Homenagem a Tolentino
A missa de sétimo dia pela morte do poeta Bruno Tolentino será na próxima quarta-feira, dia 4, às 11h30, no Mosteiro de São Bento, aqui no Rio. Eu estarei lá.
Falando no Bruno, na quinta-feira, Reinaldo Azevedo escreveu mais um texto sobre o poeta:
Bruno, até breve!
Hoje, aquele que era o nosso maior poeta, Bruno Tolentino, foi enterrado. Ficou sua obra gigantesca. É uma perda que será maior a cada dia: para a poesia, para o pensamento, para mim, que o amava tanto. Não consegui ir ao hospital, ao velório, à missa. E estou hoje um pouco pior do que ontem. Tenho aqui ao meu lado A Imitação do Amanhecer, que li, a eito, soneto após soneto, e que abro, aleatoriamente, como quem telefona para um amigo para falar sobre quase nada, em busca de algum conforto, de alguma indignação, da partilha de algum bem.
Reproduzo abaixo o último soneto do livro — III-165. Leiam em silêncio, algumas vezes, para criar intimidade com as palavras. Depois façam uma leitura em voz alta, obedecendo às pausas mínimas ao fim de cada verso. Depois repitam a operação, mas aí obedecendo ao ritmo da sintaxe. E então percebam a sobreposição de melodias: uma música que se faz gratuita, quase alheia ao sentido, e outra, rigorosa, racional, na medida.
Música e composição. “Ut pictura poesis”, recomendava o poeta latino Horácio: a poesia como pintura. Isso significa aderir ao rigor da composição: a escolha do vocábulo certo, cujo sentido vai-se desdobrando verso após verso, com o pincel fazendo a opção certa da cor, do volume, do detalhe, do gesto. As rimas e as assonâncias revelam o sentido numa forma em que nada é gratuito.
O que foi que perdemos nesses anos, com certo prosaísmo distraído, infantil, confessional? Perdemos a experiência da poesia como uma construção, um labor. Não a gratuidade da forma, mas a sua intencionalidade, esta que se percebe em Bruno Tolentino. O que é que havíamos perdido na era da ditadura concretista? A noção de que fazer versos é mais do que distribuir no espaço alguns truques espertos. Ut pictura poesis, mas sempre sabendo que a linguagem do verso é o verbo.
Vai lá, Bruno! Na lógica do tempo, até breve!
III-165
Ó Via Láctea, ó luminosa irmã — segundo
Apollinaire — dos fios brancos da água vã,
a água furtiva que visita o chão do mundo
e vai-se evaporando também, ó minha irmã
mais ancestral, mais nebulosa, ó vaga lã
dos vãos novelos em que eu ando, um moribundo
no intemporal, sinal apenas de que o fundo
de tudo e de mim mesmo é a solidão pagã
da alma febril que se evapora e historiciza,
ó ampliação de Alexandria, ó via branca
e tenebrosa, é tudo a rosa que se arranca,
pétala a pétala, às profanações da cinza,
ó Via Láctea, ó minha irmã que pões a tranca
da imensidão no coração do que agoniza…
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