O homem cordial e a conjugação da tosquice com a ignorância e a má-fé

Raízes do Brasil. Eu já tinha lido vários tipos de sandices, disfarçadas de opinião, sobre a tese do homem cordial desenvolvida por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. A da escritora Ana Maria Gonçalves, citada no post abaixo, é única na conjugação de tosquice, ignorância e má-fé. Daí você me pergunta: mas Garschagen, se ela ignora o significado do homem cordial, como poderia agir de má-fé ao dizer tal asneira? Simples, digo eu: levando em consideração que ela leu mal o livro (considerando que ela o tenha lido), deveria, ao menos, cotejar sua impressão pós-leitura com os vários estudos e artigos para jornal que analisam a tese do homem cordial. Ignorar as análises que foram feitas e que a permitiriam entender o conceito é má-fé, pura e simples. Se ela, como disse, mergulhou na história de uma personagem africana para elaborar o seu Um defeito de cor, por que não fez o mesmo com um autor brasileiro antes de citá-lo equivocadamente? Por que, aliás, a escritora disse tamanha bobagem?
O homem cordial existe, óbvio, enquanto traço característico e negativo de nossa formação cultural - é o que mostra Sérgio Buarque de Holanda e eu assinto, mas lembrando que a definição não é determinista, sendo mais uma elaboração psicossociológica de tipos, como o semeador e o caudilho, também citados na obra. O que caracteriza o homem cordial? O desrespeito aos limites existentes entre o que é privado e o que é público. Em nossa cultura política, por exemplo, predomina o afeto, o sentimento, em detrimento dos valores, ideais e instituições políticas. Para dar um exemplo corriqueiro, é o servidor que age como se a repartição pública fosse a sua sala de estar, privilegiando, quando necessário, os amigos ou aqueles de que gosta, e que igualmente acham que podem ter privilégios no serviço público porque têm uma relação afetiva ou de simpatia com um servidor, que também faz de tudo para atazanar a vida de um desafeto quando pode prolongar um atendimento ou a concessão de um benefício.
Além do mais, essa cultura de valorização anabolizada do afeto, que confunde o ambiente de casa com o da rua, serve para apresentar sob falsa aparência as diferenças sociais. A desigualdade, assim, é legitimada por um acordo tácito selado diariamente por sorrisos, abraços, piadas, cervejinha no bar e tapinha nas costas (o preconceito de cor de pele entra no bolo, claro, mas é questão acessória). Não é à toa que o cordial, da expressão criada pelo escritor Ribeiro Couto e aproveitada por Sérgio Buarque, vem de cordis, coração em latim.
Dizer que o “homem cordial de Buarque de Holanda nunca existiu, é uma desculpa para o racismo velado” é algo ignóbil, ignominioso, e aqui já peço desculpas pela “linguagem Jânio Quadros”. É o que eu disse lá em cima: trata-se da conjugação de tosquice, ignorância, daquelas que não ousam dizer o nome, e má-fé que cheira a enxofre.
O ignóbil, aliás, me deu uma idéia: este blog passa a conceder, a partir de hoje, copiando descaradamente o que se faz em Harvard com pesquisas tolas, o Prêmio Ignóbil.
E o primeiro Prêmio Ignóbil 2007 vai para Ana Maria Gonçalves.
4 Comments so far
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[…] jornalista Bruno Garschagen dá mais detalhes sobre todo o imbroglio em seu blog, cada vez mais […]
buarque de holanda inclusive opunha a cordialidade à polidez, sendo a polidez um tipo de defesa do indivíduo ante à sociedade e a cordialidade, pelo contrário, uma maneira de evitar o encontro a si próprio ancorando-se na coletividade.
agora que dei uma folheada no livro convenço-me de que a moça não sabe mesmo do que está falando. pois não sei que associação é que se pode fazer entre o homem cordial e racismo velado, por mais que se queira.
Parece que ela não leu Raízes do Brasil, não leu Casa-grande & Senzala — que é o livro sobre relações de raça a respeito do qual certos intelectuais* fazem comentários condescendentes — e misturou o que pensa que sabe dos dois.
* Ver prólogo do FHC à (péssima) edição da editora Global.
Adorei o texto, odiei o título