Archive for Julho, 2007

Uma má e uma excelente notícia

Garschagen atravessa o Atlântico, impávido colosso.

A má é que não postarei nada hoje. Preciso viajar para cuidar de algumas burocracias chatas como são todas as burocracias. O fato é que cuidar dessas burocracias só não está me chateando mais por um motivo muitíssimo especial, e aí é que trago excelente notícia. Fui aprovado no mestrado em ciências políticas da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde começo a estudar no fim de setembro.

Realizo um sonho de anos. E todos sabemos o valor da realização de um sonho e da felicidade inicial pela simples projeção dessa realização. Volto amanhã, lépido, fagueiro e afiado.

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É, Garschagen, uma hora vem a morte e nos dá um xeque-mate.

Ingmar Bergman não precisava fazer nada além de O sétimo selo para estar na galeria de gênios. Vai em paz, meu velho.

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Ingmar Bergman não precisava fazer nada além de O sétimo selo para estar na galeria de gênios. Vai em paz, meu velho.

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Ingmar Bergman não precisava fazer nada além de O sétimo selo para estar na galeria de gênios. Vai em paz, meu velho.

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Ingmar Bergman não precisava fazer nada além de O sétimo selo para estar na galeria de gênios. Vai em paz, meu velho.

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Ingmar Bergman não precisava fazer nada além de O sétimo selo para estar na galeria de gênios. Vai em paz, meu velho.

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Da dificuldade de ser cão na literatura

Tá olhando o quê, Garschagen? Me elogia aí, pô. Au! Au!

No Estadão:

Os best sellers agora latem e até relincham

Nos últimos dois anos, livros sobre animais de estimação, tanto em ficção como não-ficção, têm vendido como água

Dwight Garner

Quatro pernas bom, duas pernas ruim. Esse é um dos slogans retumbantes do romance Animal Farm (A Fazenda dos Animais ou A Revolução dos Bichos nas traduções brasileiras), de George Orwell, de 1945. Também parece, cada vez mais, o lema que pode ser colado à testa de executivos de editoras em Manhattan. Os livros sobre animais estão vendendo como água. Os best-sellers mais surpreendentes dos últimos dois anos - tanto em ficção como não-ficção - foram, de fato, sobre animais adoráveis. Um é o elegíaco Water for Elephants, de Sara Gruen, romance sobre um circo na época da Depressão e uma elefanta de nome Rosie. O outro é Marley & Me, memória em forma de sitcom de John Grogan sobre a vida com um labrador retriever maníaco. Os dois livros saíram não se sabe de onde. Juntos, ficaram quase cem semanas nas listas de best-sellers do NYT. E não ficaram sozinhos. O instrutivo Animals in Translation, de Temple Grandin, entrou na lista de best-sellers recentemente, assim como o livro de memórias de Jon Katz, Dog Days, e o manual de treinamento de macho alfa Cesar’s Way, de Cesar Millan. Dog Years, de Mark Doty, uma recordação dolorosa de um amor perdido e cães perdidos, quase chegou às listas. Doty é um poeta sério. Quando um livro com um ‘desses’ autores se aproxima das listas de best-sellers, há alguma coisa no ar.

As palavras que pareceriam selar esse momento de livro sobre animais - para mim, pelo menos - chegaram no início do mês, quando Cindy Spiegel, responsável pela editora Spiegel & Grau, explicou em The Times por que estava pagando mais de U$ 5 milhões a Sara Gruen por seus próximos dois livros. Spiegel não citou o talento literário de Gruen, que é bem modesto. Ela enfatizou apenas que Gruen, cujo novo livro será sobre macacos, ‘tem uma ligação rara com animais’.

