Entrevista: Nélida Piñon
Em 1969, família no Brasil era uma instituição sagrada, as moças não exibiam seus mistérios em público e os homens, os menos espertos, só conheciam biblicamente a amada após o casamento. Naquele ano em que se vivia o começo de várias mudanças sociais, a escritora Nélida Piñon descreveu em seu quarto livro, Fundador, uma cena de sexo que mesmo hoje provocaria frêmitos de decotes, para furtar, mais uma vez, frase de Nelson Rodrigues. Três anos depois, ela ampliaria a provocação com A casa da paixão. São dois bons livros, acredite. O restante da obra ficcional não chega aos pés.
Nélida Piñon, carioca descendente de espanhóis, ficou nacionalmente conhecida por ter sido a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (1996-1997), que a elegeu imortal em 27 de julho de 1989 como sucessora de Aurélio Buarque de Holanda. Nas universidades sua obra é assunto para teses e dissertações, mas dificilmente você encontra um conhecido que tenha lido algum de seus 17 livros, incluindo uma coletânea de discursos, que lhe valeram prêmios nacionais e internacionais. Gozado.
Li a obra completa de Nélida para uma entrevista que fiz para a revista Entrelivros em 2005. Mas, ora, ora, a entrevista foi editada, mutilada, e o melhor se perdeu. Curioso. A entrevista é boa porque Nélida sabe conversar. Você sabe que cada dia mais entrevista com escritor se parece com entrevista com jogador de futebol. Vamos lá? Vamos. Sirva-se de uísque e empreenda a leitura:
Você já recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais por sua obra. Até que ponto o reconhecimento literário atrapalha o trabalho do escritor?
NÉLIDA PIÑON - Não me atrapalha em nada. Pelo contrário, acho muito agradável. Quando o escritor atinge um determinado patamar se despreocupa com isso. Além do mais, estimula o fato de ser reconhecido por seus pares. Para uma pessoa com a minha formação não faz a menor diferença. Me julgo imune a essas grandes vaidades.
Os prêmios são maravilhosos, mas em nada facilitaram a minha vida em relação ao texto. Ser reconhecida é muito agradável, fico honrada e agradeço comovida, mas minha batalha com a linguagem, com o saber humano, fica intacto. Sou uma grande solitária que fica lapidando o texto. Os prêmios não escrevem meus textos.
Como é essa batalha com a linguagem?
NÉLIDA - Eu sei que o texto quer me enganar; e eu a ele. Há uma tendência a um mútuo acordo, a uma lassidão. Eu não caio nessa armadilha. Vou até as últimas conseqüências no texto. Eu trabalho, reviso, vejo a musicalidade. Adoro música. Sei que há uma linguagem que além de captar essa essencialidade estanque pode ser acrescida de uma harmonia, de uma simetria à história. A história, o enredo, sem linguagem é um apanágio do fracasso.
Você falou de musicalidade, que é marcante especialmente na novela A casa da Paixão, em que há parágrafos longos, uma narrativa ligeira, forte, e personagens rudes e complexos. Há ali uma influência de William Faulkner de Santuário e o Som e a fúria, ou, antes, de James Joyce?
NÉLIDA - A questão dos personagens pode ser explicada com algo muito simples: quando menina, vivi um mundo rural. Tenho uma dupla cultura. Ainda muito pequena fui levada para a Espanha. Lá eu falava o espanhol e o galego. Isso também me deu a sensação de que eu tinha a língua portuguesa no DNA. Eu falava a língua que deu o gênese a essa deslumbrante e suntuosa língua portuguesa. Sou completamente enamorada da nossa língua. Eu poderia ter usado o castelhano para escrever minhas obras — e claro que facilitaria minha vida de escritora —, mas eu não quis. Gosto da Espanha, da Europa, mas sou essencialmente brasileira.
Por ter vivido a infância num ambiente rural não precisei ser influenciada por ninguém para criar alguns tipos de personagens. Na Espanha, eu levava os cordeiros, as ovelhas, as vacas da minha avó para o monte. Tive essa experiência absolutamente deslumbrante. Apesar de dizerem que sou uma mulher sofisticada, tenho esse mundo rural na veia e essa é a minha força.
