Como os jornais trataram Tolentino?
Reproduzo os obituários publicados em O Globo e na Folha (não tenho acesso ao Estadão, se alguém tiver e puder me enviar o texto, agradeço imensamente). Comento logo depois dos textos:
N´O Globo:
Bruno Tolentino, poeta, 66 anos
O poeta Bruno Tolentino teve uma vida incomum. A seus amigos, contava peripécias tão espetaculares, como as que teriam envolvido sua prisão em Dartmoor, conhecida como Ilha do Diabo, na Grã-Bretanha, em 1987, que chegava a confundi-los: nunca se sabia se eram histórias verdadeiras ou inventadas. O poeta Ferreira Gullar, que muito admira sua obra, afirma que Tolentino possuía o que é fundamental a um bom e verdadeiro poeta: personalidade, “esta maneira própria de ver e sentir, do contrário não se consegue inventar essa coisa que se chama poema”. Um dos traços marcantes desta “personalidade”, além do talento ilusionista, de mitômano, era o de polemista. Tolentino enfrentou contendas famosas, por exemplo com os irmãos Campos e Caetano Veloso (a quem chamou de “Goethe de Santo Amaro da Badalação”). Mas, como lembra o também poeta Ivan Junqueira, que o viu pela última vez em 2005, quando era presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), tratava-se sobretudo um grande artista:
- O Brasil perdeu um poeta de muito talento. Tolentino tinha um dom versificatório que rarissamente eu vi na minha vida. Era um prestidigitador. Dominava uma técnica do verso que não encontro em nenhum poeta brasileiro da contemporaneidade. Era um virtuoso. Tinha muita facilidade espantosa para versejar, inclusive para fazer quadrinhas ferinas sobre seus inimigos - afirma Junqueira.
Em 1964, Tolentino partiu para o auto-exílio na Europa, onde viveu 30 anos, quando conta ter convivido com Ungaretti, Yves Bonnefoy e W. H. Auden - de quem dizia ter sido grande amigo e a quem sucedeu, em 1973, na direção da Oxford Poetry Now. Foi tradutor e intérprete junto à Comunidade Econômica Européia, e professor em Bristol e Essex.
Suas críticas à situação cultural do país foram sintetizadas numa entrevista a “Veja” 1996: “O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual (…). Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero o meu país de volta”. Em “Os sapos de ontem” (1995) reuniu uma série de poemas em que satiriza seus inimigos.
Tolentino, que nasceu no Rio em 12 de novembro de 1940, e é um dos finalistas deste ano do Prêmio Jabuti com “A imitação do amanhecer”. Já ganhou o Jabuti por “O Mundo como Idéia”, em 2003, e por “As horas de Katharina”, em 1995, no qual narra a biografia de uma freira que se encaminha para a santidade. Outro importante livro seu é “Balada do cárcere”, inspirado na experiência da prisão em Dartmoor, obra que recebeu o Prêmio Cruz e Souza em 1996. Tolentino fora acusado de traficar drogas, mas o governo inglês o perdoou, reconhecendo ter cometido uma injustiça. Recebeu dois prêmios da ABL, entre eles o Antonio Ermírio de Moraes.
Era sobrinho de Lúcia Miguel Pereira, ilustre biógrafa de Machado de Assis, e primo de Antonio Candido. Tolentino, que tinha Aids e já superara um câncer, morreu ontem em São Paulo, aos 66 anos, de falência múltipla de órgãos, no Hospital Emílio Ribas. Será enterrado hoje, em São Paulo, às 9h, no Cemitério do Santíssimo Sacramento. Deixa um filho, fruto da união com a francesa Martine Gracieuse Elizabeth.
