Ainda a polêmica sobre a versão brasileira de Ulisses

Via o blog Odisseia, leio um texto do blog Canis Sapiens:
Foi lançada no Brasil há coisa de dois anos uma nova edição de Ulisses, de James Joyce, pela editora Objetiva e em nova tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro (a outra disponível no mercado é de Antônio Houaiss e saiu pela Civilização Brasileira). A tradução da Bernardina é mais coloquial e mesmo mais fluente do que a precedente, o que não quer dizer que seja melhor - nem pior. Ambas são trabalhos colossais, verdadeiros mergulhos nas vísceras de um dos textos mais complexos e importantes de toda a maldita História. Ambas merecem e têm de ser lidas e relidas e desfrutadas e muito bem conhecidas, e insisto nisso porque se tornou moda, entre os resenhadores da nova tradução, meterem o pau no trabalho do Houaiss, tachando-o de “hermético demais”, “ilegível”, “intransponível” e coisas do gênero. Duvido se qualquer um deles se deu ao trabalho de ler (ou tentar) a tradução anterior. No máximo, papagaiaram o que ouviram por aí da boca de terceiros. Que se danem, portanto.
Li as duas traduções. Moda ou não, conhecendo ou não o texto original, qualquer um que leia as versões para o português vai perceber que na da Bernardina há escolhas mais felizes e apropriadas de palavras, que permitem entender o que está sendo dito, do que a do Houaiss, que se sai melhor, muitas vezes, no andamento musical, mas dá um bico na inteligibilidade e compreensão.
Para facilitar quem não tem as duas obras, vou citar trechos publicados no primeiro número da Entrelivros. Veja só:
Tradução de Bernardina: Arcos partidos na praia; na terra um labirinto escuro e engenhoso de redes; bem mais longe portas dos fundos das casas rabiscadas de giz e na parte mais alta da praia um varal com duas camisas crucificadas. Ringsed: barracas de timoneiros morenos e capitães da marinha mercantes. Conchas humanas.
Tradução de Houaiss: Arcos partidos a beira-mar; em terra uma confusão de escuras redes astutas; mais além portas de fundos garatujadas a giz e no alto da praia uma corda de secar com duas camisas crucificadas. Ringsend: barracões de pilotos requeimados e mestres-marinheiros. Conchas humanas.
Repita em voz alta cada um dos trechos. A música salta da versão Houaiss; a de Bernardina é mais seca. Mas, imagine que a versão de Bernardina não esteja logo acima para consulta e tente entender o que diabos são “redes astustas” e “pilotos requeimados e mestre-marinheiros”. Pilotos requeimados? Hmmm.
Na coisa do estilo, duas frases:
Tradução de Houaiss: Lendo duas páginas de cada um de sete livros por noite, hem? Eu era jovem. Inclinavas-te para ti mesmo ante o espelho, avançando um pouco para aplaudir-te compenetrado, cara séria.
Tradução de Bernardina: Lendo duas páginas de cada vez dos sete livros toda noite, hein? Eu era jovem. Você se inclinava para si mesmo no espelho, dando um passo à frente para aplaudir freneticamente, rosto surpreendente.
“Inclinavas-te para ti mesmo” e “para aplaudir-te compenetrado” parece coisa que nem Jânio Quadros cometeria. Agora, veja o original:
Reading two pages apiece of seven books every night, eh? I was young. You bowed to yourself in the mirror, stepping forward to applause earnestly, striking face.
Eu não gosto de ambos os trechos traduzidos. Preferiria algo assim:
Tradução de Bruno Garschagen: Lendo duas páginas de cada vez dos sete livros toda noite, né? Eu era jovem. E você se reverenciava diante do espelho, rosto marcante, dando um passo à frente para aplaudir a si mesmo, honestamente.
Veja bem, não sou tradutor, não vivo do ofício blábláblá. Mas sigo sempre o conselho dado por meu tio Donaldson Garschagen, tradutor de primeira, cuja versão para Os filhos da meia noite, de Salman Rushdie, foi muito elogiada: não existe o idioma “tradutês”. Para traduzir, claro, é preciso conhecer o outro idioma, mas é preciso, fundamentalmente, conhecer o próprio idioma, sem o qual a tradução vira o samba do crioulo doido.