A Galícia, terra de minha família, era uma região muito pobre. Herdei da minha família essa retidão, de que o ser humano não pode ser marginalizado nem pela pobreza. Havia todo um sentimento de sobrevivência que eu aprendi. No Brasil, eu desfruto desse país forte, imenso, continental, mas minha origem é de uma região pobre, pequena.
Como entra nesse período sua paixão pelos gregos?
NÉLIDA - Além dessa experiência rural, comecei a ler a grande literatura muito precocemente e sempre fui apaixonada pelos gregos. A civilização que gerou Atenas era, na verdade, rural. Você sente que o texto grego é um texto rural. O mundo rural é povoado de mitos. O mundo urbano ainda não fabricou seus grandes mitos. É muito difícil fazer um texto urbano mobiliado, povoado, pelos mitos do mundo rural. Tudo isto está nas grandes tragédias gregas, nas epopéias, nos épicos.
A casa da Paixão é uma espécie de poema em que faço uma homenagem aos pré-socráticos, à grande metáfora da essência humana. É uma história que gira e gravita em torno dos quatro elementos da terra. Há todo um saber na retaguarda daquele texto.
Eu trabalho, de modo geral, com essa configuração mítica. Me parece que ajuda muitíssimo para fixar sentimentos aparentemente inatingíveis, que ganham visibilidade através desse distúrbio de comportamento.
As influências para minhas criações é a minha própria história de vida. Evidentemente, sou uma leitora de Faulkner e de Joyce, mas eu tenho direitos de criar esses tipos de personagens por ter vivido num mundo rural, uma grande experiência que me deu uma dimensão extraordinária da minha própria humanidade. É como se eu tivesse tocado o coração da minha gente trabalhando a terra.
Na famosa entrevista para a Paris Review, o escritor americano William Faulkner disse que “a única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. (…) se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará”. A senhora, ao perfilar os personagens da paródia “Força do destino” confessa que “não escreve por esporte, também não se deixa seduzir pelo dinheiro”. Por qual razão a senhora escreve?
NÉLIDA - Paixão, escrevo por paixão. Escrever representa a mais esplêndida descoberta em minha vida. Eu me realizo escrevendo. Acho que a humanidade não pode prescindir da literatura. A literatura constrói sentimentos que não teria outro lugar onde se encastelar. Além disso, é importante escrever sem medo. Produzir hoje um texto que pode expulsá-lo provisoriamente do mercado é um ato heróico. Sempre escrevi sem medo.
Quanto a Faulkner, aquilo tudo era totalmente ficcional. Ele criou uma persona pública. O Faulkner fazia um gênero de ignorante, mas tinha lido Cervantes ainda criança. Eu só sou teatral nos meus textos.
Quais são seus autores referenciais?
NÉLIDA - Sou apaixonada por Cervantes, por Homero, por Shakespeare e tenho uma paixão por Machado de Assis. Nunca deixo de conversar com a estátua de Machado toda vez que entro na Academia (Brasileira de Letras). Sempre de forma respeitosa; nunca o tratei por “você”. Venerando Machado estou venerando o Brasil. Machado pra mim é um grande gênio. Se Machado de Assis foi possível o Brasil é possível, não tem o direito de fracassar.
Você se lançou como escritora em 1961. Qual era o país que a jovem Nélida Piñon viveu e enfrentou para escrever com liberdade temas considerados tabus?
NÉLIDA - Nunca ninguém havia me perguntado isso: que Brasil eu tive na minha geração? Um país acanhadíssimo, modestíssimo. Apesar de todos os nossos desastres, o Brasil, naquela época, era muito sereno de tão modesto. Mesmo assim, as tragédias estavam escondidas, debaixo da cama, dos lençóis, do tapete; você não via aparentemente nada. Hoje você vê essa ebulição, está tudo muito à vista.