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Na Folha (assinante):
Morre o poeta carioca Bruno Tolentino, 66
Vencedor de dois prêmios Jabuti, intelectual publicou em inglês e francês e ficou conhecido no país como polemista
Tolentino negava a tradição modernista de concisão e coloquialidade, adotando formas clássicas para tratar de temas contemporâneos
DA REPORTAGEM LOCAL
Vencedor de dois prêmios Jabuti e eleito intelectual do ano de 2003 pela Academia Brasileira de Letras, o poeta carioca Bruno Tolentino morreu ontem, em São Paulo, aos 66 anos. Segundo o boletim emitido pelo Hospital Emílio Ribas, onde ele estava internado havia um mês, a causa da morte foi falência múltipla dos órgãos.
Nos últimos cinco anos de vida, Tolentino publicou dois livros: “O Mundo como Idéia” e “A Imitação do Amanhecer”. No primeiro, desenvolvido ao longo de 40 anos, Tolentino se debruçou sobre uma filosofia da forma.
Já “A Imitação do Amanhecer” dramatiza, numa história contada em 538 sonetos alexandrinos, as obsessões que permearam sua vida como poeta. Por ele, Tolentino foi indicado neste ano entre os finalistas ao 49º Prêmio Jabuti.
Conservador, Tolentino fazia por meio de poesia uma crítica às pretensões modernas de compreensão total e racional do mundo.
Nascido em 12 de novembro de 1940, Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino Sobrinho conviveu desde de criança com os grandes nomes da intelectualidade brasileira, entre eles Cecília Meirelles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
Na década de 60, saiu do Brasil e, posteriormente, ensinou literatura em Oxford e Bristol, no Reino Unido. Assumiu a direção da editora de poesia Oxford Poetry Now em 1973. Ainda na Europa, o poeta publicou “Le Vrai le Vain” (Actuels) e “About the Hunt” (OPN).
No Brasil, Tolentino lançou, entre outros livros, “Anulação & Outros Reparos” (Topbooks), “As Horas de Katharina (Companhia das Letras) e “Os Deuses de Hoje” (Record). Foi agraciado com os prêmios Jabuti 1995, Cruz e Souza 1996 e Abgar Renault 1997. “O Mundo como Idéia”, lançado pela editora Globo em 2002, recebeu os prêmios Jabuti e Ermírio de Moraes. O poeta foi elogiado por W.H. Auden e Saint-John Perse, entre outros.
Polêmico
Tolentino era um conhecido polemista. Em 1994, o poeta fez, no jornal “O Estado de S. Paulo”, críticas à tradução feita pelo concretista Augusto de Campos de um poema de Hart Crane (1899-1932), publicada no suplemento “Mais!”, da Folha. Em 1996, depois de morar 30 anos fora do Brasil, manifestou em entrevista à revista “Veja” sua preocupação por ver o filho mais novo estudando em escolas que ensinavam as obras de letristas da MPB -como Caetano Veloso- ao lado de Machado de Assis, Camões e Fernando Pessoa. “É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o showbiz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.”
O filósofo Olavo de Carvalho, seu amigo e aliado nas polêmicas, afirma que Tolentino foi “o maior poeta da língua portuguesa desde Camões”.
“Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto são apenas aprendizes perto dele. Infelizmente a mídia cultural não lhe deu oportunidade de ser o grande professor de literatura de que o Brasil precisa”, declarou.
Para o crítico e colunista da Folha Manuel da Costa Pinto, “Bruno Tolentino conjugava em sua poesia elementos modernos e antimodernos”. “Era antimoderno em relação ao modernismo brasileiro, pois recusava suas soluções formais de coloquialidade e concisão”, diz. Por outro lado, se aproximava de certo modernismo europeu, inglês, que associava formas clássicas à voz das ruas.
Comento:
Os textos publicados em Estadão (que não está reproduzido aqui), Folha e O Globo se fixaram no homem e não na obra. O polemista é realçado convertendo o poeta numa figura menor. Isso, que fique claro, num texto sobre um escritor cuja obra poética, de tão grandiosa, está muitíssimo acima da figura polêmica que se tornou pública, embora o polemista público só tenha sido possível pela inteligência arguta de um intelecto notável.
