Diogo Mainardi: colunista de sucesso encobre escritor notável

Esqueça, enquanto durar este texto, o Diogo Mainardi colunista da revista Veja. Esta resenha vai tratar somente do escritor, que submergiu ante as vigas pesadas do celebrado e vilipendiado jornalista. Se o trabalho como colunista foi ótimo para Mainardi, soterrou seu trabalho como escritor.

Não foi à toa seu anúncio público de que não mais escreveria ficção. É lamentável que seja assim, pois seus quatro livros, agora reeditados pela editora Record (pertenciam à Cia. das Letras), mostram um escritor não só brilhante, como um dos raros único no Brasil a conjugar de forma notável o melhor do romance satírico inglês, francês, italiano e espanhol. Perdemos o desenvolvimento do ficcionista, ficamos com as obras já escritas. Não é pouco, mas podia ser mais.

Na novela “Malthus” e nos romances “Arquipélago”, “Polígono das secas” e “Contra o Brasil”, Mainardi trabalhou suas referências brasileiras (Machado de Assis, Lima Barreto, Ivan Lessa) com suas dedicadas leituras dos ingleses (Jonathan Swift, Laurence Sterne, John Milton, Evelyn Waugh), dos franceses (François Rabelais, Denis Diderot, Voltaire, Louis-Ferdinand Céline), de espanhóis (Miguel de Cervantes) e italianos (Ítalo Calvino). E alguns de seus personagens trazem uma afetação deliciosa cujo eco pode estar nos personagens vitorianos de P.G. Wodehouse.

O espirituoso e ácido humor inglês, o realismo crítico francês, a metanarração italiana, elementos do picaresco espanhol, eis os elementos de sua prosa. E aqui falo do romance picaresco do século XVII, quando a astúcia substituiu a ingenuidade, as peripécias ganharam mais imaginação e o grotesco passou a dominar o realismo das caricaturas.

São obras exemplares desse período “Gil Blas” (1715-1735), do francês Alain René Lesage, “Unfortunate Traveller” (1594), do inglês Thomas Nashe, “Moll Flanders” (1722), do compatriota Daniel Defoe; “Tom Jones” (1749), do também inglês Henry Fielding, além de “Novelas exemplares” e “Dom Quixote”, ambas do espanhol Cervantes.

Os quatro livros de Mainardi formam uma espécie de epopéia heróico-cômica minimalista, na qual os personagens atuam por meio da palavra, e não da ação, como bem notou o jornalista Mario Sabino na orelha de “Malthus”. Não há sobras no texto, como em Machado de Assis. Tudo está onde deve estar. Se o estilo é o homem, como queria Buffon, Mainardi é o homem, com estilo.

Para a coluna de Veja, o escritor e jornalista levou a brutalidade substantiva de sua ficção. O ridículo, a pobreza intelectual do senso comum, o grotesco e as contradições do ser humano, homem médio ou intelectual de grife, os vários níveis de precariedade do país, tudo é esmiuçado com delicadeza tiranossáurica. É sempre a mesma absurda posição diante dos acontecimentos: fala-se algo, faz-se o oposto. O que faz Mainardi? Uma elegante e sempre aprumada tijolada.

O deboche, a sátira e a violência literária carregam a maravilhosa influência de um dos mais burlescos, ciclotímicos e bem-humorados escritores brasileiros, Ivan Lessa que, para nosso azar, pouco publica em livro. O que existe pode ser garimpado em edições do Pasquim e da revista Status, além, claro, da pequena seleção feita por Mainardi em “Garotos da fuzarca”. As seleções “Ivan vê o mundo” e “O luar e a rainha” são de textos para a BBC, o que não invalida, mas nada tem a ver com a contundência explosiva e literária dos textos reunidos no primeiro livro.

Na novela “Malthus”, a escrita ligeira e atordoante, com seus personagens vertiginosos, traz a marca de Ivan Lessa. Nos romances, Mainardi diluiu suas influências, se assim posso chamar, para forjar um texto irascível, cômico e empolgante, que faz do ridículo humano uma razão para o deboche.

Há um trecho sintomático da crueldade cômica de sua prosa num trecho de “Polígono das secas”, quando ao se ver sozinho e preso numa caverna com o filho morto o pai passa a fazer da boca do cadáver uma cesta para acertar as pedrinhas que encontra no chão. Simples passatempo que dialoga com as brutalidades reais do cotidiano sertanejo e urbano.