O que torna esses livros sobre animais, alguns literariamente deploráveis, tão atraentes para tantas pessoas? Por que estamos dispostos a desembolsar US$ 24,95 na Barnes & Noble local para ler sobre os bichinhos de estimação de um estranho? Talvez os leitores estejam à procura de um descanso das histórias angustiantes que vêm sendo empurradas em best-sellers recentes. Ishmael Beah, em A Long Way Gone (Muito Longe de Casa), fixa-se em ondas de assassinatos provocadas por drogas. Christopher Hitchens, em God Is not Great, espeta alfinetes em crentes de todos os matizes. On Chesil Beach (Na Praia), de Ian McEwan, explora a disfunção sexual humilhante. E Nora Ephron ainda está zangada com o seu pescoço. Para não falar do sortimento usual de romances de gênero sobre assassinos e terroristas e infidelidade e vida (sério?) em Hollywood.

Katz, um escritor do norte do Estado de Nova York, que publicou seis livros de não-ficção cada vez mais populares sobre cães desde 2001, acha que sabe exatamente o que está ocorrendo. ‘Os americanos tornaram-se existencialmente solitários’, diz ele. ‘Estamos desligados da natureza e das partes animais de nós mesmos. Estamos vivendo em cidades e estamos em geral frustrados com nosso trabalho e insatisfeitos com política, tecnologia e religião, tudo isso que não conseguiu nos elevar como prometia. Então, estamos voltando aos animais em busca de companheirismo, amor e apoio emocional.’

As histórias sobre animais sempre estiverem entre nós. Alguns críticos apontam o romance Black Beauty (Beleza Negra, 1877), de Anna Sewell, uma narrativa autobiográfica relacionada a um cavalo bem criado, o primeiro ‘verdadeiro’ romance de animal. Mas Esopo empregou todo um curral em suas fábulas morais; os antigos gregos e egípcios os alinhavam em suas díspares mitologias; e a Bíblia não estaria em lugar nenhum em termos de sabor narrativo sem cordeiros, serpentes, jumentos e porcos.

Escrever sobre - ou da perspectiva de - animais deu a romancistas sérios uma oportunidade para embutir mensagens políticas e outras de forma palatável em suas narrativas. Essa mensagem, como em A Revolução dos Bichos , é simplesmente que os seres humanos são os verdadeiros animais. (A novela de Orwell também visou, é claro, ao totalitarismo soviético.) Em Life of Pi de Yann Martel, que lhe valeu o prêmio Booker, um rapaz de 16 anos e um tigre de Bengala literalmente partilham o mesmo barco. (Moral? ‘Estamos todos juntos nisso.’) Na história de The Bear (O Urso), de William Faulkner, nos falam soturnamente sobre ‘aquela selva fatídica cujas bordas estavam sendo constantemente e doentiamente roídas pelos homens’. Aí aparece Cormac McCarthy. Num livro intitulado Animals in the Fiction of Cormac McCarthy (2006), um crítico chamado Wallis R. Sanborn III argumenta que na obra de McCarthy aparecem porcos com tanta freqüência antes de uma morte humana, que eles podem estar pactuados com o Diabo. Ou então McCarthy pode simplesmente gostar muito de bacon.

Muitos livros sobre animais são incômodos. Aí estão Jonathan Livingston Seagull (Fernão Capelo Gaivota, 1970) de Richard Bach, por exemplo, e Watership Down (1972), de Richard Adams, um livro que, como observou um crítico da National Review, ‘tem quase a mesma pegada intelectual que ‘Dumbo’. ‘ Em outros casos, grandes escritores escreveram livros não tão grandes sobre seus bichinhos de estimação. Aproxime-se, John Steinbeck. Em Travel with Charlie (Viagens com Charlie, edição portuguesa), você teve realmente de ganhar a estrada com um poodle?

Elizabeth Marshall Thomas, autora de The Hidden Life of Dogs (A Vida Oculta dos Cães) e outros livros sobre animais, diz que as pessoas têm compulsão a tentar escrever sobre bichos de estimação. ‘Você tem um sentimento tão forte para com eles’, diz ela, ‘que dá um verdadeiro prazer ler sobre o que está se passando em suas cabeças e o que eles fazem instintivamente versus o que eles imaginam. Você pode falar com colegas donos de cães, imagino. Mas muitas pessoas que amam cães não os observam muito de perto ou pensam muito profundamente sobre eles.’