Era um Brasil muito acanhado, mas eu, pelas minhas leituras, por uma certa vocação para solidão, embora fosse cercada de afeto, amizade, tolhi muito, não a minha feminilidade, mas o meu arrebate. Eu, que freqüentei ópera, teatro dramático, balé, não somente aprendia com a arte, com a arte fora da palavra, como entendi que podia me valer desses elementos dramáticos, que exploro nas minhas obras em certos momentos.
A leitura de Cervantes me deu a noção do ridículo, de uma ironia mancomunada com desatinos. Fui aprendendo tudo isso sendo um ser passional. Tive essa combinação que me ajudou muito a pensar em mim. As viagens também me ajudaram muito.
A sensualidade e a sexualidade são elementos marcantes de sua obra, especialmente em Fundador (1969) e Casa da Paixão (1972). De onde vem isso?
NÉLIDA - É uma presença marcante no meu olhar artístico do mundo. Tenho uma visão sexual da narrativa. A carnalidade explica; não é um simples conteúdo. Como posso lidar com palavras em linguagem sem conviver com a sexualidade e com esse corpo em chamas? Esse corpo é o veículo condutor da nossa complexidade. Quando você está lidando com um texto é assaltado por sobressaltos; quase todos os nossos grandes sobressaltos, mesmo anímicos, advém de nossos desejos.
Que tipo de preocupação referencial a senhora tem ao escolher os nomes dos personagens (Fundador, Ptolomeu, Joe, Johanus, Dodô, Polidoro)?
NÉLIDA - Mais do que o nome você escolhe uma genealogia. Cada um pertence a uma tribo, tem características, tem memória. Por exemplo, na “Doce canção de Caetana” tirei o nome do personagem Polidoro da tragédia grega (olha aí os gregos de novo): trata-se de um filho muito pouco conhecido de Príamo com Hécuba (os outros são Páris, Laocoonte, Heitor, Polidoro, Troílo, Ilionéia, Polixena e Cassandra). Muitas vezes custa muito encontrar um nome ideal para o personagem.
E como, antes, a senhora trabalha a criação desses personagens?
NÉLIDA - A crítica internacional sempre enfatiza o fato de eu criar homens e mulheres fortes. A Eulália (de A República dos sonhos), por exemplo, simula ser fraca por meio da distração. A distração, para mim, tem um objetivo específico: usei-o nas personagens femininas como instrumento de defesa. A grande defesa contra a impotência é a distração. Porque você recebe, mas não escuta o comando do outro. Com isso, se desvaloriza o autoritário. Fiz uma linhagem de mulheres distraídas em minhas histórias, mas agora não faço mais, esgotei.
Como voccê analisa o fato de seus personagens, regularmente, enfrentarem um misto de desejo e repulsa adornados por uma firme moralidade?
NÉLIDA - Há um sentido moral em minha obra que remete à Dostoiévski e muito pouca gente se atentou para isso. Acho muito difícil um autor aliar-se ao mal. O mal está presente na obra, mas o autor, por mais soberano, inclina-se às índoles da humanidade. Somos seres que nos debatemos contra o mal, mas ao mesmo tempo resistimos ao bem, para falar de uma forma muito simples.
A arte rejeita maniqueísmos. A arte é o caos e o caos semeia a discórdia; a arte é uma semeadora da discórdia. Tento captar essas angústias dos seres humanos. O personagem tem uma moral e serve a todas essas moralidades ao mesmo tempo.
Entendo moral como composição ética nessa trajetória do homem ao longo da história para arrecadar princípios que pudessem constituir um estatuto moral. Somos produtos da ética. A nossa ética não nasce da religião, nasce de nossas trajetórias, de nossos fracassos, de nossos acertos, de nossa busca por Deus. Todo mundo é assim, desde o menino do estábulo à prostituta; todos contribuem para o discurso moral. Basta conversar com o povo para ver que a moral é idêntica em qualquer lugar. Só a forma de se expressar que se diferencia.
No seu primeiro livro, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, você trata de instituições cristãs, digamos assim, como o pecado, o perdão e a relação do homem com Deus. Em vários textos você se refere a Deus pela boca dos personagens. De que maneira e de que forma você pretende usar Deus na literatura?
