Archive for Junho, 2007

Diogo Mainardi: colunista de sucesso encobre escritor notável

Esqueça, enquanto durar este texto, o Diogo Mainardi colunista da revista Veja. Esta resenha vai tratar somente do escritor, que submergiu ante as vigas pesadas do celebrado e vilipendiado jornalista. Se o trabalho como colunista foi ótimo para Mainardi, soterrou seu trabalho como escritor.

Não foi à toa seu anúncio público de que não mais escreveria ficção. É lamentável que seja assim, pois seus quatro livros, agora reeditados pela editora Record (pertenciam à Cia. das Letras), mostram um escritor não só brilhante, como um dos raros único no Brasil a conjugar de forma notável o melhor do romance satírico inglês, francês, italiano e espanhol. Perdemos o desenvolvimento do ficcionista, ficamos com as obras já escritas. Não é pouco, mas podia ser mais.

Na novela “Malthus” e nos romances “Arquipélago”, “Polígono das secas” e “Contra o Brasil”, Mainardi trabalhou suas referências brasileiras (Machado de Assis, Lima Barreto, Ivan Lessa) com suas dedicadas leituras dos ingleses (Jonathan Swift, Laurence Sterne, John Milton, Evelyn Waugh), dos franceses (François Rabelais, Denis Diderot, Voltaire, Louis-Ferdinand Céline), de espanhóis (Miguel de Cervantes) e italianos (Ítalo Calvino). E alguns de seus personagens trazem uma afetação deliciosa cujo eco pode estar nos personagens vitorianos de P.G. Wodehouse.

O espirituoso e ácido humor inglês, o realismo crítico francês, a metanarração italiana, elementos do picaresco espanhol, eis os elementos de sua prosa. E aqui falo do romance picaresco do século XVII, quando a astúcia substituiu a ingenuidade, as peripécias ganharam mais imaginação e o grotesco passou a dominar o realismo das caricaturas.

São obras exemplares desse período “Gil Blas” (1715-1735), do francês Alain René Lesage, “Unfortunate Traveller” (1594), do inglês Thomas Nashe, “Moll Flanders” (1722), do compatriota Daniel Defoe; “Tom Jones” (1749), do também inglês Henry Fielding, além de “Novelas exemplares” e “Dom Quixote”, ambas do espanhol Cervantes.

Os quatro livros de Mainardi formam uma espécie de epopéia heróico-cômica minimalista, na qual os personagens atuam por meio da palavra, e não da ação, como bem notou o jornalista Mario Sabino na orelha de “Malthus”. Não há sobras no texto, como em Machado de Assis. Tudo está onde deve estar. Se o estilo é o homem, como queria Buffon, Mainardi é o homem, com estilo.

Para a coluna de Veja, o escritor e jornalista levou a brutalidade substantiva de sua ficção. O ridículo, a pobreza intelectual do senso comum, o grotesco e as contradições do ser humano, homem médio ou intelectual de grife, os vários níveis de precariedade do país, tudo é esmiuçado com delicadeza tiranossáurica. É sempre a mesma absurda posição diante dos acontecimentos: fala-se algo, faz-se o oposto. O que faz Mainardi? Uma elegante e sempre aprumada tijolada.

O deboche, a sátira e a violência literária carregam a maravilhosa influência de um dos mais burlescos, ciclotímicos e bem-humorados escritores brasileiros, Ivan Lessa que, para nosso azar, pouco publica em livro. O que existe pode ser garimpado em edições do Pasquim e da revista Status, além, claro, da pequena seleção feita por Mainardi em “Garotos da fuzarca”. As seleções “Ivan vê o mundo” e “O luar e a rainha” são de textos para a BBC, o que não invalida, mas nada tem a ver com a contundência explosiva e literária dos textos reunidos no primeiro livro.

Na novela “Malthus”, a escrita ligeira e atordoante, com seus personagens vertiginosos, traz a marca de Ivan Lessa. Nos romances, Mainardi diluiu suas influências, se assim posso chamar, para forjar um texto irascível, cômico e empolgante, que faz do ridículo humano uma razão para o deboche.

Há um trecho sintomático da crueldade cômica de sua prosa num trecho de “Polígono das secas”, quando ao se ver sozinho e preso numa caverna com o filho morto o pai passa a fazer da boca do cadáver uma cesta para acertar as pedrinhas que encontra no chão. Simples passatempo que dialoga com as brutalidades reais do cotidiano sertanejo e urbano.

Numa das cenas de “Arquipélago”, os náufragos à deriva, um deles perde o braço com a queda do mastro da embarcação improvisada. Sem rumo nem prumo, tudo vale como bússola. Então, eis que o braço esticado e amputado, apontando para o nada, serve de guia. Como diria meu xará, Giordano Bruno, se non è vero è ben trovato!

Em “Contra o Brasil”, há uma cena antológica: o protagonista Pimenta Bueno, aleijado pelo ataque dos mendigos instalados no prédio do antigo cinema que lhe cabe no espólio paterno e carregado nos ombros pelo fiel escudeiro Azor, como no dorso de um jegue, limita-se a professar: “Pocotó, pocotó, pocotó”. A onomatopéia, por vezes, vale por mil palavras.

O humor de Mainardi oscila entre o comedido e galhofeiro, e provoca frêmitos e inevitáveis gargalhadas. Descrições, digressões. Eu até deveria fazer os resumos dos livros citados, mas deixarei em você, leitor, o despertar da curiosidade pelas quatro obras.

Mainardi é acusado freqüentemente como intelectual de ser antibrasileiro. É um equívoco, fruto de má leitura: qualquer sujeito minimamente alfabetizado vai perceber que seus textos são tão antibrasileiros quanto anti-italianos, anti-franceses, antiamericanos. O sumo de suas críticas é o ser humano, que se repete em suas idiossincrasias, tolices e estupidez em qualquer parte do sistema solar. É lapidar a observação de Otto Lara Resende, que, ao voltar de Bruxelas, cunhou essa pérola: “a Europa é uma burrice aparelhada de museus”.