Mas também há, é claro, pessoas - e sou uma delas - que possuem e amam cães, mas não se interessam em ler histórias sobre eles. Exceto, talvez, as perversas, como Cujo, de Stephen King. Estamos esperando um cachorro literário que tenha a malícia amalucada do gato do cartunista B. Kliban, aquele que disse: ‘Adoro comer esses ratinhos. Ratinhos que eu adoro comer. Arrancar com os dentes suas cabecinhas. Mordiscar seus minúsculos pezinhos’.

O livro de George Orwell é o mais invocado ao se falar de animais na literatura, mas o romance, como os de Faulkner e Steinbeck, é uma alegoria, então, nem deveria ser mencionado numa reportagem que trata de livros de sucesso que falam especificamente de animais e da relação dos homens com os bichanos.

Antes de fazer uma recomendação, um parêntese: a explicação do escritor Jon Katz, de que “os americanos tornaram-se existencialmente solitários” e que isso é ampliado pela frustração geral com o trabalho e a insatisfação com a política, tecnologia e religião, e que, por isso mesmo, os americanos está buscando “companheirismo, amor e apoio emocional”, me parece psicologia de boteco. Mas, claro, não moro no EUA, e posso estar errado e coisa ser assim mesmo. Mas fico confabulando com meus botões que essa gente que consome livros assim o fazem não por profundas questões psicológicas, mas como um consumo frívolo que cresce com a publicidade em torno de tais obras e a sempre impressionante e decisiva divulgação boca-a-boca. Essa gente compra livro de bichinho enquanto eu compro uísque. Consumo frívolo e necessário. Ponto.

Voltando à vaca fria, recomendo o divertido Da dificuldade de ser cão, do francês Roger Grenier. Escrevi uma resenha sobre em 2002 para o caderno Prosa & Verso, de O Globo:

Um olhar francês sobre os cães

Bruno Garschagen

Roger Grenier é um escritor com senso de humor aguçado. Difícil definir de forma mais apropriada um intelectual francês que escreve um elogio aberto aos cães. Da literatura à filosofia com incursões na psicanálise, Grenier pinça nas obras de grandes escritores e pensadores referências aos cachorros, dos fatos curiosos aos insólitos, no livro “Da dificuldade de ser cão”, o primeiro a ser traduzido no Brasil.

Dividindo por vezes o papel de protagonista com seu cão Ulisses, Grenier percorre as ruas de Paris narrando o comportamento do animal com as pessoas, e a reação delas com ele. Nesse ambiente bastante comum, o escritor abre o flanco para buscar os cães nas obras de Jean-Paul Sartre, Maurice Maeterlink, Rainer Maria Rilke, Lou Andreas-Salomé, Gertrude Stein, Virginia Woolf, Baudelaire, Flaubert, Emmanuel Kant, entre outros não menos coroados.

Investido na pele de intelectual-au-au, Grenier tempera as citações com um humor refinado. Parece escrever com uma caneta na mão e o bisturi na outra. “Ela estava com noventa e cinco anos. Que otimismo! Talvez ela estivesse certa, já que viveu até os cento e sete anos, alguns dizem que cento e dez. Restava-lhe, portanto, mais ou menos a duração de uma existência canina”, comenta, após receber o telefonema de uma senhora idosa que gostaria de comprar outro cão para substituir o que morreu.

Até quando escreve sério o escritor francês soa gozado. Talvez seja o tema incomum ou a forma como conseguiu reunir uma considerável quantidade de informações sobre o animal que carrega o estigma de ser o melhor amigo do homem — aliás, algo que depõe muito contra os bichinhos.

O estilo de Grenier, conselheiro literário da editora francesa Gallimard e autor de dezenas de livro de ficção e crítica literária, é elegante. São 43 textos curtos com títulos sugestivos, do tipo “O mundo dos cheiros” (sobre a importância do olfato na vida canina), “A namorada do cachorro de Goering” (sobre a fracassada tentativa do escritor em “casar” sua cadela Sarigue com um pastor que fizera parte dos cães do segundo homem do Terceiro Reich), “Misantropo” (sobre as opiniões de Schopenhauer, Baudelaire e Thomas Bernhard a respeito dos cães).