NÉLIDA - Uso Deus em minhas histórias porque é uma presença nobre e vil ao mesmo tempo. O homem tem dificuldade de viver sem Deus. Ele precisa amar a esse Deus ou se proclamar herdeiro da incongruência divina — não importa se monoteísta ou panteísta. Tenho uma formação religiosa, católica, mas não me sinto romana. Cada dia gosto menos de Roma. Cada dia me sinto mais cristã e tenho, ao mesmo tempo, atração pela história da igreja. Mas o que sinto forte é que sou uma panteísta e monoteísta.
Me identifico muito com uma certa época da história humana, quando se estava sob a jurisdição do cristianismo, monoteísta, mas as pessoas conviviam em casa, na aldeia, na montanha, com os vários deuses, com indivíduos panteístas. Foi uma época de extraordinária liberdade de pensamento religioso. Uma pessoa podia servir a vários deuses ao mesmo tempo.
Quando Moisés desce o Sinai, todos ali eram monoteístas. Mas bastou que ele se afastasse para depois encontra-los adorando o bezerro de ouro. Isso não foi bem analisado ainda: era a nostalgia pela visibilidade. Eles precisavam enxergar para crer. O monoteísmo foi uma quebra de paradigma extraordinária. A imaginação cria a fé.
Houve algum choque da família e dos amigos com o teor de sua literatura?
NÉLIDA - Talvez para meu pai tivesse sido um grande escândalo. Tinha uma verdadeira paixão por mim. Ele andava com os meus pequenos textos publicados num jornalzinho modesto da colônia espanhola. Recortava e guardava-os no bolso do paletó. Quando encontrava um conhecido na rua mostrava meus textinhos mesmo contra a minha vontade.
Aconteceu que de repente as pessoas viram que eu havia me tornado uma escritora. Elas não tinham o olhar que eu tinha sobre as coisas. Muito novinha, eu já dizia que queria escrever uma obra, não um livro. Eu tinha a noção dessa diferença. Uma obra é um grande risco. O escritor é julgado em toda a sua extensão e tem que dar provas de seu preparo, de sua habilidade, de sua capacidade criativa, de capacidade para enfrentar os grandes desafios estéticos, a sociedade, o país, as grandes encruzilhadas estéticas do mundo ocidental e oriental.
De que forma seus pais ajudaram-na a se formar escritora?
NÉLIDA - Meus pais não me impunham preconceitos. Eu decidia o que queria fazer. Tinha acesso a qualquer livro, tinha uma conta aberta numa livraria: se eu quisesse ler pornografia poderia ler, pois era eu que comprava meus livros. Mas logo me encaminhei para a grande literatura.
A minha imaginação era arrebatada desde menina. A descoberta do corpo não me mudou, como normalmente acontecia com as mulheres da época. Para minha grande surpresa, meus pais, minha família, não caíram na armadilha da intolerância contra as mulheres. Talvez pelo fato de serem imigrantes. Eu era a princesa, a rainha da casa, mas não uma rainha protegida.
Fui uma menina precoce e meu corpo também se desenvolveu rapidamente. Meu pai, que era um homem tão experiente, não cortou as minhas asas. E minha mãe me estimulou a voar. Ela só dizia assim: “Minha filha, os problemas da rua você deixa fora de casa. Só traga para casa aqueles que você não conseguir resolver”.
Portanto, não sofri esse drama de ser mulher naqueles anos. Acho que por isso me tornei uma feminista, por ser uma privilegiada. Mas eu sofri também quando resolvi fazer literatura. Havia preconceito sim, contra as mulheres, mesmo por parte de amigos queridos.
As minhas modestas conquistas sempre foram em função do meu trabalho, nunca pela minha condição de mulher. Nunca usei isso para prosperar. Toda a minha carreira foi absolutamente independente.
Você falou anteriormente sobre a necessidade de enfrentamento. É por isso que o velho Madruga, no final de A República dos Sonhos, diz à narradora para não se importar com as pessoas próximas e escrever sem medo sobre os acontecimentos?