Sei que pelo menos metade dos leitores que chegou até aqui neste texto odeia e a outra metade adora Diogo Mainardi. É do jogo. Numa entrevista em 1998, para o então colunista da Folha Marcelo Rubens Paiva, o escritor disse que o que mais o incomodava era a imagem de polemista. “O fato de minha figura provocar polêmica só me atrapalha. Eu sou irrelevante ao lado de minha obra. Vejo a sátira como uma disciplina que não poupa nada, ninguém. Fico sem aliados”.

Com ou sem aliados, Mainardi segue. É preciso torcer e pressioná-lo de forma grave para que ele mude de idéia e volte a escrever ficção. Na há dúvidas de que é um dos mais inventivos e talentosos romancistas vivos. Prescindir dele é prova de burrice monumental. Rabelais já vaticinou: “A ignorância é a mãe de todos os males”.

PS: Esta resenha foi escrita e publicada no caderno Idéias, do ex-JB, em julho do ano passado, quando os livros foram relançados. O título não é o que pus aqui, pois não lembro o que pus lá

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Diogo Mainardi encontra Ivan Lessa. Êba!

Diogo Mainardi, na Veja desta semana, invoca definição criada por Ivan Lessa para qualificar os brasileiros. Ali está o humor que pode ser visto em sua novela Malthus e nos três romances: Polígono das secas, Arquipélago e Contra o Brasil. Recomendo todos e logo aí em cima um texto que fiz sobre o relaçamento da obra pela editora Record (eram da Companhia das Letras). Vamos ao artigo, disponível e aberto no site da Veja. Aliás, não perca o podcast em que ele dá um cacete no jornalista Luís Nassif e na coluna de semana passada, o pau pereira no Elio Gaspari, a fada Sininho de Lula

Eles são Oba!, eu sou Epa!

Diogo Mainardi

“O mundo se divide em dois tipos de pessoas: as que gritam Oba! e as que exclamam Epa!”. Quem disse isso? Demócrito? Santo Agostinho? Leibniz? Nietzsche? Nenhum deles: foi Ivan Lessa, no Pasquim. A frase resume tudo o que conseguimos aprender até hoje sobre o ser humano. De acordo com Ivan Lessa, os Oba! são otimistas, alegres, aproveitadores, oportunistas, barulhentos e donos de um caráter flexível. Os Epa!, por outro lado, são censuradores, precavidos, desconfiados, facilmente escandalizáveis, dotados de um caráter rígido e de pouquíssimo senso de humor.

A popularidade de Lula já foi analisada sob diferentes prismas. Faltou um: o que aplica à realidade política a tipologia do Oba! e do Epa!. Os brasileiros sempre foram esmagadoramente Oba!. Somos uma espécie de paradigma universal do Oba!, com focos isolados e desorganizados de Epa!. O grande mérito do lulismo foi separar claramente as duas categorias: uma para cá, outra para lá. Tome-se a última pesquisa CNT-Sensus, publicada alguns dias atrás. Entre os eleitores que ganham até 380 reais, 72,3% festejam Lula com um alegre e ruidoso Oba!. Entre os que ganham mais de 7 600 reais, há apenas 31,7% de Oba! e uma arrasadora maioria composta de 65,9% de censuradores e escandalizados Epa!.

É bom que os que ganham até 380 reais estejam dizendo Oba!. Podemos parar de nos preocupar com eles. Quanto menos a gente se preocupar com eles, melhor para eles e melhor para nós. Agora que o lulismo reintroduziu no Brasil uma pitada de identidade de classe, contrapondo ricos e pobres, temos de encontrar um jeito de preservá-la. Quando um jornalista do Oba! Oba! vier pedir anúncios à sua empresa, diga Epa! e mande-o procurar o governo. Quando um ator ou cantor do Oba! Oba! aparecer pleiteando patrocínio para seu espetáculo, diga Epa! e nem o receba. Quando um professor universitário tentar doutrinar seu filho com o Oba! Oba! de Mészáros, Guattari ou Sachs, diga Epa!, tire seu filho da universidade e arrume-lhe um emprego. Quando um diretor de TV propuser uma minissérie esteticamente arrojada a partir da obra do Oba! Oba! Ariano Suassuna, diga Epa!, mude de canal e veja um enlatado americano.

É assim que eu protesto contra a turma do Oba!: todos os dias, às 4 da tarde, interrompo minhas atividades para ver a reprise de um episódio de The Office, a prova mais evidente da superioridade moral e intelectual da turma do Epa!. De tanto assistir a The Office, é capaz que um dia eu ainda consiga derrubar Lula. Reinaldo Azevedo, em seu blog, comparou os antilulistas àqueles cavaleiros medievais do Monty Python que acreditam poder derrotar seus inimigos berrando um estridente Ni!. É verdade. Se 100.000 pessoas se reunissem na Candelária e berrassem juntas Ni! ou Epa!, o governo cairia na hora. O problema é que a turma do Epa! jamais conseguiria se organizar para reunir 100.000 pessoas num mesmo lugar. É bem melhor ficar em casa vendo TV e zombando da turma do Oba!.

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Leituras do dia (um tanto atrasadas, e atrasadas continuarão até mais tarde)

Estou digerindo aqui o caderno sobre a Flip feito pelo Prosa & Verso para comentar mais tarde. Eu já disse que não vou à Flip, né? Pois é, não vou. Muito escritor e gente interessada em livros num mesmo lugar não dá para mim. A civilização passa, antes de tudo, por uma mesa com menos de cinco pessoas.

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As celebridades do ateísmo militante na New Yorker

Eustace Tilley, a imagem, o mito, a lenda...

Artigo bacana assinado por Gottlieb na New Yorker sobre as celebridades do ateísmo militante, tema de dois posts logo ali embaixo.