O escritor não faz friula em seus textos. Dirige seu foco de observação diretamente no inusitado ou lamentável, e às vezes deixa ao leitor a incumbência da ironia. Esse artifício da literatura impede que Grenier caia no ridículo se fosse pretender densidade num tema como esse. Em “Inimigos”, que trata do treinamento de cachorros para batalha, o escritor finaliza assim o texto: “Um decreto da Suprema Corte, em 1992, definiu cão perigoso como aquele que se joga espontaneamente sobre as pessoas para mordê-las”. Era preciso dizer mais?

O livro — lançado na França em 1998 e nos EUA em 2000, onde obteve críticas favoráveis — está cheio de toques de um humor sofisticado, mas está longe de ser uma obra-prima. Em “O passeio na rua du Bac”, hilária a história da mendiga que ia algumas vezes à editora Gallimard para dizer que lhe tinham roubado um manuscrito. Certa vez, pediu para falar com Gaston Gallimard, o falecido fundador da editora francesa. À resposta da morte pela funcionária, a mulher afirmou categoricamente que aquilo não era verdade. “Eu o vi no enterro de Jean-Paul Sartre (vivo na época)”.

Talvez o que Grenier mais goste seja expor o ridículo do comportamento humano com os cães. É assim, por exemplo, quando nos conta que um ministro da Cultura proibiu o cão do funcionário do cemitério de Sète de indicar aos turistas a posição de túmulos de personalidade francesas. Quando algum turista visitava o lugar em busca do túmulo de Paul Valéry, o funcionário municipal acordava seu animal e berrava: “Valéry”, ao que o cão não vacilava ao levar o visitante ao túmulo do poeta. Nada mais poético.

Há textos em que o autor francês sugere como os cães serviram de inspiração a escritores diversos. Rainer Maria Rilke escreveu o poema “O Cão” e voltou ao tema em “Os cadernos de Malte Laurids Brigge” e no curto “Um encontro”; Gertrude Stein enumerou os cachorros e os maridos da protagonista de seu romance “Ida”; Chesterton faz o cão de “O albergue voador” sentir piedade do pouco olfato dos humanos; Virginia Woolf, em seu autobiográfico “Flush”, coloca o cocker spaniel que dá nome ao livro como a personagem principal da obra; Scott Fitzgerald alçou um cão ao papel de herói na novela “A manhã de Shaggy”.

“Da dificuldade de ser cão” desfaz qualquer argumento contrário ao fato do animal ter uma importância até então ignorada na literatura mundial. E se o próprio Grenier confessa que os franceses se dirigem a seus animais como se pessoas fossem, então tratou de relegá-las a segundo plano, mirando os holofotes sobre os cães, construindo uma sátira incursão ao universo canino pela história do pensamento e das artes mundiais.

Pinceladas
Roger Grenier é autor de dezenas de livros de ficção e crítica literária. Publicou novelas, estórias curtas e ensaios literários. Durante décadas tem se mantido como a figura central da literatura francesa. Recebeu inúmeros prêmios, incluindo O Grande Prêmio de Literatura da Academia Francesa pelo conjunto da obra. Além de escritor, Grenier é editor e conselheiro literário da editora Gallimard em Paris.

Livros do autor
Avant une guerre (1971), Ciné roman (1972), Le Palais d’Hiver (1973), Un air de famille (1979), Les Embuscades (1980), La Follia (1980), La fiancée de Fragonard (1982), Le silence (1984), Il te faudra quitter Florence (1985), Le Pierrot noir (1986), Albert Camus, soleil et ombre : une biographie intellectuelle (1987), La mare d’Auteuil (1988), Pascal Pia, ou, Le droit au néant (1989), Partita (1991), Regardez la neige qui tombe: impressions de Tchâekhov (1992), Iscan (1992), La marche turque (1993), Trois heures du matin, Scott Fitzgerald (1995), Quelqu’un de ce temps-là (1997), Les larmes d’Ulysse (1998), Le veilleur (2000), Fidèle au poste (2001).

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De museus e iPods

Toc! Toc! Toc! Tem alguém aí?

