Em defesa de Macbeth

Fui crítico de teatro da Gazeta Mercantil durante quase um ano aqui no Rio. A única coisa boa foi ter conhecido pessoalmente Barbara Heliodora, de quem fiz um perfil.
Eu escolhia as peças que ia assistir, e inicialmente achei que isso me livraria das porcarias. Nada disso. Muita porcaria, muito ator ruim, muita montagem com pompas e nenhuma circunstância, muita direção equivocada ou deplorável, enfim, muito de nada que valha a pena, incluindo as montagens de clássicos, como Shakespeare. Leia a crítica que fiz para a Gazeta Mercantil em 2005 e volto logo depois:
“A tempestade” não passa de garoa
Do figurino à direção, quase nada se salva no Shakespeare do Núcleo Carioca de Teatro
Bruno Garschagen
do RioA frase que encerra o poema “Em memória de W. B. Yeats”, de W. H. Auden, pode ser usada como epígrafe de muitas montagens de textos fundamentais do teatro ocidental: “As palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos”. O que se faz com as peças de William Shakespeare (1564-1616) palco afora, inclusive na Inglaterra, deixaria o bardo de barba em pé. Embora, em alguns casos, mantenham o texto, alguns diretores fazem adaptações que assustam e fazem o espectador exigente jogar a toalha. Ou torcer o nariz, como é o caso da montagem de “A tempestade” pelo Núcleo Carioca de Teatro, em cartaz desde o dia 13 de agosto.
História de vingança, amor, instintos, desejos, liberdade e lealdade, “A tempestade” foi a última peça escrita pelo autor de “Hamlet”. No espetáculo em cartaz no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, o ator Henrique Pagnoncellis encarna um Próspero, o duque de Milão versado nas ciências mágicas, estranhamente feliz com os infortúnios e curiosamente cristão ao perdoar seus traidores — percepção bastante comum e igualmente equivocada. Shakespeare não injetou ódio em Próspero, mas um rancor cínico e diplomático. A vingança desejada não ia além de assustar os traidores e provar sua honestidade a Alonso, rei de Nápoles (Chico Figueiredo). Henrique Pagnoncellis mantém um semblante sereno quase do início ao fim do espetáculo, indiferente às nuances da personagem. Talvez manter Próspero sob efeito de algum anestésico tenha sido a primeira das infelizes escolhas do diretor Luiz Arthur Nunes ao longo da peça.
A movimentação no palco só melhora a partir da metade da peça, quando entram em cena o velho e honesto conselheiro Gonzalo (Arnaldo Marques), o escravo selvagem Caliban/rei Alonso (Chico Figueiredo), Sebastião irmão do rei/o palhaço Trínculo (Nilvan Santos) e o Antônio, irmão de Próspero/Estéfano, o despenseiro bêbado (Ivo Fernandes). Os atores estão afinados, embora tentem forçar um pouco o riso. Ivo Fernandes e Nilvan Santos se sobressaem. Chico Figueiredo é expressivo, olhos arregalados, despejando um sofrimento louco na pele de Caliban, além de ser a cara do Nicolas Cage. Mas mantém o mesmo olhar de Caliban quando incorpora o rei Alonso. Parece o mesmo personagem com roupas diferentes.
A jovem atriz Ludmila Breitman tem um olhar enigmático, mas precisa aprender a dominá-lo. Falta-lhe domínio dos gestos e da voz. No papel de Miranda, filha de Próspero, exagera no drama quando o pai começa a contar sua origem. Um chororô só. Nem parece que está ouvindo o que tanto pediu ao pai: saber a própria história. Nas 32 falas do Ato II do texto não há nenhuma passagem tão dramática que exija lágrimas, como fez a atriz.
Tato Consorti, como Ferdinando, filho do rei de Nápoles, devia ser apresentado à sua personagem. É igualmente inexpressivo e imaturo na interpretação. Se sairia bem no programa “Malhação”. Para enfrentar Shakespeare, deve comer mais tutu com cebolinha.
Ariel, interpretada por Maria Esmeralda Forte, parece uma chinesa lutadora de Kung Fu. Tanto na maquiagem, impostação de voz e expressão corporal (com braços cortando o ar como golpes de artes marciais), está longe do espírito do ar imaginado pelo escritor inglês. O figurino dela acompanha o assombroso guarda-roupa criado pelo ator Chico Figueiredo. Não espanta que as vestes do rei de Nápoles, do seu irmão Sebastião, de Antônio e de Gonzalo sejam sobretudos e chapéus no melhor estilo Humphrey Bogart…
O cenário de Lídia Kosovski foi montado com plástico transparente. Uma grande cortina ondulada pretende simular o mar em cujas águas os inimigos de Próspero navegam e são tragados. A caverna onde mora o duque de Milão com a filha Miranda é feita de plástico liso suspenso por garrafões de vidro preenchidos com areia. Uma estrutura de madeira é envelhecida com espuma. Todo esse conjunto faz a ilha parecer um acampamento de trabalhadores rurais sem terra.
As, digamos, excentricidades da montagem também resvalam na trilha sonora. Músicas de câmara alternam com “Dream a little dream of me”, versão The Mamas & the Papas. Aliar essas duas músicas soou como nota dissonante; o espetáculo não se define; nem o clássico, nem uma leitura própria do diretor; um meio-termo que, obviamente, resultou numa montagem insípida, inodora e incolor.
“A tempestade” é uma das oito tragédias escritas por Shakespeare. Está na mesma vitrine das famosas “Romeu e Julieta”, “Júlio César”, “Antônio e Cleópatra”, “Hamlet”, “Otelo”, “Rei Lear” e “Macbeth”. São peças que mergulham na natureza humana e se banham nas imperfeições do homem. Se as palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos, como observou Auden, a obra do bardo inglês foi transformada no laxante do teatro moderno.
Leio n’O Globo de hoje que Macbeth ganha nova montagem no Rio com o ator Bruce Gomlevsky, que parece ter feito u sucesso danado atuando como Renato Russo em peça pop. Não conheço o ator. Mas tremo, pela experiência como crítico, quando leio que se está produzindo algo de Shakespeare. O natural seria ficar feliz, não? Pois é, mas não fico. Sempre acho que o trabalho de Shakespeare será, mais uma vez, vilipendiado em praça pública.
Macbeth é um de meus livros preferidos do escritor inglês. A adaptação feita para o cinema por Orson Welles faz parte da minha cinemateca básica. E é por isso mesmo que chego a sentir terremotos no plexo solar ao imaginar mais uma bobagem em cima do texto. O que fazer? Reler o livro e deixar a notícia da peça de lado.
3 Comments so far
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Bruno,
Pior que isso só a bunda do Gerald Thomas.
[…] da Gazeta Mercantil durante quase um ano no Rio. Não foi uma boa experiência, como você pode ler aqui. O fato é que nunca vi um crítico ou diretor sério da área que tivesse uma boa impressão […]
Atores são gado. Melhor é ler os textos.