João Pereira Coutinho debate com Turgenev o problema da integração arbitrária

Sem arte verdadeira, Garschagen, é impossível respirar. A propósito, me dá a bombinha de asma que está em cima da mesa...

No Expresso (Portugal)

Conta-me histórias

Confesso certa estranheza com as declarações de Saramago. Parece que o Nobel, em entrevista recente, declarou ser destino e interesse da pátria a integração com Espanha. A estranheza não está apenas na natureza absurda da sentença, que o ministro dos Negócios Estrangeiros se apressou a comentar. Está na inutilidade dela. Sem livro novo para vender, qual o interesse de Saramago em agitar o esplendor do iberismo? Mencken dizia que um cínico é alguém que sente o cheiro a flores e olha em volta para ver onde está o funeral. Não vou por aí. Baixando a guarda do cinismo, talvez a união ibérica seja, para Saramago, questão sincera. E uma expressão de alma mais pessoal do que política. Bem vistas as coisas, Espanha deu-lhe uma casa; uma mulher; milhares de leitores; vinte quilos de doutoramentos “honoris causa”. E, com a fantástica rábula da ‘perseguição’ e do ‘exílio’, o Prémio Nobel da Literatura. Se isto não transforma qualquer um em iberista, eu gostaria de saber o que transforma.

Na Folha

A união desfaz a força

Arte européia? Não existe. E mesmo no interior de cada país, a diferença impede qualquer generalização apressada. Não existem catedrais góticas ou pinturas renascentistas. O gótico espanhol é distinto do gótico inglês. E, mesmo dentro do primeiro, o gótico leonino (e mais clássico) é distinto da exuberância do gótico andaluz e sevilhano. Para não falar do português, ou do alemão. Ou das diferenças regionais no interior de Portugal ou da Alemanha.

Não existe pintura do Renascimento. Existem pintores, como Mantegna ou Bellini, ambos italianos e ambos distintos do francês Jean Fouquet, a trabalhar na mesma altura. E se falamos da modernidade artística, e até cinematográfica, não sei que espécie de unidade pode promover a diversidade do cinema de Almodóvar, de Bergman ou do próprio Wenders.

João Pereira Coutinho, sempre excelente, trata em dois textos sem ligação de um ponto em comum: o problema da tentativa de integração arbitrária que dissolveria, como ácido na mão, a maravilhosa individualidade que caracteriza e marca um povo, uma arte. Anexar Portugal à Espanha? Para quê, minha Santa Rita do Passa Quatro? A União Européia é uma grande idéia porque integrou os países sem descaracterizá-los. Todos se mantêm como nações independentes que precisavam facilitar a vida dos indivíduos e promover um desenvolvimento mais ou menos integrado, algo que uma boa loja maçônica faz com seus membros.

No caso da arte, a individualidade é tanto ou mais fundamental. E mesmo dentro de um país dificilmente se acerta ao dizer coisas do tipo: a arte italiana; a arte inglesa; a arte francesa; a arte brasileira. Imagine colocar num mesmo balaio de gato Pancetti e o picareta do Hélio Oiticica?

Não consigo imaginar um artista verdadeiro, uma arte verdadeira, a exemplo do escritor russo Ivan Turgenev, “sem autenticidade, sem educação, sem liberdade em seu significado mais amplo - na relação consigo mesmo, com as próprias idéias preconcebidas, até mesmo com o próprio povo e com a própria história”. Sem este ar, dizia ele, não é possível respirar.

3 Comments so far

  1. Scorpii Julho 29th, 2007 12:19 am

    A integração à qual Saramago se refere é econômica. Integração que já começa a ocorrer. Os investimentos espanhóis em Portugal são significativos e tendem a aumentar. Saramago fez apenas uma projeção, que pode ou não se confirmar. Ele ressaltou que, com a integração, os portugueses não perderiam a sua identidade cultural, como ninguém perdeu na União Européia. Sugiro ao blogueiro a leitura da entrevista do escritor, e não só os comentários que ela suscitou. Porque ler comentário de comentários é um saco.

  2. Bruno Garschagen Julho 29th, 2007 7:30 am

    Ué, basta não ler o comentário do comentário. O que não invalida o fato de Saramago continuar sendo uma besta quando opina e isso, infelizmente, não vai mudar.

  3. Miguel (Portugal) Março 26th, 2008 1:38 am

    Saramago vive em Espanha (por birra política, queria um prémio não ganhou mudou-se, “exilou-se”), vive no mundo dele (pré-queda do muro, o sr. cunhal ainda está vivo)defende a integração Ibérica. Estamos em 2008, não em 1973 “Paz á sua Alma”.
    Devolvam o seu Nobel, mas tendo em conta o facto das escolhas da academia serem políticas (por norma) deixem-no ficar com ele, esquerda por esquerda mais vale a velha que dessa já sabemos com que contar.

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