Books

Atheists with Attitude

Why do they hate Him?

by Anthony Gottlieb

Great portents and disasters turn some minds to God and others away from him. When an unusually bright and long-tailed comet was tracked through the sky in the last two months of 1680, posters and sermons called on Christians to repent. A hen in Rome seemed to confirm that the Day of Judgment was near. On December 2nd, it made an extraordinarily loud cackle and produced an exceptionally large egg, on which could be seen a likeness of the comet, or so it was said. This added to the religious panic. But the comet also sparked a small triumph for rationalism. In the next few years, as Armageddon somehow failed to arrive, a stream of pamphlets across Europe and America argued that heavenly displays were purely natural phenomena. The skeptics won the day. From the eighteenth century onward, no respectable intellectual saw comets as direct messages from God—though there were still some fears that one might eventually hit the earth.

The felling of the World Trade Center in New York, on September 11, 2001, brought its share of religion. Two populist preachers, Pat Robertson and Jerry Falwell, called it divine punishment (though both quickly withdrew their remarks), and not only the bereaved prayed for help. But September 11th and its aftershocks in Bali, Madrid, London, and elsewhere are more notable for causing an outbreak of militant atheism, at least on bookshelves. The terrorist attacks were carried out in the name of Islam, and they have been taken, by a string of best-selling books, to illustrate the fatal dangers of all religious faith.

The first of these books was “The End of Faith,” by Sam Harris, which was published in 2004 and was on the Times paperback best-seller list for thirty-three weeks. Then came “Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon,” by Daniel Dennett, a philosopher at Tufts University, who has written popular books on the science of consciousness and on Darwin. Next was “The God Delusion,” by Richard Dawkins, an evolutionary biologist and Britain’s preëminent science writer. Harris joined battle again last year with “Letter to a Christian Nation,” which renewed his attack on Christianity in particular. And now there is “God Is Not Great: How Religion Poisons Everything” (Twelve; $24.99), by Christopher Hitchens, which is both the most articulate and the angriest of the lot. Hitchens is a British-born writer who lives in Washington, D.C., and is a columnist for Vanity Fair and Slate. He thrives at the lectern, where his powers of rhetoric and recall enable him to entertain an audience, go too far, and almost get away with it. These gifts are amply reflected in “God Is Not Great.”

Hitchens is nothing if not provocative. Creationists are “yokels,” Pascal’s theology is “not far short of sordid,” the reasoning of the Christian writer C. S. Lewis is “so pathetic as to defy description,” Calvin was a “sadist and torturer and killer,” Buddhist sayings are “almost too easy to parody,” most Eastern spiritual discourse is “not even wrong,” Islam is “a rather obvious and ill-arranged set of plagiarisms,” Hanukkah is a “vapid and annoying holiday,” and the psalmist King David was an “unscrupulous bandit.”

It’s possible to wonder, indeed, where plain speaking ends and misanthropy begins: Hitchens says that the earth sometimes seems to him to be “a prison colony and lunatic asylum that is employed as a dumping ground by far-off and superior civilizations.” He certainly likes to adopt the tone of a bemused Martian envoy hammering out a report for headquarters. (We hear of “a showbiz woman bizarrely known as Madonna.”) In a curious rhetorical tic, Hitchens regularly refers to people whom he wishes to ridicule by their zoological class. Thus the followers of Muhammad are “mammals,” as is the prophet himself, and so are the seventeenth-century false messiah Sabbatai Zevi and St. Francis of Assisi; Japan’s wartime Emperor Hirohito is a “ridiculously overrated mammal,” and Kim Il Sung, the father of North Korea’s current dictator, is a “ludicrous mammal.” Hitchens is trying to say that these people are mere fallible mortals; but his way of saying it makes him come across as rather an odd fish.

He is also a fallible one. After rightly railing against female genital mutilation in Africa, which is an indigenous cultural practice with no very firm ties to any particular religion, Hitchens lunges at male circumcision. He claims that it is a medically dangerous procedure that has made countless lives miserable. This will come as news to the Jewish community, where male circumcision is universal, and where doctors, hypochondria, and overprotective mothers are not exactly unknown. Jews, Muslims, and others among the nearly one-third of the world’s male population who have been circumcised may be reassured by the World Health Organization’s recent announcement that it recommends male circumcision as a means of preventing the spread of AIDS.

Hitchens is on firmer ground as he traipses around the world on a tour of sectarian conflicts. He recounts how, a week before September 11th, a hypothetical question was put to him by Dennis Prager, an American talk-show host. Hitchens was asked to imagine himself in a foreign city at dusk, with a large group of men coming toward him. Would he feel safer, or less safe, if he were to learn that they were coming from a prayer meeting? With justified relish, the widely travelled Hitchens responds that he has had that experience in Belfast, Beirut, Bombay, Belgrade, Bethlehem, and Baghdad, and that, in each case, the answer would be a resounding “less safe.” He relates what he has seen or knows of warring factions of Protestants and Catholics in Ulster; Christians and Muslims in Beirut and in Bethlehem; Hindus and Muslims in Bombay; Roman Catholic Croatians, Orthodox Serbians, and Muslims in the former Yugoslavia; and Shiites, Sunnis, and Christians in Baghdad. In these cases and others, he argues, religion has exacerbated ethnic conflicts. As he puts it, “religion has been an enormous multiplier of tribal suspicion and hatred.”

That’s more plausible than what Sam Harris has to say on the subject. He maintains that religious belief not only aggravates such conflicts but is “the explicit cause” of them. He believes this even of Northern Ireland, where the Troubles between pro-British Unionists and pro-Irish Republicans began around 1610, when Britain confiscated Irish land and settled English and Scottish planters on it. As far as Harris is concerned, Islam brought down the Twin Towers, thanks in no small part to the incendiary language of the Koran; Middle East politics, history, and economics are irrelevant sideshows. This thesis suffers from a problem of timing: if he is right, why did Al Qaeda not arise, say, three hundred years ago, when the Koran said exactly what it says now?

