Perda irreparável e solidão desoladora

Avancei parte da madrugada relendo poemas de Bruno Tolentino e com uma sensação de perda irreparável, uma solidão desoladora que ruge no pé do ouvido porque se foi um autor cuja obra parece ter sido feita especialmente para mim, e que é grande porque, embora feita especialmente para mim, foi feita especialmente para os meus, conhecidos ou desconhecidos, que estão na mesma trincheira pela excelência, seja intelectual, prazerosa ou amorosa.

É curioso, às vezes, me sentir num gueto, no gueto de pessoas que tem uma relação extraordinária de intimidade com a palavra, e aqui falo somente do desafio e prazer da leitura. Pois o gueto dá a entender uma limitação de espaço, o que parece não existir com o homem médio que conheço, e que você que me lê também conhece. E o homem médio parece ter horizontes mais amplos, porque, a priori, está aberto a tudo, livre das exigências fundamentais para uma existência digna e civilizada.

Mas, repare só, ao conversar com o homem médio vejo que tudo o que ele diz e espera da vida não me interessa, mas eu conheço. Quando eu digo, há uma quebra na comunicação, pois ele não faz idéia do que falo ou ambiciono, e sei que você deve passar por isso também. Comentei com algumas dessas pessoas das duas perdas irreparáveis que tive num intervalo de dois dias. Sobre meu amigo Marco, que morreu na segunda-feira, todos entenderam. Sobre o poeta, que nunca ouviram falar, em silêncio e com olhos reprovadores, acharam uma grandissíssima bobagem. Eu os entendo e os perdôo. A recíproca nunca é verdadeira.

4 Comments so far

  1. Matias Ayres Junho 28th, 2007 10:43 am

    Caro Bruno,

    Quando morreu David Mourão-Ferreira (poeta, ficcionista, ensaísta e professor catedrático português) alguns disseram que melhor seria ter ardido a Biblioteca Nacional.

    Abraço,
    Matias

  2. Bruno Garschagen Junho 28th, 2007 10:45 am

    Caro, é uma bela imagem a consagrar a importância de um escritor. Estou te devendo um e-mail. Hoje ainda respondo, ok? Abração.

  3. Priscila Junho 28th, 2007 1:01 pm

    A obra do Tolentino também sempre me pareceu ter sido escrita para mim.
    E o seu texto acima expressa perfeitamente como (também) me senti, desde que soube da sua morte.
    Fiquei tão desolada que até eu mesma estou fazendo força pra melhorar.

  4. Bruno Garschagen Junho 28th, 2007 2:43 pm

    Cara Priscila, bom saber que compartilha essa sensação de exclusividade que só os grandes nos concedem. Força aí. Um abraço.

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