De novo, uma das celebridades do ateísmo militante

Manuel da Costa Pinto, hoje na Folha (assinante), escreveu sobre uma das celebridades do ateísmo militante, o filósofo francês Michel Onfray e seu, upa, nenên!, Tratado de Ateologia:

Catequese às avessas

Em “Tratado de Ateologia”, o filósofo Michel Onfray usa retórica inquisitorial para pregar contra a religião

É POUCO provável que a ladainha de um pastor evangélico seja capaz de catequizar um materialista convicto. A recíproca é ainda mais verdadeira: argumentos racionais contra a irracionalidade da fé são incapazes de fazer um crente descrer.
Vem daí a curiosa situação do “Tratado de Ateologia”, de Michel Onfray: o filósofo francês investe contra a religião numa retórica inflamada, à maneira dos libertinos do século 18 -mas, ao contrário destes (que falavam para cortesãos vigiados pela Igreja), prega para uma sociedade já laicizada.

(…)

Onfray escreve seu libelo à maneira de um Torquemada pagão, reduzindo a religião a uma “patologia mental”. Na esteira de Nietzsche, ele afirma: “O terror diante do nada, a incapacidade de integrar a morte como um processo natural, inevitável, com o qual é preciso compor, diante do qual só a inteligência pode produzir efeitos, mas igualmente a negação, a ausência de sentido além daquele que damos, o absurdo a priori, esses são os feixes genealógicos do divino”.

(…)

Contra a atual ética da caridade (um “cristianismo sem Deus” complacente com os fanatismos), propõe o resgate uma tradição de ateus que, paradoxalmente, começa no século 17 com o jesuíta português Cristóvão Ferreira e o abade francês Jean Meslier. O problema é que essa virulenta doutrina, a “ateologia”, só encontra eco entre uma minoria ilhada entre os fiéis de Ratzinger e dos ideólogos da Guerra Santa -para os quais Onfray não é um apóstata, mas um alienígena.

No dia 29 de junho eu escrevi sobre os ateus convertidos em celebridades:

Ateístas são cristãos plantando bananeira

Quanto mais se tenta matar Deus mais se consagra a sua existência. Gozado. Agora, vemos ateístas profissionais. Gente que está vendendo livro e ganhando dinheiro para tentar provar que Deus é uma impossibilidade (H.L. Mencken, anticlerical furioso, definia a fé como uma crença ilógica na ocorrência do improvável). O jornalista inglês Christopher Hitchens está se convertendo num anti-Messias. Em vez de anunciar a vinda de Deus, anuncia a sua não-vinda. Hitchens quer ser Zaratustra, o moço que Nietzsche inventou para descer a montanha e pregar o super-homem capaz de substituir Deus. É o cristianismo plantando bananeira, como as cruzes invertidas dos satanistas seguidores de tarados como Aleister Crowley e Anton Szandor LaVey.

A Veja da semana passada fez uma boa matéria (reproduzida logo abaixo) sobre as atuais celebridades do ateísmo: Hitchens com o seu God is not great, o biólogo inglês Richard Dawkins com o seu The God delusion, o filósofo americano Daniel Dennett com o seu Quebrando o encanto, e o filósofo francês Michel Onfray com o seu Tratado de ateologia.

Jerônimo Teixeira, que assina o artigo “Queda de braço com Deus”, diz que “esses livros são sobretudo uma reação - às vezes exagerada, alarmista até - a um certo recrudescimento da religião em suas versões mais fanáticas, no mundo pós 11 de setembro”. Este é um ponto interessante. Por qual razão, Garschagen? Explico: esse pessoal se posiciona contra o Deus cristão. As referências que fazem são, em sua maioria, a religiões cristãs. Se o fanatismo é representado pelos islamismo, então, a reação é suspeita, não?

E é interessante notar que a argumentação desses caras não é diretamente focada na existência ou não de Deus, mas nos reflexos terrenos da existência de Deus, ou seja, todo o corpo teórico que se criou para nortear as religiões - a Bíblia e o Corão. Não houve, ainda, nenhum intelectual ateu que tenha conseguido ombrear com Santo Tomás de Aquino e sua Suma Teológica. Se a prova racional da existência de Deus está na Suma, não há na literatura ateísta uma prova racional da inexistência de Deus que chegue aos pés da obra forjada pelo Santo. E, veja bem, não sou católico - sequer tenho religião. Mas, na esfera do bom debate, não apareceu ninguém que tenha chegado aos pés do Santo.

O debate se Deus existe ou não é desinteressante porque, ora, ora, Deus sempre é relegado a um plano secundário. Basta as celebridades do ateísmo ouvirem o nome de Deus para serem acometidos de uma distonia monumental. E no sacolejo do descontrole físico viram bonecos a repetir a mesma catilinária. Para discutir Deus é preciso estofo intelectual e um mínimo de criatividade. Ainda não apareceu ninguém com tais atributos.

1 Comment so far

  1. Gino Pieri Setembro 25th, 2007 10:05 am

    Sr. Bruno
    Em primeiro lugar as minhas felicitaçoes por ter conseguidoler e apreciar a Suma Teologica, acredito que na versao original, o latim. (nunca confie nas traduçoes).
    Sinto, ao mesmo tempo, que nao possa ter lido algo de Bertand Russel, este sendo em ingles seria bem mais digerivel e nele poderia ter encontrado magnificas confutaçoes das teses tomisticas sobre a existencia de deus.(A letra minuscula é voluntária)
    Mas resumindo, a meu modesto avviso, nenhuma prova é possivel tanto pro como contra a existencia de deus. A única “prova” que os teistas ou mesmo os deistas tem é baseada na fé. Ha de convir que a fé só funciona para quem a tem.
    Concluindo, tanto a existencia como a inexistencia de deus são apenas hipoteses que aguardam, e aguardarão para sempre, uma demonstraçao.
    Poderiamos discutir sobre a probabilidade da veracidade de cada hipotese, mas isso pode esperar um proximo contato.
    Cordiais saudações
    Gino Pieri gnpieri@uol.com.br

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