One practical problem for antireligious writers is the diversity of religious views. However carefully a skeptic frames his attacks, he will be told that what people in fact believe is something different. For example, when Terry Eagleton, a British critic who has been a professor of English at Oxford, lambasted Dawkins’s “The God Delusion” in the London Review of Books, he wrote that “card-carrying rationalists” like Dawkins “invariably come up with vulgar caricatures of religious faith that would make a first-year theology student wince.” That is unfair, because millions of the faithful around the world believe things that would make a first-year theology student wince. A large survey in 2001 found that more than half of American Catholics, Episcopalians, Lutherans, Methodists, and Presbyterians believed that Jesus sinned—thus rejecting a central dogma of their own churches.

So how is a would-be iconoclast supposed to tell exactly what the faithful believe? Interpreting the nature and prevalence of religious opinions is tricky, particularly if you depend on polls. Respondents can be lacking in seriousness, unsure what they believe, and evasive. Spiritual values and practices are what pollsters call “motherhood” issues: everybody knows that he is supposed to be in favor of them. Thus sociologists estimate that maybe only half of the Americans who say that they regularly attend church actually do so. The World Values Survey Association, an international network of social scientists, conducts research in eighty countries, and not long ago asked a large sample of the earth’s population to say which of four alternatives came closest to their own beliefs: a personal God (forty-two per cent chose this), a spirit or life force (thirty-four per cent), neither of these (ten per cent), don’t know (fourteen per cent). Depending on what the respondents understood by a “spirit or life force,” belief in God may be far less widespread than simple yes/no polls suggest.

In some religious research, it is not necessarily the respondents who are credulous. Harris has made much of a survey that suggests that forty-four per cent of Americans believe that Jesus will return to judge mankind within the next fifty years. But, in 1998, a fifth of non-Christians in America told a poll for Newsweek that they, too, expected Jesus to return. What does Harris make of that? Any excuse for a party, perhaps. He also worries about a poll that said that nearly three-quarters of Americans believe in angels—by which, to judge from blogs and online forums on the subject, some of them may have meant streaks of luck, or their own delightful infants.

The Bible is a motherhood issue, too. Harris takes at face value a Gallup poll suggesting that eighty-three per cent of Americans regard it as the Word of God, and he, like Dawkins and Hitchens, uses up plenty of ink establishing the wickedness of many tales in the Old Testament. Critics of the Bible should find consolation in the fact that many people do not have a clue what is in it. Surveys by the Barna Research Group, a Christian organization, have found that most Christians don’t know who preached the Sermon on the Mount.

The tangled diversity of faith is, in the event, no obstacle for Hitchens. He knows exactly which varieties of religion need attacking; namely, the whole lot. And if he has left anyone out he would probably like to hear about it so that he can rectify the omission. From the perspective of the new atheists, religion is all one entity; those who would apologize for any of its forms—Harris and Dawkins, in particular, insist on this point—are helping to sustain the whole. But, though the vague belief in a “life force” may be misguided, it’s hard to make the case that it’s dangerous. And there’s a dreamy incoherence in their conviction that moderate forms of religion somehow enable fundamentalist zeal and violence to survive. Are we really going to tame the fervor of an extremist imam’s mosque in Waziristan by weakening the plush-toy creed of a nondenominational church in Chappaqua? If there were no religion, it’s true, neither house of worship would exist. So perhaps we are just being asked to sway along with John Lennon’s “Imagine.” (“Imagine there’s no countries /It isn’t hard to do /Nothing to kill or die for /And no religion too.”)

When Hitchens weighs the pros and cons of religion in the recent past, the evidence he provides is sometimes lopsided. He discusses the role of the Dutch Reformed Church in maintaining apartheid in South Africa, but does not mention the role of the Anglican Church in ending it. He attacks some in the Catholic Church, especially Pope Pius XII, for their appeasement of Nazism, but says little about the opposition to Nazism that came from religious communities and institutions. In “Humanity: A Moral History of the Twentieth Century,” Jonathan Glover, who is the director of the Center of Medical Law and Ethics at Kings College London, documents such opposition, and writes, “It is striking how many protests against and acts of resistance to atrocity have . . . come from principled religious commitment.” The loss of such commitment, Glover suggests, should be of concern even to nonbelievers. Still, Hitchens succeeds in compiling a list of evils that the faithful, too, should find sobering. Now that so much charitable work is carried out by secular bodies, religious ones have to work harder to keep the moral high ground. For the Catholic Church in particular—with its opposition to contraception, including the distribution of condoms to prevent the spread of AIDS, and the covering up of child abuse by priests—the ledger is not looking good.

Bertrand Russell, who had a prodigious knowledge of history and a crisp wit, claimed in 1930 that he could think of only two useful contributions that religion had made to civilization. It had helped fix the calendar, and it had made Egyptian priests observe eclipses carefully enough to predict them. He could at least have added Bach’s St. Matthew Passion and more than a few paintings; but perhaps the legacy of religion is too large a conundrum to be argued either way. The history of the West has been so closely interwoven with the history of religious institutions and ideas that it is hard to be confident about what life would have been like without them. One of Kingsley Amis’s lesser-known novels, “The Alteration,” tried to envisage an alternative course for modern history in which the Reformation never happened, science is a dirty word, and in 1976 most of the planet is ruled by a Machiavellian Pope from Yorkshire. In this world, Jean-Paul Sartre is a Jesuit and the central mosaic in Britain’s main cathedral is by David Hockney. That piece of fancy is dizzying enough on its own. But imagine attempting such a thought experiment in the contrary fashion, and rolling it back several thousand years to reveal a world with no churches, mosques, or temples. The idea that people would have been nicer to one another if they had never got religion, as Hitchens, Dawkins, and Harris seem to think, is a strange position for an atheist to take. For if man is wicked enough to have invented religion for himself he is surely wicked enough to have found alternative ways of making mischief.

