Contos pra lá da Carochinha

Seleções literárias são, geralmente, como palácios: repletos de janelas para o leitor espiar. Algumas delas revelam-se estreitas, sujas, adornadas com teias de aranha e mofo; outras, espaçosas, arejadas, ventiladas e por onde entram odores diversos dos jardins floridos que circundam a construção. Ainda há janelas médias, que se são resistíveis em comparação às maiores, convidam a um debruço confortável no parapeito.

Com o relativo sucesso editorial dessas obras no mercado nacional, sobraram críticas para a escolha, claro, imponderável do autor da seleção, no que se convencionou chamar de “melhores” de um determinado gênero literário - conto, poesia, terror, policial etc. Curiosamente, cada lançamento é sucedido por saudáveis discussões sobre os textos que ficaram de fora. O coordenador de uma dessas obras faz as vezes de imperador implacável. Muito justo. Mas, se na média as escolhas são corretas, algumas ausências fazem qualquer leitor sensível compartilhar com Raskolnikov a idéia de que alguns homicídios são perfeitamente justificáveis.

Contos Russos, Contos Norte-Americanos e Contos ingleses é dessas coleções essenciais para se ter à mão e degustar calmamente como se fossem exemplares de single malt. São 112 contos que seguem, na avaliação geral, um alto padrão de qualidade, com algumas poucas exceções que figurariam muito bem no terceiro recinto do sétimo círculo infernal, onde Dante achou os que atentaram contra a arte.

Antes de mergulhar nos contos selecionados, um adendo: como poucas outras edições brasileiras, a de que trato tem o charme de ter sido coordenada por Rubem Braga (”Contos Ingleses” e “Contos Russos”) e por Vinicius de Morais (”Contos Norte-Americanos”) em 1945 para a editora Leitura, qe, infelizmente, era ligada ao PCB. Tem mais? Tem sim senhor! Supervisão de Graciliano Ramos, apresentação de Orígenes Lessa, pai de Ivan, o terrível, e, na tradução, um time de celebridades literárias, gente como Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Elsie Lessa, João Cabral de Melo Neto, Sérgio Buarque de Holanda, Marques Rebelo. Talvez o maior problema da edição, se é que pode colocar nesses termos, seja o fato de quase todos os textos em russo terem sido vertidos do inglês e do francês (apenas dois foram traduzidos diretamente do idioma de Tolstói). Havia uma dificuldade tremenda na época para arranjar tradutores de russo.
Dito isso, vamos aos livros. Contos Russos tem 39 textos. Dos fundamentais Aleksandr Puchkin, Nikolai Gogol, Ivan Turgueniev, Dostoiévski, Tolstói, Máximo Gorki, Anton Tchekov aos menos conhecidos Mikhail Lermontov, Nikolai Schedrin, Nikolai Leskov, Nikolai Uspenski, Vladimir Korolenko, Vsevolod Garchin, Fiodor Sologub, Leonid Andreiev, Aleksandr Kuprin, Eugenio Zamiatin e Lídia Seifullina.

Um dos grandes méritos é trazer esses escritores que foram cobertos pela poeira da história. É ótimo descobrir escritores como Lermontov, de quem eu ignirava completamente a existência, e constatar que seu mergulho na alma humana carrega uma causticidade semelhante à de Dostoiévski.

Contos ingleses reúne 35 textos. Os medalhões estão bem representados: Sir Walter Scott, W. M. Thackeray, Charles Dickens, Thomas Hardy, Henry James, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Bernard Shaw (tradução do próprio Rubem Braga), James Joyce, Virginia Woolf. Mas antes de se render a eles caia novamente nas graças dos nomes menos evidentes e sinta a sensação de desejar encontrar rapidamente seus livros em livrarias e sebos: Anthony Trollope, Arthur Morrison, T. F Powys e John Lepper. São ótimos.

Talvez não houvesse, como nos diz Orígenes Lessa na apresentação, outro país onde a produção de contos fosse tão grande como nos Estados Unidos dos anos de 1940. Pelas páginas dos jornais e revistas o gênero floresceu e se estabeleceu como vocação americana por excelência. Em Contos Norte-Americanos me surpreendo mais uma vez com a versatilidade de escritores como Washington Irving, Edgard Allan Pope, Mark Twain, Herman Melville, Edith Wharton, John dos Passos, Bret Harte, Ambrose Bierce, James Thurber, Michael Gold, Stephen Vincent Benet, Oliver La Farge, Kay Boyle, Erskine Caldwell, James T. Farrel, William Saroyan (Hemingway ficou de fora por conta de problemas de direitos autorais).

As diferenças técnicas dos contos variam amplamente na comparação entre a ficção feita nos três países. Aníbal Machado, no prefácio do livro dedicado aos russos, identifica os contornos mais salientes de cada uma dessas literaturas. As histórias inglesas estão imbuídas de poesia feérica; a novela americana, do dinamismo da reportagem; os contos russos são marcados pela pintura de costumes e uma estranha galeria de tipos envolta numa sensação lírica da vida que reúne o “grotesco, o triste e o trágico”.

Mas há dois temas recorrentes e interligados em várias narrativas das três obras: a guerra e a morte. É sintomático o fato de a maioria dos autores ter visto de perto ou crescido em meio aos turbilhões de combates sangrentos, da Guerra de Secessão (1861 a 1865) à Revolução Russa (1917) seguindo pelas duas guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945).

Justamente em épocas de reforma, inquietação e transição, observa o crítico Morton Dauwen Zabel no ensaio A arte da ficção nos Estados Unidos, é que o escritor imaginativo encontra maior estímulo criador. Mesmo que o impulso carregue no trágico. Não foi o crítico e historiador Tzvetan Todorov a notar que qualquer que seja o grupamento humano escolhido, sua existência é sempre regida, não só pela vontade de poder, mas pelos inevitáveis conflitos?

O panorama exposto abertamente pelos textos que tratam de guerra ou mortes chega a aplicar cores sombrias ao conjunto da obra. Nada que perturbe, se soubermos de antemão as condições históricas e sociais que motivaram o espírito imaginativo. Chega a ser incômodo lembrar que a velha senhora que nos priva de continuar saboreando antologias como essa não só levou todos os escritores selecionados como os coordenadores da obra. Podemos, porém, nos confortar assumindo, como o editor e escritor americano Thomas Balley Aldrich, a visão de “o que é belo não morre: transforma-se em outra beleza”.

2 Comments so far

  1. eduardo Julho 23rd, 2007 4:48 pm

    é verdade, aparte o prazer de ler algumas boas obras curtas dos medalhões, o prazer da descoberta de um novo escritor, facilitado por edições de contos, é um dos grandes prazeres que um bom leitor pode ter. Borges conta que certa vez foi parado na rua por um leitor que lhe agradeceu efusivamente por lhe ter sido apresentada a obra de Stevenson, uma felicidade, nas palavras do mais arguto elogiador portenho. Assim que a edição de contos fantásticos do século XIX, organizada por Calvino, é pródiga nesse aspecto, em meio aos James, Hawthornes e Maupassants tens lá Potocki, Hoffman, Eichenbach…e a arqueologia de sebos fica sempre mais interessante.

  2. Emerson Julho 24th, 2007 6:32 am

    E a foto de Viena?

Leave a reply