Gosto de museu. Mas não consigo passar muito tempo olhando tudo. Começo a ficar tonto com tanta informação. Prefiro freqüentá-lo de forma moderada, cada dia visitando uma das salas, um pavimento, e por aí vai. Por isso, gostei tanto do artigo de Nelson Ascher, hoje na Folha (assinante), em que ele também celebra o iPod como símbolo da civilidade, o que sempre defendi:

Visita ao museu

NELSON ASCHER

UMA DAS vantagens de não ser crítico ou historiador de arte é poder retornar inocentemente, por puro prazer, a museus como o Metropolitan de Nova York. O não-especialista pode, ao contrário do profissional, ir direto a uma tela favorita de Van Eyck, visitar em seguida o pátio espanhol ou o templo egípcio, deter-se diante de vitrais medievais, admirar armamentos renascentistas e assim por diante, sem ter que dar satisfação a ninguém, nem à sua consciência. Ou seja, para um leigo como eu, museus são antes um espaço de liberdade e prazer.

É claro que, quanto mais se saiba a respeito das obras a serem vistas, mais intenso e concentrado é o prazer que elas nos oferecem. É por isso que, depois de visitar longamente alguma instituição assim, eu novamente prometo pôr em dia minha leitura acerca, digamos, do maneirismo ou do impressionismo e juro que, tão logo volte para casa, vou também terminar os livros do Gombrich, do Panofsky, ou mergulhar na biografia do Goya publicada recentemente pelo Robert Hughes.

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O embate estéril entre mídia tradicional e blogues

Na Folha (assinante):

Ataque à blogosfera

“Anticristo” entre os blogueiros, historiador britânico Andrew Keen diz em livro que a internet está matando a cultura e critica sites como YouTube e Wikipedia

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DA REPORTAGEM LOCAL

George Orwell não entendeu o futuro. Em seu clássico “1984″, o escritor temia pelo desaparecimento do direito à expressão individual, mas, no atual mundo da internet, o verdadeiro horror é justamente o oposto: a abundância de autores e de opiniões.

O raciocínio é do historiador britânico Andrew Keen, 46, ex-professor das universidades de Massachusetts e Berkeley (EUA) e um dos pioneiros do Vale do Silício, que na primeira onda da internet fundou o site de música Audiocafe.com.

Keen tornou-se um dos líderes da crítica à internet graças a seu livro “The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture” (o culto ao amador: como a internet de hoje está matando nossa cultura), recém-lançado no exterior e ainda sem edição no Brasil.
Sua cruzada não é contra a tecnologia em si, mas contra a revolução da segunda geração da internet, a web 2.0, baseada na interatividade e no conteúdo gerado pelos usuários, cujos marcos são os blogs e sites como o YouTube e a Wikipedia -que, segundo Keen, estão gerando “menos cultura, menos notícias confiáveis e um caos de informações inúteis”.

Graças ao livro, Keen tornou-se uma espécie de anticristo entre os blogueiros, sendo chamado desde “prostituta das grandes corporações” até “um mastodonte rosnando contra os ventos da mudança”.

Entendo a raiva gerada pelas opiniões do historiador britânico Andrew Keen. Quando se recebe uma crítica é difícil analisar seu foco, amplitude e limitações. Alguém discorda de que a liberdade na internet tenha gerado “menos notícias confiáveis e um caos de informações inúteis”? No caso de “menos cultura” seria preciso saber qual definição de cultura Keen usou para elabora a afirmação. Mas, qualquer que seja o conceito, a afirmativa é falsa. A internet gerou mais cultura em todos os sentidos, do pior ao melhor. Porque agora temos muitos, mas muitos de sites com informações confiáveis sobre alta cultura. E uma infinidade dos dedicados à baixa cultura. Basta saber onde navegar. Ao contrário do verso de Pessoa, navegar na internet está longe de ser algo preciso. O mar é sempre revolto e quer levar para lados que não o do roteiro pré-estabelecido. É preciso ter cuidado e seguir a bússola con afinco.

