas da relva.

“Contra o consenso” poderia, como nos anos de 1950-60, gerar páginas e mais páginas de questões, polêmicas e controvérsias. Não gerou isso, mas apresentou Reinaldo reunido em livro, o que não é pouco. Meu lamento vem com uma frase de Paulo Francis sobre o debate público no Brasil: “por que esfriou tanto?”

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Caminhando e cantando e não seguindo a canção

Eu queria saber era quem limpava essa sujeira toda depois...

N’O Globo:

Vigor a toda prova

Livro e filme examinam os 70 anos da UNE, e mostram a força do movimento estudantil brasileiro

Mauro Ventura

Pagar meia no cinema e entrar de graça em ônibus são conquistas - ou comodidades, segundo os críticos - facilmente associadas à União Nacional dos Estudantes (UNE). Mas a entidade tem um histórico de lutas que trasncende em muito o alívio ao bolso estudantil.

No livro “Memórias estudantis 1937-2007: da fundação da UNE aos nossos dias” (Ediouro), a historiadora Maria Paula de Araújo examina 70 anos de militância e revê o papel dos estudantes.

Sem gozação, acho bom que se estude esse período, até para apontar quem realmente se envolveu e trabalhou pelos estudantes e quem estava lá para transformar Brasil em Cuba. E seria ótimo se o estudo examinasse como a UNE tornou-se o picadeiro dos aspirantes à política, antes e depois, e mostrar quem eram e se mantiveram profissionais da, digamos assim, causa.

Pelo que leio na reportagem, não será dessa vez. O que parece importar para a historiadora Maria Paula de Araújo, coordenadora do núcleo de história oral da UFRJ “Memória de esquerda”, é tão somente exaltar a figura do estudante, às favas o exame criterioso. É uma escolha, tudo bem, mas que não venda peixe estragado por lebre com saúde de vaca premiada.

Mais um livro para deixar de ser lido.

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Oh, tempora, oh mores, ou como perdemos o chá inglês

No Mais!, da Folha (assinante):

Daslu imperial

Estudo analisa o papel de ingleses e franceses na modernização dos costumes, da moda e da gastronomia no Rio do século 19

ISABEL LUSTOSA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Dos estrangeiros, foram os ingleses que predominaram na primeira fase, que vai da abertura dos portos (1808) à elevação do Brasil a reino (1815).

Móveis e decoração

Aos ingleses se deveu a diversificação da oferta de mobiliário doméstico, de instrumentos musicais e de transportes e acessórios para montaria. Graças a eles, também objetos de decoração foram introduzidos nas habitações da elite local e louças e vidros se tornaram comuns.

Um sucesso que devia animar as reuniões elegantes eram os relógios ingleses de pêndulo que tocavam uma sonata ou minueto diferente a cada hora.
Inicialmente, era dos portos ingleses que chegavam os produtos alimentícios europeus.

Mas quem revolucionou mesmo a cidade foram os franceses, que passaram a chegar ao Brasil em 1816, depois do reatamento das relações entre Portugal e França. Em 1818, Durand vendia acessórios masculinos e femininos como calçados, chapéus, luvas, suspensórios, leques, escovas, pentes, flores artificiais e bijuterias.

Os franceses também influíram nos hábitos e cuidados com a toalete, proporcionando uma série de serviços antes inexistentes na cidade.

Se a influência da Inglaterra não tivesse sido despojada pela França nas Terras de Vera Cruz não teríamos que aturar, hoje, esse modelo de universidade, estudos acadêmicos e intelectualismo esquerdista.

Oh, tempora, oh mores (Oh tempos, oh costumes!)

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O filme que mais aguardo em 2007

Nós gostamos muito de você Garschagen!!!!!!!!!!!!

“The Simpsons Movie” - Dysfunctional family on the move

A wonderfully smart, witty film that rescues Hollywood from the doldrums

AFTER 18 years on prime-time television, “The Simpsons Movie” brings to the big screen all the qualities that have made the Simpson family superstars. That should reassure pundits who have been fretting over the question Homer Simpson poses at the beginning of the film, after viewing an especially Aesopian episode of “The Itchy & Scratchy Show”, Bart Simpson’s favourite ultraviolent cartoon-within-a-cartoon: “Who’s going to pay for something they’ve been getting for free?”

The answer is another question: how many smart, satirical, uproariously witty comedies did Hollywood make this year? “The Simpsons Movie” fills a niche in the major studios’ release schedules that has lately become a void.

Critics were shown the film just before it opened to keep the audience’s enjoyment of the rococo plot twists from being spiked by internet killjoys, a policy deserving of support. Briefly, an ecological disaster befalls the town of Springfield, brought about by Homer’s involvement with a new love and his weakness for doughnuts.

