Um bico no consenso

Quando leio os prólogos de Jorge Luís Borges não busco densidade, teorias mirabolantes muito menos frases para notas de pé de página. Quero, como Dante, um Virgílio para me guiar pelos círculos infernais, pelas cinzas do purgatório e pelos caminhos celestiais de obras e autores. É o que faz Borges, ao abraçar quem o lê com adjetivos e metáforas, conduzindo as emoções pelas sinuosas e insustentáveis levezas do ser.
Se havia uma lacuna no mercado editorial brasileiro de coletâneas de ensaios e resenhas de autores nacionais, alguns lançamentos remetem à maior das dúvidas: por que demorou tanto? “Contra o consenso”, do jornalista Reinaldo Azevedo, foi o melhor do gênero em 2005, quando foi publicado. Os ensaios e resenhas, publicados nas revistas “Bravo!” e “Primeira Leitura” (e no site desta), remete à essa entidade cada vez mais vilipendiada chamada humanismo.
Como Borges e Virgílio, Reinaldo Azevedo serve de guia; conduz à margem do consenso literário; amplia o foco dos temas e personagens buscando sempre um viés inexplorado, uma opinião over, uma máxima out, até quando coloca para tocar a música regional de Ariano Suassuna. Sua defesa da grandiosidade do “Romance da Pedra do Reino” faz qualquer indivíduo civilizado correr para o romance. Quem leu, vai reler numa outra afinação; quem esperava uma oportunidade, sorri feliz e canta “Let’s do it”, de Cole Porter.
Sem concessões, sem argumentos tolos, sem elogios desmerecidos e com frases cunhadas em fogo ardente, o jornalista faz ver a luz que Goethe clamava no leito de morte. Quando o jornalismo cultural brasileiro se lança no abismo da superficialidade e do frenesi do furo, já identificado por Sérgio Augusto, o hoje blogueiro e colunista de Veja, mostra que é possível suscitar discussões, valorizar nomes e obras pisoteadas pelo senso comum, popularesco, e pela ignorância sobre os cânones, famosos ou esquecidos em depósitos trancados.
“Eis ali o melhor de uma prosa desempolada, crítica, interessada em questionar as raízes brasileiras”, escreve Azevedo sobre a obra de Monteiro Lobato, o que pode ser aplicado a seus próprios textos, que incursionam pela literatura, invadem o cinema, temperam o teatro, a intelectualidade, a imprensa o antiamericanismo. Azevedo é irritantemente bom. E frasista preciso:
“Alguns morrem para entrar na história, outros vivem para dar corpo à infâmia”
Para o crítico George Steiner, as anotações feitas à margem do texto é a prova imediata da resposta do leitor ao que ele lê, no que chama de diálogo entre o leitor e o livro. “Contra o consenso” é desses livros que pedem anotações, sublinhados, comentários, debates e discussões. Se falhamos ao não ampliar as idéias, idiossincrasias e opiniões de Reinaldo Azevedo publicadas na imprensa, certamente seremos julgados pelo Tribunal da Honesta Inteligência. O livro não fez o barulho bom que eu esperava, agravando o diagnóstico de nosso jornalismo de idéias. Resenhas passam, as idéias ficam. Os debates não podem ser encarcerados em comentários que podem ou não ajudar na venda de uma obra. Nem isso teve. Reinaldo, pelo menos, foi contratado pela Veja. Sorte a nossa.
“O leitor que há em mim não transige com períodos truncados, com o deslumbramento retórico que tenta demonstrar o que há de supostamente profundo no rústico e no banal”.
Nos textos sobre Fernando Pessoa, Manoel de Barros, Murilo Mendes, Álvares de Azevedo, Eça de Queiroz, Mário Faustino, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Sá-Carneiro, Jean Genet, Sérgio Lemos, Ariano Suassuna, Monteiro Lobato, Marquês de Sade, João Gilberto Noll, André Sant’Anna, Cazuza, Júlio Bandeira e Rubem Fonseca, o jornalista contextualiza cada livro e sua importância na obra de cada escritor.
“A miséria do jornalismo atual se faz é de sua covardia analítica”.
Reinaldo Azevedo dá um bico no consenso e na covardia. Quem discorda que se manifeste, e esteja preparado para o contraponto. As críticas, lembro, por mais virulentas, não devem encerrar um debate. Devem amplificá-lo, provocar reações intelectualmente honestas e contra-ataques francos, mas nem por isso cordiais, de tapinha nas costas. “A maldição move, a benção relaxa”, já dizia William Blake, e eu repito raramente citando a fonte.
Os dois textos sobre Ariano Suassuna são um estímulo precioso à obra do escritor pernambucano. Crítica também deve fazer a ponte do leitor com certos autores e obras. É serviço essencial de saúde mental pública. Em “O Voltaire da Botocúndia” resgata a virilidade moderna de Monteiro Lobato contra o senso comum que situa o criador de “Reinações de Narizinho” como pré-modernista. As intervenções sobre Fernando Pessoa, um autor sobreposto pela celebrização de sua importância, são fundamentais para valorizar o que tem valor.