Em entrevista à Folha, David Weinberger, professor de Harvard e o adversário intelectual de Keen na imprensa americana, diz, e eu concordo, que “o fato de a informação estar se mudando para a internet é bom, porque a torna mais acessível e utilizável. Podemos encontrar relações entre idéias de modo muito mais fácil”. Mas, repito: é preciso saber onde navegar.

Há uma frase de Keen na entrevista que também pode deixar babando de raiva o chamado blogueiro médio: “a mídia tradicional fornece informação de qualidade acessível às massas e não acho que a segunda geração da web esteja reproduzindo isso”. De fato, há uma ocorrência bastante comum de quem mexe com internet de desconsiderar ou lançar vitupérios contra a mídia tradicional. Bobagem. Precisamos da mídia tradicional, que produz informação mais ou menos confiável.

O que o historiador está desconsiderando de forma ingênua é que mais e mais profissionais competentes e confiáveis estão passando a escrever só para a internet. Nos Estados Unidos isso já é quase comum e aqui no Brasil a coisa engatinha, mas com exemplos notáveis como o de Reinaldo Azevedo na área da análise, e, por que não, de Claudio Humberto na área noticiosa.

É natural que ainda haja muita discussão e seja dita muita bobagem sobre o assunto. A tolice é querer promover um embate estéril entre a mídia tradicional e a, digamos, nova mídia. O ideal é discutir como integrá-las da melhor maneira.

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Em defesa de Macbeth

Garschagen, ainda bem que você me elogiou. Mas, da próxima vez, vê se exagera, ok?

Fui crítico de teatro da Gazeta Mercantil durante quase um ano aqui no Rio. A única coisa boa foi ter conhecido pessoalmente Barbara Heliodora, de quem fiz um perfil.

Eu escolhia as peças que ia assistir, e inicialmente achei que isso me livraria das porcarias. Nada disso. Muita porcaria, muito ator ruim, muita montagem com pompas e nenhuma circunstância, muita direção equivocada ou deplorável, enfim, muito de nada que valha a pena, incluindo as montagens de clássicos, como Shakespeare. Leia a crítica que fiz para a Gazeta Mercantil em 2005 e volto logo depois:

“A tempestade” não passa de garoa

Do figurino à direção, quase nada se salva no Shakespeare do Núcleo Carioca de Teatro

Bruno Garschagen
do Rio

A frase que encerra o poema “Em memória de W. B. Yeats”, de W. H. Auden, pode ser usada como epígrafe de muitas montagens de textos fundamentais do teatro ocidental: “As palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos”. O que se faz com as peças de William Shakespeare (1564-1616) palco afora, inclusive na Inglaterra, deixaria o bardo de barba em pé. Embora, em alguns casos, mantenham o texto, alguns diretores fazem adaptações que assustam e fazem o espectador exigente jogar a toalha. Ou torcer o nariz, como é o caso da montagem de “A tempestade” pelo Núcleo Carioca de Teatro, em cartaz desde o dia 13 de agosto.

História de vingança, amor, instintos, desejos, liberdade e lealdade, “A tempestade” foi a última peça escrita pelo autor de “Hamlet”. No espetáculo em cartaz no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, o ator Henrique Pagnoncellis encarna um Próspero, o duque de Milão versado nas ciências mágicas, estranhamente feliz com os infortúnios e curiosamente cristão ao perdoar seus traidores — percepção bastante comum e igualmente equivocada. Shakespeare não injetou ódio em Próspero, mas um rancor cínico e diplomático. A vingança desejada não ia além de assustar os traidores e provar sua honestidade a Alonso, rei de Nápoles (Chico Figueiredo). Henrique Pagnoncellis mantém um semblante sereno quase do início ao fim do espetáculo, indiferente às nuances da personagem. Talvez manter Próspero sob efeito de algum anestésico tenha sido a primeira das infelizes escolhas do diretor Luiz Arthur Nunes ao longo da peça.