The dysfunctional cohesion of the Simpson family is put to the test. Bart starts wishing he had a father like Ned Flanders next door, who practises family values with a wise serenity that is horribly off-putting. Marge doubts her love for Homer. Lisa meets a musician named Colin whose green politics is matched by his lilting brogue. And baby Maggie breaks 18 years of silence by speaking her first word, which audiences will have to stay through the final credits to hear.

But it is Homer who really evolves, after an Inuit medicine woman teaches him his “throat-song” and sends him on a spirit journey to an epiphany about human interconnectedness based on enlightened self-interest. Strangely, we come to care deeply about all of them.

E não é que o filme já está, digamos, bombando?

“Simpsons” supera expectativas e arrecada US$ 29 mi na estréia

LOS ANGELES (Reuters) - Depois de aparecer semanalmente na TV por 18 anos, “Os Simpsons” tornaram-se astros de cinema em apenas um dia.

“Os Simpsons”, filme de animação baseado no seriado da família de Springfield, superou as expectativas e arrecadou estimados 29,1 milhões de dólares em seu dia de estréia, na sexta-feira, nos Estados Unidos e no Canadá, informou a empresa de pesquisa Box Office Mojo (http://www.boxofficemojo.com).

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SE PICA FIDEL!

Some logo, ô incréu!

São 23h30. Vejo na TV atletas cubanos já no Aeroporto do Galeão, no Rio, para embarcar às pressas para Cuba. Ordens expressas do grande líder democrata Fidel Castro. Teria chegado aos ouvidos cheios de cabelo e vermes do sapo barbudo que haveria fuga em massa dos atletas. É a maravilhosa liberdade elogiada por tanta gente no Brasil. Fidel ainda está vivo. Como não podemos apressar-lhe a morte física e a do regime que ele instaurou e sedimentou só nos resta torcer e fazer uma grande campanha cujo mote é: SE PICA FIDEL!

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Pitacos sobre o mercado editorial

Olha a laranja! Olha a laranja! Até a casca é dociiiiiiiiiiiiiiiiiinha!

Matéria extensa na Folha sobre o movimento do mercado editorial brasileiro:

Mercado de livro cresce e pressiona por profissionalização das editoras

Aumento de vendas e faturamento reflete incremento da competição; Ediouro, que pretende abrir capital, lidera aquisições

MARCOS STRECKER
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

Depois de uma década de incertezas, o mercado editorial dá sinais de ter voltado a crescer de maneira mais firme. É o que vai revelar a mais recente pesquisa conjunta do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e da CBL (Câmara Brasileira do Livro), a ser divulgada nos próximos dias. Alguns números do levantamento foram adiantados à Folha por Paulo Rocco, presidente do sindicato que reúne editoras do país.

A pesquisa aponta um aumento do faturamento total das empresas de R$ 2,572 bilhões para um número próximo de R$ 3 bilhões, que reflete também um aumento das aquisições por programas governamentais. Mas o aumento foi de fato “puxado” pelo mercado. Em obras gerais (excluindo didáticos, religiosos e técnicos), houve um acréscimo de 9,51% no faturamento e um aumento no número de exemplares vendidos de 4,68%.

A discussão sobre o tema é interessante e há um aspecto em especial que me intriga: como aumentar a base de leitores sem depender da boquinha, para usar um efemismo, das compras do governo? Talvez a falta de perspectiva de um crescimento significativo do número de consumidores explique a compra e aglutinação de selos sob um único guarda-chuva. Uma empresa maior com vários selos consegue se sustentar no negócio de forma muito mais fácil do que uma com número limitado de assuntos para oferecer ao leitor. Agora tem esse negócio de não termos dados confiáveis números de vendas, faturamento ou lucro pelo fato de as empresas serem de capital fechado, e, por causa disso, não serem obrigadas a divulgar essas informações.

Por outro lado, impressiona o exemplo de empreitada bem-sucedida da Sextante:

Editoras familiares lutam por renovação

Sextante foi fundada pelo filho de José Olympio e já vendeu mais de 1,4 milhão de exemplares de “O Código Da Vinci”

“Escreveram uma vez que éramos uma editora nova para não-leitores. Recebemos isso como um elogio”, diz Marcos Pereira

DO ENVIADO ESPECIAL AO RIO

(…)

O exemplo mais vistoso desse “renascimento” é a Sextante, “pequena grande editora” fundada em 1998 que provocou uma reviravolta no segmento de auto-ajuda. Dos 30 livros da lista de mais vendidos da Folha desta semana, incluindo ficção e não-ficção, sete são da Sextante. O sucesso não veio por acaso. Dr. Geraldo (Geraldo Jordão Pereira), o patriarca da editora, é filho de José Olympio, um dos nomes formadores do mercado brasileiro.