Voltando à vaca fria, quando o André de Leones do Canis Sapiens tenta fazer a defesa da versão Houaiss, duvidando se os resenhistas compararam as duas traduções, é preciso dizer que: eu li as duas e comparei-as; a da Bernardina, apesar de meus senões, é muito superior (E eu nem vou falar dos erros de traduções de Houaiss já apontados ad nauseam).
PS: Eu ainda tenho cá minhas dúvidas se, no monólogo da Molly Bloom que encerra o livro, o “sim” é a melhor palavra para dar sentido ao “yes” do desejo fumegante da moça. Nem filme pornô traduz “yes” por sim, você sabe, leitor concupiscente. Talvez um “isso, isso!” ou “vai neném, vai!” ou um “assim!!!!!!” encaixasse melhor, não acha?
10 Comments so far
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Vim aqui pelo uísque, porque onde tem uísque tem água de coco. Me dá um copo de água de coco?
Ah, nunca li Joyce, tenho medo. Pretendo ler em breve algum dos livros dele, mas não Ulisses, que quero ler quando já conhecer Joyce. Alguma indicação pra começar?
Caro Gustavo, infelizmente, não tem água de coco. Mas peraí que vou pedir o Jeeves para comprar. “Jeeves! Jeeves!”
Precisa ter medo do Joyce não. Fala-se tanto das dificuldades de ler o moço que o medo é natural, no entanto, injustificado, você verá. De qualquer forma, sugiro que leia “Dublinenses” e “Retrato do artista quando jovem”. Depois me diga o que achou, ok?
E a água de coco, está nos conformes?
Abração.
Hum, geladinha. Vou tentar ler o Dublinenses, que não sou fã de biografias/autobiografias e tenho um bloqueio. Obrigado pela sugestão. Digo sim o que achei, não se preocupe.
Abraço.
Olá, Bruno.
Antes de ir ao ponto, obrigado pelo “cartaz”, por assim dizer.
Agora, ao ponto: concordo com você. Li a tradução do Houaiss depois de ler a da Bernardina. Logo, penso que seja mesmo MUITO problemático encarar a do Houaiss primeiro; apesar de musical e tudo mais, ela é mesmo truncada e coisa e tal.
No referido texto, quando pego no pé dos resenhadores, bem, aí já se trata do que parece ser mesmo: uma provocação. E só, rs.
Enfim, uma vez mais, obrigado.
Abraços do
André de Leones.
Caro André, o importante nessa história é discutirmos mesmo, além da obra, o que nos chegou em termos de tradução. O legal de Ulisses é que o livro permite provocações, polêmicas e análises mil. Estamos no mesmo barco e entendo sua provocação. E acredito, como você, que muitas resenhas foram feitas, sem leitura, no embalo de outras. Abração.
Pois é… Tempos atrás procurei opiniões sobre a tradução de “Em Busca do Tempo Perdido” do Fernando Py. Havia uma promoção de uma caixa da Ediouro com o texto completo traduzido por ele. Não consegui encontrar ninguém que tivesse feito uma leitura crítica da tradução. Ela era comparada com as edições antigas da Globo, cujos tradutores eram Mário Quintana, Manuel Bandeira, e outros figurões. Havia um opinião de que as traduções da Globo não tinham passado por revisão, mas não consegui encontrar ninguém que pudesse dar uma boa opinião sobre a tradução do Fernando Py. Agora a Globo relançou a coleção com revisão, e a caixa da Ediouro está esgotada. Talvez eu não veja nunca uma boa comparação como esta de “Ulysses” do seu post.
Caro Juca, obrigado pela visita. Também procurei textos comparando essas traduções e não achei. O curioso nessa história é que hoje temos mais (e bons) tradutores, um exercício profissional da tradução, mas só décadas atrás havia um debate, pela imprensa, da qualidade das obras vertidas para o português. Me mantenha informado se achar alguma coisa sobre essas traduções do Proust, ok? Abração.
[…] Soube quem era o Andre semana passada, por conta do Bloomsday organizada pelo Leandro. Eu e Andre batemos um papo sobre a diferença entre as traduções de Houaiss e Bernardina Pinheiro. A conversa foi boa e estamos no mesmo barco. Vamos […]
[…] Ainda a polêmica sobre a versão brasileira de Ulisses; […]
Já eu iria de:
\”Lendo sete livros ao mesmo tempo -duas páginas de cada por noite? É, eu era jovem. Mesura diante do espelho, com um passo adiante para aplaudir sinceramente, rosto admirável.\”