In the early days of the Christian era, nobody was fantasizing about a world with no religion, but there were certainly those who liked to imagine a world with no Christians. The first surviving example of anti-Christian polemic is strikingly similar in tone to that of some of today’s militant atheists. In the second century, it was Christians who were called “atheists,” because they failed to worship the accepted gods. “On the True Doctrine: A Discourse Against the Christians” was written in 178 A.D. by Celsus, an eclectic follower of Plato. The Christian deity, Celsus proclaimed, is a contradictory invention. He “keeps his purposes to himself for ages, and watches with indifference as wickedness triumphs over good,” and only after a long time decides to intervene and send his son: “Did he not care before?” Moses is said to be “stupid”; his books, and those of the prophets, are “garbage.” Christians have “concocted an absolutely offensive doctrine of everlasting punishment.” Their injunction to turn the other cheek was put much better by Socrates. And their talk of a Last Judgment is “complete nonsense.”

There’s not much more where that came from, because within a couple of hundred years Christians became the ones to decide who counted as an atheist and was to be punished accordingly. Pagan anti-Christian writings were destroyed wherever possible. In truth, from the start of the Christian era until the eighteenth century, there were probably very few people in the West who thought that there was no God of any sort. Those thinkers who had serious doubts about the traditional conception of God—of whom there were many in the seventeenth century—substituted another sort of deity, usually a more distant or less personalized one.

Even Voltaire, one of the fiercest critics of superstition, Christianity, and the Church’s abuse of power, was a man of deep religious feeling. His God, though, was beyond human understanding and had no concern for man. (Voltaire’s satirical tale “Candide,” which attacks the idea that all is for the best in a world closely watched over by a benevolent God, was partly inspired by a huge earthquake in Lisbon, which struck while the faithful were at Mass on All Saints’ Day in 1755 and killed perhaps thirty thousand people.)

Voltaire, like many others before and after him, was awed by the order and the beauty of the universe, which he thought pointed to a supreme designer, just as a watch points to a watchmaker. In 1779, a year after Voltaire died, that idea was attacked by David Hume, a cheerful Scottish historian and philosopher, whose way of undermining religion was as arresting for its strategy as it was for its detail. Hume couldn’t have been more different from today’s militant atheists.

In his “Dialogues Concerning Natural Religion,” which was published posthumously, and reports imaginary discussions among three men, Hume prized apart the supposed analogy between the natural world and a designed artifact. Even if the analogy were apt, he pointed out, the most one could infer from it would be a superior craftsman, not an omnipotent and perfect deity. And, he argued, if it is necessary to ask who made the world it must also be necessary to ask who, or what, made that maker. In other words, God is merely the answer that you get if you do not ask enough questions. From the accounts of his friends, his letters, and some posthumous essays, it is clear that Hume had no trace of religion, did not believe in an afterlife, and was particularly disdainful of Christianity. He had a horror of zealotry. Yet his many writings on religion have a genial and even superficially pious tone. He wanted to convince his religious readers, and recognized that only gentle and reassuring persuasion would work. In a telling passage in the “Dialogues,” Hume has one of his characters remark that a person who openly proclaimed atheism, being guilty of “indiscretion and imprudence,” would not be very formidable.

Hume sprinkled his gunpowder through the pages of the “Dialogues” and left the book primed so that its arguments would, with luck, ignite in his readers’ own minds. And he always offered a way out. In “The Natural History of Religion,” he undermined the idea that there are moral reasons to be religious, but made it sound as if it were still all right to believe in proofs of God’s existence. In an essay about miracles, he undermined the idea that it is ever rational to accept an apparent revelation from God, but made it sound as if it were still all right to have faith. And in the “Dialogues” he undermined proofs of God’s existence, but made it sound as if it were all right to believe on the basis of revelation. As the Cambridge philosopher Edward Craig has put it, Hume never tried to topple all the supporting pillars of religion at once.

In Paris, meanwhile, a number of thinkers began to profess atheism openly. They were the first influential group to do so, and included Denis Diderot, the co-editor of the Enlightenment’s great Encyclopédie, and Baron D’Holbach, who hosted a salon of freethinkers. Hume visited them, and made several friends there; they presented him with a large gold medal. But the philosophes were too dogmatic for Hume’s taste. To Hume’s like-minded friend the historian Edward Gibbon, they suffered from “intolerant zeal.” Still, they represented a historical vanguard: explicit attacks on religion as a whole poured forth within the next hundred years.

Since all the arguments against belief have been widely publicized for a long time, today’s militant atheists must sometimes wonder why religion persists. Hitchens says that it is born of fear and probably ineradicable. Harris holds that there are genuine spiritual experiences; having kicked sand in the faces of Judaism, Christianity, and Islam, he dives headlong into the surf of Eastern spirituality, encouraging readers to try Buddhist techniques of meditation instead of dangerous creeds. Dawkins devotes a chapter, and Dennett most of his book, to evolutionary accounts of how religion may have arisen and how its ideas spread. It’s thin stuff, and Dennett stresses that these are early days for a biological account of religion. It may, however, be too late for one. If a propensity toward religious belief is “hard-wired” in the brain, as it is sometimes said to be, the wiring has evidently become frayed. This is especially true in rich countries, nearly all of which—Ireland and America are exceptions—have relatively high rates of unbelief.

After making allowances for countries that have, or recently have had, an officially imposed atheist ideology, in which there might be some social pressure to deny belief in God, one can venture conservative estimates of the number of unbelievers in the world today. Reviewing a large number of studies among some fifty countries, Phil Zuckerman, a sociologist at Pitzer College, in Claremont, California, puts the figure at between five hundred million and seven hundred and fifty million. This excludes such highly populated places as Brazil, Iran, Indonesia, and Nigeria, for which information is lacking or patchy. Even the low estimate of five hundred million would make unbelief the fourth-largest persuasion in the world, after Christianity, Islam, and Hinduism. It is also by far the youngest, with no significant presence in the West before the eighteenth century. Who can say what the landscape will look like once unbelief has enjoyed a past as long as Islam’s—let alone as long as Christianity’s? God is assuredly not on the side of the unbelievers, but history may yet be.