NÉLIDA - Sim, sim. Porque o escritor não pode se preocupar em respeitar os códigos, os códices, os cânones de seu país, todos os grandes códigos da humanidade. Ao mesmo tempo, por mais que se esteja preparado para romper fronteiras, não sabe que pode ir além.
À medida que passa a ser uma nova pessoa a cada ruptura, essa nova pessoa encontrará outros obstáculos, o que é maravilhoso. Hoje eu sinto que estou numa etapa de rompimento. Cada dia me é mais necessário transpor tudo o que puder, fazer novas Nélidas. Eu sou palimpsesto. Cada vez que apago uma das camadas do meu palimpsesto surge uma nova Nélida e eu tenho que ser compatível a ela.
Uma coisa que sei ter sido fundamental para uma seqüência de rupturas em minha vida foi a morte de minha mãe. Eu já tinha perdido meu pai. Além de meu amor, de minha admiração, aquela mulher ajudou a me formar; eu devo muito a ela como escritora. Mesmo nos momentos difíceis ela me dizia que não tinha medo e que eu não podia aceitar nada que impedisse meu sonho.
Somos sempre desafiados a enfrentar grandes rompimentos. E uma ruptura nos induz a sermos mais resistentes. Cada livro que termino é como se eu esvaziasse o armário, jogasse fora todas as conquistas, toda a roupa empilhada, todas as jóias. Tudo o que consegui juntar eu jogo fora. Preciso me esvaziar — não me empobrecer — para os próximos livros. Não posso me permitir acumular sobras e começar um novo livro com essas sobras.
Embora sua obra tenha nítida influência inglesa, alguns críticos a consideram a “voz mais espanhola da literatura brasileira”. O que acha disso?
NÉLIDA - Completamente frívola essa opinião. Essas pessoas conhecem pouquíssimo de literatura (risos).
Tenho uma formação anglo-saxônica muito sólida. Li muito, tanto a literatura inglesa como a norte-americana. Até um tempo atrás era difícil um escritor dessas duas línguas que eu não tivesse lido. Minha obra tem uma complexidade que não se vê tanto na literatura em inglês. A língua inglesa, à exceção de um autor ou outro, expulsa bastante a carga metafórica. Eu tenho essa carga metafórica porque sou uma latina. Faço em minha literatura um jogo de frases sincopadas, sincronizadas, binárias. Nesse sentido, não tenho influência daquelas seqüências de subordinadas da língua portuguesa. A minha complexidade está concentrada nas frases curtas.
Você iniciou a carreira literária numa época em que a crítica nos jornais ainda tinha poder de fogo. O que acha do comportamento e da influência, se é que existe, da crítica literária no Brasil de hoje?
NÉLIDA - Hoje eu não sei, não acompanho. Na época eu admirava críticos de notável saber, com formação sólida. Era muito importante que essas pessoas se manifestassem e havia uma grande presença delas nos jornais. Mas não saberia dizer isso hoje.
Harold Bloom diz que a próxima geração de críticos não virá das universidades. Ao mesmo tempo, há uma geração de leitores e autores se formando e se conhecendo através da internet, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Você acha que a crítica universitária está fadada a ser apenas mais um ramo do funcionalismo público e perder toda a sua relevância?
NÉLIDA - Não, não. Acho que um certo saber literário nas universidades é muito importante. A crítica nas universidades pode se aprofundar numa obra. A crítica para jornais tornou-se muito leve e a gente precisaria de uma grande pena para fazer a crítica nos periódicos. A universidade faz trabalhos primorosos, analisando uma obra inteira, um papel que julgo insubstituível.
Como você acha que deve ser o comportamento do intelectual: atuante como foram John Milton, Swift, Zola etc., ou alheio ao debate político?
NÉLIDA - Acho que essa participação é inevitável. Cada escritor escolhe de que forma atuar, mas acho importante que isso não seja tão visível para não virar uma arte panfletária, partidária. O escritor não deve tomar partido. O texto tem que ser soberano, para o bem e para o mal.
Mas como participar do debate sem ser panfletário?
NÉLIDA - Se vigilando o tempo todo e aprendendo a fazer a grande arte literária.
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