Quem não conhece a obra de Bruno Tolentino é levado a crer que ele foi tão somente um arrivista que meteu o pau em Caetano Veloso.
Pelo menos, Folha e Estadão deram um bom destaque para os textos, o que não aconteceu em O Globo, onde Tolentino ficou relegado a um canto de página e ganhou um texto em que é chamado de mentiroso no primeiro parágrafo. É…
PS: Não vi TV ontem nem hoje. Alguém sabe se saiu alguma coisa sobre a morte?
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Bruno, a perda é irreparável.Concordo com o Olavo de Carvalho: o maior, simplesmente o maior poeta da Língua Portuguesa desde Camões. Depois d’A imitação do amanhecer meu espírito só melhora, que já li não sei quantas vezes e relerei (se Deus permitir) até onde me for dado viver. Disse um amigo meu, que conviveu com o Bruno Tolentino, que A imitação… serve até como auto-ajuda. E é mesmo. Um grande abraço e vida longa.
Caro João, e eu concordo com vocês dois: Tolentino foi o maior da língua desde Camões, sem dúvida, sem dúvida! Obrigado pela visita, rapaz. Apareça sempre! Abração.
Bruno,
quero parabenizá-lo e agradecer pela homenagem que você fez a Tolentino. Já salvei tudo o que você postou de e sobre ele para ler depois, com mais calma. Confesso que nunca li nada do Tolentino, conheço-o de nome há algum tempo e já havia lido a entrevista concedida à Veja. Mas, enfim, eis, paradoxalmente, uma boa oportunidade para eu conhecer a obra dele.
Um forte abraço e coragem nessa luta (cujo fio, creio, discretamente corta o espaço e nos une num esforço comum).
P.S.: soube do seu blog pela notinha no blog do Reinaldo Azevedo.
Tiago, não precisa agradecer. Tenho certeza de que você vai gostar da obra do Tolentino. Sim, sim, todos nos unimos nesse fio comum de busca pela excelência. E que bom que você tenha chegado aqui via Reinaldo Azevedo, que sempre será uma boa referência para mim. Um abraço.
Por Marco Gemaque
Própolis e o verbo
Abelha molda a colméia
Tolentino o poema
Na milenar perfeição,
Ela se vale de imagens há milênios, Venn!
Ele de Machado, palavras!
Todo silogismo se encadeia
no poema-espacial que o Machado ferra: poema
Toda abelha é imortal.
Tolentino é abelha.
Logo, Tolentino é imortal
Minha homenagem ao poeta que acredita
que o verbo é o DNA do poema.
A abelha defende a sua colméia com própolis há milênios
e Tolentino defende a poesia com o verbo:
doce altamente terapêutico eterno.
La Muerte no es el final
Cuando la pena nos alcanza,
del compañero perdido.
Cuando el adiós dolorido,
busca en la fe su esperanza.
En tu palabra confiamos
con la certeza que Tú
ya le has devuelto a la vida,
ya le has llevado a la luz.
Ya le has devuelto a la vida,
ya le has llevado a la luz.
-Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change - dizia Mallarmé
Bruno,
Como os demais, quero agradecê-lo pela bela e singela homenagem à memória daquele gigante. A obra de Tolentino, graças a Deus, há de permanecer pelo sem fim. Só espero que também perpetuem-se os seus leitores… “Mas calma, meu coração, o vento vem mais tarde, Ítaca vai voltar: Circe e seus charmes conseguem inebriar a alma covarde, mas não por muito tempo”.
Um abraço!
Marco, obrigado pela visita e poemas. Agora temos a missão de disseminar e ampliar o horizonte crítico da grandiosa obra do Tolentino. Um abraço.
Fabiano, não precisa agradecer não. Foi uma lástima ter que enfrentar a morte do poeta, mas um grande prazer ajudar a divulgar sua obra e ressaltar a importância do que ele fez. Um abraço.
Tolentino é luminar, genialidade superlativa, excelso entendedor da alma dos homens e da vida. Mestre que nunca morrerá.