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Ainda fé, religião e ateísmo

Deus diz a Garschagen: 'é isso aí, meu filho! Adoro o seu blog!

Lembro de evangélicos me dizendo um dia, em algum lugar, que as pessoas chegam a Deus por amor ou pela dor. Para a Igreja, segundo disseram, não importava; o importante era que chegassem. Durante anos acreditei e defendi que religião era coisa de bocó, de gente à toa, que não tinha forças para segurar a barra da própria existência sem se agarrar à alguma muleta espiritual. Mudei de idéia ao ver que a religião, ao contrário do que eu achava, era, sim, verdadeiramente essencial para, talvez, a maioria da população.

O que conheci de gente que deixou de fazer bobagem depois de se dedicar à religião não é brincadeira. Um sujeito que estudou comigo, depois de beber de forma desmedida e chegar a agredir fisicamente a namorada, hoje esposa, só se salvou ao entrar para a Igreja da moça, Batista, se não me falhe a memória. Como não tenho religião, não vai aqui a defesa de nenhuma delas, mas a defesa de sua, digamos, necessidade. E quando digo necessidade, claro, há o aspecto utilitarista e prático, mas há o caráter, muito mais grandioso, da essencialidade, do significado maior que a Igreja tem para os que nela crêem.

Esse debate sobre Deus me interessa muito, assim como o debate sobre religião. Nos dois casos, há o tema da fé, que cruza ambos, com a mesma importância. Pois é, esse negócio da fé é interessante porque raramente inicia um bom debate. Pelo contrário. Foi convertido em argumento para encerrar o debate. “Fé não se discute” é o chavão mais repetido. É claro que nos termos em que é apresentado vira bate-boca de Fla-Flu - cada qual tentando puxar a sardinha para si, como duas focas gays (”Garschagen, há focas gays?” Bem, não sei, mas ficou engraçado, não? Não????? Tá, esqueça…).

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Uma coisa: gosto do Hitchens e do Dawkins, de quem li com prazer O gene egoísta, O relojoeiro cego, O capelão do diabo. Do Hitchens, li entusiasmado Os direitos do homem de Thomas Paine, Amor, pobreza e guerra, e Cartas a um jovem contestador. Só me incomoda no atual momento dos dois, como em qualquer outro intelectual, em qualquer assunto, a postura de quem descobriu a pólvora e sai achando que pode ganhar a guerra. Isso não, violão!

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Homenagem a Tolentino

A missa de sétimo dia pela morte do poeta Bruno Tolentino será na próxima quarta-feira, dia 4, às 11h30, no Mosteiro de São Bento, aqui no Rio. Eu estarei lá.

Falando no Bruno, na quinta-feira, Reinaldo Azevedo escreveu mais um texto sobre o poeta:

Bruno, até breve!

Hoje, aquele que era o nosso maior poeta, Bruno Tolentino, foi enterrado. Ficou sua obra gigantesca. É uma perda que será maior a cada dia: para a poesia, para o pensamento, para mim, que o amava tanto. Não consegui ir ao hospital, ao velório, à missa. E estou hoje um pouco pior do que ontem. Tenho aqui ao meu lado A Imitação do Amanhecer, que li, a eito, soneto após soneto, e que abro, aleatoriamente, como quem telefona para um amigo para falar sobre quase nada, em busca de algum conforto, de alguma indignação, da partilha de algum bem.

Reproduzo abaixo o último soneto do livro — III-165. Leiam em silêncio, algumas vezes, para criar intimidade com as palavras. Depois façam uma leitura em voz alta, obedecendo às pausas mínimas ao fim de cada verso. Depois repitam a operação, mas aí obedecendo ao ritmo da sintaxe. E então percebam a sobreposição de melodias: uma música que se faz gratuita, quase alheia ao sentido, e outra, rigorosa, racional, na medida.

Música e composição. “Ut pictura poesis”, recomendava o poeta latino Horácio: a poesia como pintura. Isso significa aderir ao rigor da composição: a escolha do vocábulo certo, cujo sentido vai-se desdobrando verso após verso, com o pincel fazendo a opção certa da cor, do volume, do detalhe, do gesto. As rimas e as assonâncias revelam o sentido numa forma em que nada é gratuito.

O que foi que perdemos nesses anos, com certo prosaísmo distraído, infantil, confessional? Perdemos a experiência da poesia como uma construção, um labor. Não a gratuidade da forma, mas a sua intencionalidade, esta que se percebe em Bruno Tolentino. O que é que havíamos perdido na era da ditadura concretista? A noção de que fazer versos é mais do que distribuir no espaço alguns truques espertos. Ut pictura poesis, mas sempre sabendo que a linguagem do verso é o verbo.

Vai lá, Bruno! Na lógica do tempo, até breve!

III-165

Ó Via Láctea, ó luminosa irmã — segundo
Apollinaire — dos fios brancos da água vã,
a água furtiva que visita o chão do mundo
e vai-se evaporando também, ó minha irmã
mais ancestral, mais nebulosa, ó vaga lã
dos vãos novelos em que eu ando, um moribundo
no intemporal, sinal apenas de que o fundo
de tudo e de mim mesmo é a solidão pagã
da alma febril que se evapora e historiciza,
ó ampliação de Alexandria, ó via branca
e tenebrosa, é tudo a rosa que se arranca,
pétala a pétala, às profanações da cinza,
ó Via Láctea, ó minha irmã que pões a tranca
da imensidão no coração do que agoniza…

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Ateístas são cristãos plantando bananeira

Hitchens ateísta e galã de novela das seis.