O mais famoso best-seller da casa é “O Código Da Vinci”, que já vendeu 1,333 milhão de exemplares (1,477 milhão, levando em conta a edição ilustrada). E isso mesmo com o “sucesso desastroso” do filme com Tom Hanks, que “matou” o fenômeno editorial (depois da adaptação, as vendas do livro de Dan Brown despencaram em todo o mundo). Outro sucesso da casa, “O Monge e o Executivo”, completa na próxima semana a marca de 1,5 milhão de exemplares vendidos.

Mas o sucesso veio com esse tipo de literatura, o que, em termos de cultura highbrow, que é o que nos interessa, não tem a menor relevância. E quem acredita que a pessoa que leu O Monge e o Executivo vai chegar a Dostoiévski, meu filho, é dessas que ainda acredita em Papai Noel, não é mesmo?

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De novo, uma das celebridades do ateísmo militante

Manuel da Costa Pinto, hoje na Folha (assinante), escreveu sobre uma das celebridades do ateísmo militante, o filósofo francês Michel Onfray e seu, upa, nenên!, Tratado de Ateologia:

Catequese às avessas

Em “Tratado de Ateologia”, o filósofo Michel Onfray usa retórica inquisitorial para pregar contra a religião

É POUCO provável que a ladainha de um pastor evangélico seja capaz de catequizar um materialista convicto. A recíproca é ainda mais verdadeira: argumentos racionais contra a irracionalidade da fé são incapazes de fazer um crente descrer.
Vem daí a curiosa situação do “Tratado de Ateologia”, de Michel Onfray: o filósofo francês investe contra a religião numa retórica inflamada, à maneira dos libertinos do século 18 -mas, ao contrário destes (que falavam para cortesãos vigiados pela Igreja), prega para uma sociedade já laicizada.

(…)

Onfray escreve seu libelo à maneira de um Torquemada pagão, reduzindo a religião a uma “patologia mental”. Na esteira de Nietzsche, ele afirma: “O terror diante do nada, a incapacidade de integrar a morte como um processo natural, inevitável, com o qual é preciso compor, diante do qual só a inteligência pode produzir efeitos, mas igualmente a negação, a ausência de sentido além daquele que damos, o absurdo a priori, esses são os feixes genealógicos do divino”.

(…)

Contra a atual ética da caridade (um “cristianismo sem Deus” complacente com os fanatismos), propõe o resgate uma tradição de ateus que, paradoxalmente, começa no século 17 com o jesuíta português Cristóvão Ferreira e o abade francês Jean Meslier. O problema é que essa virulenta doutrina, a “ateologia”, só encontra eco entre uma minoria ilhada entre os fiéis de Ratzinger e dos ideólogos da Guerra Santa -para os quais Onfray não é um apóstata, mas um alienígena.

No dia 29 de junho eu escrevi sobre os ateus convertidos em celebridades:

Ateístas são cristãos plantando bananeira

Quanto mais se tenta matar Deus mais se consagra a sua existência. Gozado. Agora, vemos ateístas profissionais. Gente que está vendendo livro e ganhando dinheiro para tentar provar que Deus é uma impossibilidade (H.L. Mencken, anticlerical furioso, definia a fé como uma crença ilógica na ocorrência do improvável). O jornalista inglês Christopher Hitchens está se convertendo num anti-Messias. Em vez de anunciar a vinda de Deus, anuncia a sua não-vinda. Hitchens quer ser Zaratustra, o moço que Nietzsche inventou para descer a montanha e pregar o super-homem capaz de substituir Deus. É o cristianismo plantando bananeira, como as cruzes invertidas dos satanistas seguidores de tarados como Aleister Crowley e Anton Szandor LaVey.

A Veja da semana passada fez uma boa matéria (reproduzida logo abaixo) sobre as atuais celebridades do ateísmo: Hitchens com o seu God is not great, o biólogo inglês Richard Dawkins com o seu The God delusion, o filósofo americano Daniel Dennett com o seu Quebrando o encanto, e o filósofo francês Michel Onfray com o seu Tratado de ateologia.

Jerônimo Teixeira, que assina o artigo “Queda de braço com Deus”, diz que “esses livros são sobretudo uma reação - às vezes exagerada, alarmista até - a um certo recrudescimento da religião em suas versões mais fanáticas, no mundo pós 11 de setembro”. Este é um ponto interessante. Por qual razão, Garschagen? Explico: esse pessoal se posiciona contra o Deus cristão. As referências que fazem são, em sua maioria, a religiões cristãs. Se o fanatismo é representado pelos islamismo, então, a reação é suspeita, não?