A movimentação no palco só melhora a partir da metade da peça, quando entram em cena o velho e honesto conselheiro Gonzalo (Arnaldo Marques), o escravo selvagem Caliban/rei Alonso (Chico Figueiredo), Sebastião irmão do rei/o palhaço Trínculo (Nilvan Santos) e o Antônio, irmão de Próspero/Estéfano, o despenseiro bêbado (Ivo Fernandes). Os atores estão afinados, embora tentem forçar um pouco o riso. Ivo Fernandes e Nilvan Santos se sobressaem. Chico Figueiredo é expressivo, olhos arregalados, despejando um sofrimento louco na pele de Caliban, além de ser a cara do Nicolas Cage. Mas mantém o mesmo olhar de Caliban quando incorpora o rei Alonso. Parece o mesmo personagem com roupas diferentes.

A jovem atriz Ludmila Breitman tem um olhar enigmático, mas precisa aprender a dominá-lo. Falta-lhe domínio dos gestos e da voz. No papel de Miranda, filha de Próspero, exagera no drama quando o pai começa a contar sua origem. Um chororô só. Nem parece que está ouvindo o que tanto pediu ao pai: saber a própria história. Nas 32 falas do Ato II do texto não há nenhuma passagem tão dramática que exija lágrimas, como fez a atriz.

Tato Consorti, como Ferdinando, filho do rei de Nápoles, devia ser apresentado à sua personagem. É igualmente inexpressivo e imaturo na interpretação. Se sairia bem no programa “Malhação”. Para enfrentar Shakespeare, deve comer mais tutu com cebolinha.

Ariel, interpretada por Maria Esmeralda Forte, parece uma chinesa lutadora de Kung Fu. Tanto na maquiagem, impostação de voz e expressão corporal (com braços cortando o ar como golpes de artes marciais), está longe do espírito do ar imaginado pelo escritor inglês. O figurino dela acompanha o assombroso guarda-roupa criado pelo ator Chico Figueiredo. Não espanta que as vestes do rei de Nápoles, do seu irmão Sebastião, de Antônio e de Gonzalo sejam sobretudos e chapéus no melhor estilo Humphrey Bogart…

O cenário de Lídia Kosovski foi montado com plástico transparente. Uma grande cortina ondulada pretende simular o mar em cujas águas os inimigos de Próspero navegam e são tragados. A caverna onde mora o duque de Milão com a filha Miranda é feita de plástico liso suspenso por garrafões de vidro preenchidos com areia. Uma estrutura de madeira é envelhecida com espuma. Todo esse conjunto faz a ilha parecer um acampamento de trabalhadores rurais sem terra.

As, digamos, excentricidades da montagem também resvalam na trilha sonora. Músicas de câmara alternam com “Dream a little dream of me”, versão The Mamas & the Papas. Aliar essas duas músicas soou como nota dissonante; o espetáculo não se define; nem o clássico, nem uma leitura própria do diretor; um meio-termo que, obviamente, resultou numa montagem insípida, inodora e incolor.

“A tempestade” é uma das oito tragédias escritas por Shakespeare. Está na mesma vitrine das famosas “Romeu e Julieta”, “Júlio César”, “Antônio e Cleópatra”, “Hamlet”, “Otelo”, “Rei Lear” e “Macbeth”. São peças que mergulham na natureza humana e se banham nas imperfeições do homem. Se as palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos, como observou Auden, a obra do bardo inglês foi transformada no laxante do teatro moderno.

Leio n’O Globo de hoje que Macbeth ganha nova montagem no Rio com o ator Bruce Gomlevsky, que parece ter feito u sucesso danado atuando como Renato Russo em peça pop. Não conheço o ator. Mas tremo, pela experiência como crítico, quando leio que se está produzindo algo de Shakespeare. O natural seria ficar feliz, não? Pois é, mas não fico. Sempre acho que o trabalho de Shakespeare será, mais uma vez, vilipendiado em praça pública.

Macbeth é um de meus livros preferidos do escritor inglês. A adaptação feita para o cinema por Orson Welles faz parte da minha cinemateca básica. E é por isso mesmo que chego a sentir terremotos no plexo solar ao imaginar mais uma bobagem em cima do texto. O que fazer? Reler o livro e deixar a notícia da peça de lado.

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