Quanto mais se tenta matar Deus mais se consagra a sua existência. Gozado. Agora, vemos ateístas profissionais. Gente que está vendendo livro e ganhando dinheiro para tentar provar que Deus é uma impossibilidade (H.L. Mencken, anticlerical furioso, definia a fé como uma crença ilógica na ocorrência do improvável). O jornalista inglês Christopher Hitchens está se convertendo num anti-Messias. Em vez de anunciar a vinda de Deus, anuncia a sua não-vinda. Hitchens quer ser Zaratustra, o moço que Nietzsche inventou para descer a montanha e pregar o super-homem capaz de substituir Deus. É o cristianismo plantando bananeira, como as cruzes invertidas dos satanistas seguidores de tarados como Aleister Crowley e Anton Szandor LaVey.

A Veja da semana passada fez uma boa matéria (reproduzida logo abaixo) sobre as atuais celebridades do ateísmo: Hitchens com o seu God is not great, o biólogo inglês Richard Dawkins com o seu The God delusion, o filósofo americano Daniel Dennett com o seu Quebrando o encanto, e o filósofo francês Michel Onfray com o seu Tratado de ateologia.

Jerônimo Teixeira, que assina o artigo “Queda de braço com Deus”, diz que “esses livros são sobretudo uma reação - às vezes exagerada, alarmista até - a um certo recrudescimento da religião em suas versões mais fanáticas, no mundo pós 11 de setembro”. Este é um ponto interessante. Por qual razão, Garschagen? Explico: esse pessoal se posiciona contra o Deus cristão. As referências que fazem são, em sua maioria, a religiões cristãs. Se o fanatismo é representado pelos islamismo, então, a reação é suspeita, não?

E é interessante notar que a argumentação desses caras não é diretamente focada na existência ou não de Deus, mas nos reflexos terrenos da existência de Deus, ou seja, todo o corpo teórico que se criou para nortear as religiões - a Bíblia e o Corão. Não houve, ainda, nenhum intelectual ateu que tenha conseguido ombrear com Santo Tomás de Aquino e sua Suma Teológica. Se a prova racional da existência de Deus está na Suma, não há na literatura ateísta uma prova racional da inexistência de Deus que chegue aos pés da obra forjada pelo Santo. E, veja bem, não sou católico - sequer tenho religião. Mas, na esfera do bom debate, não apareceu ninguém que tenha chegado aos pés do Santo.

O debate se Deus existe ou não é desinteressante porque, ora, ora, Deus sempre é relegado a um plano secundário. Basta as celebridades do ateísmo ouvirem o nome de Deus para serem acometidos de uma distonia monumental. E no sacolejo do descontrole físico viram bonecos a repetir a mesma catilinária. Para discutir Deus é preciso estofo intelectual e um mínimo de criatividade. Ainda não apareceu ninguém com tais atributos.

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A matéria de Veja

Livros
Queda-de-braço com Deus

Os ateus fazem sua propaganda em livros que provocam os fiéis e afirmam que pode existir sentido em uma vida sem religião

Jerônimo Teixeira

Quando o astrônomo e matemático francês Pierre-Simon de Laplace apresentou seu Tratado de Mecânica Celeste a Napoleão Bonaparte, o imperador estranhou uma ausência naquela laboriosa aplicação da física de Isaac Newton ao movimento de planetas e estrelas. Por que, quis saber Napoleão, Laplace não mencionava Deus? “Eu não precisei dessa hipótese”, foi a resposta do astrônomo. Deus saía de cena na ordem celeste – e mais ou menos sessenta anos depois, com a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, em 1859, a hipótese divina também era dispensada para explicar a vida sobre a Terra. Deus não cedeu espaço na moral, na cultura, na sociedade, nem mesmo na política. Mas a ambição de expulsá-lo de vez – e, com Ele, padres, pastores, imãs, rabinos – de todos os recessos da existência vem ganhando expressão em vários livros recentes. O proselitismo ateu anda forte nas livrarias, com um elenco preeminente e variado de autores abrindo fogo contra os fiéis: o biólogo inglês Richard Dawkins, o filósofo americano Daniel Dennett, o jornalista inglês Christopher Hitchens e o filósofo francês Michel Onfray. Os livros de Hitchens e Dawkins vêm freqüentando listas de mais vendidos nos Estados Unidos, e Onfray vendeu 200.000 exemplares de seu Tratado de Ateologia (tradução de Monica Stahel; Martins Fontes; 214 páginas; 39,80 reais) na França. Será incorreto imaginar que há uma onda de descrença varrendo o mundo. Esses livros são sobretudo uma reação – às vezes exagerada, alarmista até – a um certo recrudescimento da religião, em suas versões mais fanáticas, no mundo pós-11 de Setembro.

O caráter reativo dessas obras se revela no tom. Distintas na forma e nos pressupostos, todas têm uma tendência um tanto infantil à provocação. Em uma resenha do livro Quebrando o Encanto (tradução de Helena Londres; Globo; 456 páginas; 39 reais), de Daniel Dennett, publicada no The Washington Post, o teólogo Jack Miles, autor de Deus, uma Biografia, observou que às vezes o filósofo darwinista parece estar puxando os crentes para a briga, como quem diz “vamos acertar isso lá fora”. E o livro de Dennett é o menos exaltado – chega até a propor o diálogo com os religiosos moderados. Amigo de Dennett, Richard Dawkins mostra-se mais virulento já no título, The God Delusion (Deus, um Delírio, a ser lançado no Brasil em agosto, pela Companhia das Letras). Radical, ele não aceita nenhuma divisão de terreno, na linha “a ciência trata do mundo físico, e a religião, do espiritual”. Argumenta que a religião nunca se contenta nos limites do mundo espiritual. Todas as igrejas fazem afirmações sobre o universo físico, postulando a existência de milagres e intervenções divinas (quando foi baleado em um atentado, o papa João Paulo II afirmou que a mão de Nossa Senhora de Fátima o salvou. Dawkins prefere dar crédito ao time de cirurgiões que operou o sumo pontífice). Christopher Hitchens, em God Is Not Great (Deus Não É Grande, a sair em outubro, pela Ediouro), leva um argumento semelhante ao campo político: seria ilusório imaginar que a pregação de padres, rabinos e imãs só se estende aos fiéis, que não interfere em nada no dia-a-dia das sociedades seculares. As religiões estão sempre tentando influenciar políticas públicas, especialmente quando questões morais e sexuais estão em jogo. Aliás, Hitchens, com sua peculiar ironia, se refestela ao tratar da obsessão religiosa por pureza sexual: “Os lunáticos homicidas do 11 de setembro foram talvez tentados pelas virgens do Paraíso islâmico, mas o mais revoltante é que, como muitos de seus camaradas de jihad, eles mesmos eram virgens”.