E é interessante notar que a argumentação desses caras não é diretamente focada na existência ou não de Deus, mas nos reflexos terrenos da existência de Deus, ou seja, todo o corpo teórico que se criou para nortear as religiões - a Bíblia e o Corão. Não houve, ainda, nenhum intelectual ateu que tenha conseguido ombrear com Santo Tomás de Aquino e sua Suma Teológica. Se a prova racional da existência de Deus está na Suma, não há na literatura ateísta uma prova racional da inexistência de Deus que chegue aos pés da obra forjada pelo Santo. E, veja bem, não sou católico - sequer tenho religião. Mas, na esfera do bom debate, não apareceu ninguém que tenha chegado aos pés do Santo.

O debate se Deus existe ou não é desinteressante porque, ora, ora, Deus sempre é relegado a um plano secundário. Basta as celebridades do ateísmo ouvirem o nome de Deus para serem acometidos de uma distonia monumental. E no sacolejo do descontrole físico viram bonecos a repetir a mesma catilinária. Para discutir Deus é preciso estofo intelectual e um mínimo de criatividade. Ainda não apareceu ninguém com tais atributos.

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Volto ainda hoje

Ainda volto hoje, ok? Me aguarde aí.

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Aquecimento global é o Marquês de Rabicó de Al Gore

A geógrafa francesa Yvette Veyret, ora, ora, cujo livro Os riscos – o homem como agressor e vítima do meio ambiente está sendo lançado no Brasil, concede entrevista lúcida ao Prosa & Verso de hoje. Não sei se Yvette é politicamente alinhada, mas o fato é que ela não cai nas teorias apocalípticas do fim do mundo e ainda denuncia a burrice da imprensa de propagar o discurso científico dominante, que nem sempre é o correto:

Como vê o papel da mídia no processo de amplificação das catástrofes?
Ocupam um lugar muito importante, pois o catastrofismo faz vender. (…) Em geral, a mídia retoma o que é dito, ou seja, o discurso dominante, e eu nunca sei muito bem a quem servem esses discursos catastrofistas.

Sobre o aquecimento global (um amigo pretende imprimir camisas com o singelo slogan: “Foda-se o aquecimento global”), Yvette é honesta e cientificamente exigente:

O que achou do relatório sobre mudanças climáticas?
O grupo sobre mudanças climáticas funciona a partir de modelos insuficientes, que não levam em conta a complexidade da natureza. Fazem cenários sistematicamente apocalípticos, sem apontar a margem de erro possível. Além disso, é muito difícil dizer que todo o planeta se aquecerá. O sistema climático atual é bem mais complicado que isso. As zonas climáticas não se aquecerão todas da mesma forma.

Há, portanto, muita incerteza, da qual não se fala a importância, o que é uma pena. Isso evitaria os discursos sistematicamente apocalípticos. Finalmente, prevêem-se tantas coisas dramáticas que as pessoas não acreditam em mais nada (GARSCHAGEN: mais que seja diferente do quadro futuro de caos). É certo que vivemos num mundo de superficie limitada, com população numerosa e é preciso ser vigilante na gestão do planeta, no uso de recursos, na administração dos perigos. Mas tenho um otimismo moderado. Já encontramos muitas soluções quando foram realmente necessárias.

Diante disso, num momento completamente Ruy Goiaba, só tenho uma coisa a dizer: Al, enfia o dedo no Gore e rasga!

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Jane Austen e o jornalismo cultural

Garschagen, meu lindo, fala bem de mim, tá? Te adoro!

No Todo Prosa:

Jane Austen e o besteirol periódico

Uma das maiores dificuldades de ir envelhecendo no jornalismo – meninos, eu vi! – é a inevitabilidade de uma descoberta que a princípio nos choca, mas em seguida vira matéria de tédio profundo: de tempos em tempos, a maior parte da imprensa acaba fazendo exatamente o que tinha feito algum tempo atrás. Igual. E não estamos falando apenas de “textos criativos” sobre a chegada do inverno.

No jornalismo cultural, um tipo especialmente irritante de besteirol periódico é o do “manuscrito de autor consagrado enviado anonimamente para as editoras sem noção e, ora vejam só, rejeitado”. Machado de Assis passou por isso no Brasil há alguns anos. Semana passada foi a vez de Jane Austen na Inglaterra – leia aqui, em inglês.

Como tenho fugido do besteirol periódico – tanto o alheio quanto o meu –, não vou repetir por que acho esse truque jornalístico uma tremenda enganação. Já disse isso aqui.

Sérgio Rodrigues, que migrou sua coluna Todo Prosa para a versão blogue após o fechamento do site No Mínimo, dá um pau num dos vícios do jornalismo cultural. Eu assinto e acrescento: como pode jornalista escrever, e editor consentir, com efemérides atrasadas cujo texto cobra dos jornais a lembrança, não lembrada pelo repórter e editor, da tal efeméride? Lamentável.

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