Numa das cenas de “Arquipélago”, os náufragos à deriva, um deles perde o braço com a queda do mastro da embarcação improvisada. Sem rumo nem prumo, tudo vale como bússola. Então, eis que o braço esticado e amputado, apontando para o nada, serve de guia. Como diria meu xará, Giordano Bruno, se non è vero è ben trovato!

Em “Contra o Brasil”, há uma cena antológica: o protagonista Pimenta Bueno, aleijado pelo ataque dos mendigos instalados no prédio do antigo cinema que lhe cabe no espólio paterno e carregado nos ombros pelo fiel escudeiro Azor, como no dorso de um jegue, limita-se a professar: “Pocotó, pocotó, pocotó”. A onomatopéia, por vezes, vale por mil palavras.

O humor de Mainardi oscila entre o comedido e galhofeiro, e provoca frêmitos e inevitáveis gargalhadas. Descrições, digressões. Eu até deveria fazer os resumos dos livros citados, mas deixarei em você, leitor, o despertar da curiosidade pelas quatro obras.

Mainardi é acusado freqüentemente como intelectual de ser antibrasileiro. É um equívoco, fruto de má leitura: qualquer sujeito minimamente alfabetizado vai perceber que seus textos são tão antibrasileiros quanto anti-italianos, anti-franceses, antiamericanos. O sumo de suas críticas é o ser humano, que se repete em suas idiossincrasias, tolices e estupidez em qualquer parte do sistema solar. É lapidar a observação de Otto Lara Resende, que, ao voltar de Bruxelas, cunhou essa pérola: “a Europa é uma burrice aparelhada de museus”.

Sei que pelo menos metade dos leitores que chegou até aqui neste texto odeia e a outra metade adora Diogo Mainardi. É do jogo. Numa entrevista em 1998, para o então colunista da Folha Marcelo Rubens Paiva, o escritor disse que o que mais o incomodava era a imagem de polemista. “O fato de minha figura provocar polêmica só me atrapalha. Eu sou irrelevante ao lado de minha obra. Vejo a sátira como uma disciplina que não poupa nada, ninguém. Fico sem aliados”.

Com ou sem aliados, Mainardi segue. É preciso torcer e pressioná-lo de forma grave para que ele mude de idéia e volte a escrever ficção. Na há dúvidas de que é um dos mais inventivos e talentosos romancistas vivos. Prescindir dele é prova de burrice monumental. Rabelais já vaticinou: “A ignorância é a mãe de todos os males”.

PS: Esta resenha foi escrita e publicada no caderno Idéias, do ex-JB, em julho do ano passado, quando os livros foram relançados. O título não é o que pus aqui, pois não lembro o que pus lá

6 Comments so far

  1. Carla Cristina Junho 30th, 2007 3:41 pm

    Ei, Bruno

    Parabéns pelos belos escritos e juízos!

    Carla

  2. Bruno Garschagen Julho 1st, 2007 8:49 am

    Olá, Carla, tudo bem? Obrigado pela visita e comentário, viu? Apareça sempre!

  3. Na Prática Julho 2nd, 2007 7:54 am

    Li o Contra o Brasil e não achei tão bom,não. Em primeiro lugar, porque não me agradam muito os personagens-conceito como o Pimenta Bueno. Se o cara quer mexer com conceitos puros, que escreva um ensaio. Há alguns bons momentos, mas, a partir de certo ponto, começa a ficar repetitivo. Li as primeiras dezenas de páginas com interesse e as últimas só com a esperança de que, em algum momento, o livro retomasse o ritmo, mas me decepcionei. Me lembro de algumas citações engraçadas, da esculhambada nos Nambiquaras (longa demais, discordo que não sobre nada no livro, sobram umas trinta páginas), mas não me ficou a impressão de grande livro, não. Não é propriamente ruim, como livro de juventude é até bom, mas não me deu muita vontade de ler os outros. Talvez dê mais uma chance ao cara depois do seu post.

  4. Bruno Garschagen Julho 2nd, 2007 8:48 am

    Leia os outros, rapaz, recomendo vivamente! Polígono das secas talvez seja o melhor, mas há uma infinidade de imagens, se é que posso dizer assim, em Arquipélago que ficaram gravadas em minhas retinas. Insista, insista.

  5. Na Prática Julho 3rd, 2007 7:48 am

    Tá certo. Vou tentar ler o Polígono das Secas. Mas se for ruim eu venho aqui reclamar.

  6. Bruno Garschagen Julho 3rd, 2007 9:44 am

    Eheheh. Pode vir. Daí a gente debate.

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