“Pessoa foi o autor completo de um país decadente”; “A dor de Pessoa é uma aventura do espírito”.
Sem medo de cutucar, Reinaldo desclassifica obras menores de autores coroados. Sobre “Retrato do Artista quando coisa”, diz que o livro integra a obra de Manoel de Barros como massa negativa. “É a soma que subtrai”. O incensado e supervalorizado Rubem Fonseca, felizmente, não é poupado:
“A auto-indugência é, no entanto, uma pantera pior que a solidão. Fonseca (…) também é, como o Brasil de seus livros, um vulto que cresce pela ausência”;
O colunista de Veja, sempre que pode, pulveriza a esquerda com seu verbalismo ácido. Muitos não gostam. É um estilo. Li alguém discordar de sua análise sobre “Diário de Motocicleta” porque ele dava uma traulitada no culto à imagem de Che Guevara e não se limitava à uma crítica cinematográfica. O bom leitor é o que sabe escolher e ler. E parece suficientemente óbvio que o pequeno ensaio tinha pretensões mais abrangentes do que simplesmente dizer que “a fotografia do filme é muito bonita”. O que seria do jornalista americano H. L. Mencken sem seus prejudices?
“Contra o consenso” também, claro, toca em questões políticas que afetam a cultura de um povo. “Pelo menos duas gerações de intelectuais preferiram produzir um presidente a produzir saberes para o Estado democrático”, diz, precisamente. Na mesma tocada, analisa o antiamericanismo (“A invasão do Iraque evidenciou que o antiamericanismo pulsa no mundo como um recalque do oprimido”) e o nefasto fenômeno Michael Moore:
“Admirar Michael Moore corresponde a lamber as feridas de nossa incompetência”.
Reinaldo não se arvora no direito de construir polêmicas frágeis. Seus textos transpiram uma vontade monumental de construir algo sólido, aliando vigor intelectual e arame farpado verbal. Ele não segue a máxima nietzschiana do porrete; é da escola dos samurais, das espadas afiadas. É civilizadamente impossível não gostar de seus textos. É o que difere o intelectual, jornalista ou não, do contínuo do pensamento.
É um erro achar que os ensaios e resenhas de “Contra o consenso” são para iniciados. São, também, para iniciar. Se percebo hoje uma confusão perniciosa do homem médio sobre o que seja alta cultura e cultura popularesca, o livro serve como uma bússola fundamental no passeio pelos círculos infernais da arte. É uma pena que não haja mais em nosso jornalismo cultural o debate público. Os bons argumentos e idéias se perdem com o vento, se espalham como folhas da relva.
“Contra o consenso” poderia, como nos anos de 1950-60, gerar páginas e mais páginas de questões, polêmicas e controvérsias. Não gerou isso, mas apresentou Reinaldo reunido em livro, o que não é pouco. Meu lamento vem com uma frase de Paulo Francis sobre o debate público no Brasil: “por que esfriou tanto?”
5 Comments so far
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Ei, Garschagen, que belo artigo! Você me lembrou de um livro indispensável(que adquirirei o mais breve possível!), pois considero primorosos os escritos de Reinaldo Azevedo, que leio na Veja On-line. Obrigada, meu caro!
Olá, Carla, tudo bem? Bom que tenha gostado da dica. O livro é ótimo! Sempre releio os artigos. Bjs.
Bruno,
infelizmente nossos suplementos literários se transformaram em verdadeiros hagiológicos daqueles que apenas gozam do respeito e consideração dos diretores culturais, televisivos e artisticos.
Dezenas de grandes e autenticos literatos estão soterrados sob a literatura dos chacais, cazuzas, mirisolas e outros infames da “Geração 90″.
Todos os cadernos literarios, ou os principais e de maior cirlução (Mais!, por exemplo), apenas resenham os livros dos seus colunistas, os dos amigos dos seus colunistas e daí por diante.
A literatura que hoje se lê (não me inclua nisso!), que estes autores gostam de dizer que é marginal, anti-mercadológica, contra isso ou contra aquilo do sistema ou da sociedade, é a literatura majoriariamente difundida pelo status quo dos grandes meios de comunicação.
Uma literatura que se pretende inovadora mas que se sustenta pelos mesmos meios que se diz contra, que acusa de reacionarismo e espirito burgues. Tenho dó destes pobres de espírito.
Bruno, a literatura nacional está agonizando, e muitos são aqueles que contribuem para tanto.
Livros como este do Reinaldo Azevedo ainda ajudam a ser um “escapismo” desta babárie que se chama de moderna literatura nacional.
Abraços, Guilherme.
Eu gostei do seu blog.Pertence a uma safra de bons escritores!
Olá Lena, tudo bem?
Obrigado pela visita e comentário.