A questão fundamental levantada pelo ateísmo, porém, está além dos embates entre cientistas e sacerdotes ou da tensão entre a Igreja e a sociedade laica. É um território minado da filosofia: a existência de Deus não pode ser comprovada, mas tampouco há como negá-la. O filósofo americano Richard Rorty (morto no início de junho), em um ensaio de O Futuro da Religião (Relume-Dumará) – livro em co-autoria com o italiano Gianni Vattimo –, chega a dizer que essa é uma “questão ruim”: não pode ser decidida e, portanto, deve ser abandonada. Rorty preferia declarar-se anticlerical, e não ateu, pois “o anticlericalismo é uma perspectiva política, e não epistemológica ou metafísica”. Dawkins arrisca-se nessa área de indecisões: sim, ele admite, é impossível negar Deus, mas nem por isso ateísmo e teísmo são hipóteses equivalentes. A evolução parte de elementos simples para chegar a formas complexas como o olho ou o cérebro humano. A hipótese teísta seria uma inversão dessa lógica: coloca uma inteligência complexa como origem de todo o universo. Não se trata, portanto, de dizer que Deus não existe: ele seria apenas muito, muito improvável.

Darwin é a referência fundamental de Dawkins, e Dennett também recorre ao filósofo escocês David Hume. Hitchens às vezes cita O Futuro de uma Ilusão, a crítica de Sigmund Freud às religiões. Friedrich Nietzsche, o alemão que se propôs a derrubar a moral judaico-cristã com seu martelo filosófico, só aparece marginalmente nesses autores – mas é fundamental para Michel Onfray. O francês contesta o famoso slogan de Assim Falou Zaratustra, “Deus está morto”. “Não se mata uma ficção”, diz Onfray. Mas Onfray reconhece em Nietzsche a fundação para “uma outra moral, uma nova ética, valores inéditos”. Ao contrário dos outros livros, Tratado de Ateologia traz um antiquado ardor utópico, ainda que de contornos vagos. A crítica ao islamismo é um ponto forte – e polêmico – do livro. “O Corão não permite a religião à la carte”, diz Onfray. Ou seja, o muçulmano não pode fazer como os cristãos e judeus modernos, que tendem a escolher os preceitos que vão ou não seguir nos textos sagrados. O Islã seria “estruturalmente arcaico” e totalitário.

Onfray recupera figuras obscuras da história das idéias, como Jean Meslier (1644-1729), um abade que rompeu com a Igreja para escrever panfletos anti-religiosos que estariam entre as primeiras obras de franco ateísmo da história. A palavra “ateu” sempre foi usada para caracterizar heresias ou crenças desviantes. A negação efetiva de Deus, porém, era uma impossibilidade teórica no mundo imerso em religião anterior ao Iluminismo. A historiadora da religião Karen Armstrong diz que ateus de fato só começam a surgir no fim do século XVIII. Não é de estranhar que o recente ensaísmo de propaganda atéia busque uma certa coloração heróica: o ateu, afinal, é uma criatura relativamente recente sobre a face da Terra, e como tal ainda tem de se afirmar.

Dawkins, Onfray e Hitchens deixam a sugestão temerária de que o mundo seria melhor sem religião. Eis outra hipótese que simplesmente não pode ser testada. O que se pode afirmar, porém, é que a crença em Deus não é necessária para uma vida correta. A moral não é, como Nietzsche sugeria, uma impostura do cristianismo: o senso do certo e do errado, do justo e do injusto, transcende as religiões e, em certa medida, está impresso na natureza humana. Dennett observa que mesmo um ateu pode e deve cultivar valores sagrados, como a verdade, o amor, a democracia. E uma vida sem Deus tampouco precisa ser vazia de sentido, como bem demonstrou o filósofo galês Bertrand Russell: “Eu acredito que, quando eu morrer, irei apodrecer, e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos”.

FRASES

A Santíssima Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma deusa de fato, embora não seja chamada assim. O panteão católico é inflado ainda pelos santos, que, se não são semideuses, têm poderes de intercessão em áreas especializadas que incluem dores abdominais, anorexia, desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia católica é não só a sua qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem. É tudo despudoradamente inventado.”
Richard Dawkins, biólogo inglês, em The God Delusion

Cerca de 150 versículos do Corão justificam e legitimam a guerra santa, o jihad. É o suficiente para fazer naufragar as duas ou três frases muito inofensivas que exortam à tolerância ou à recusa da coação em matéria de religião (!). Em tal oceano de sangue, quem pode ainda se dar ao trabalho de se deter nas duas ou três frases que exortam à humanidade e não à barbárie?”Michel Onfray, filósofo francês, em Tratado de Ateologia

“Nem é preciso dizer que nenhum dos eventos repulsivos e desordenados que o Êxodo narra aconteceu. Não houve fuga do Egito, nem peregrinação pelo deserto, e nem a conquista dramática da Terra Prometida – (…) os horrores e crueldades e loucuras do Velho Testamento. E quem – a não ser por sacerdotes antigos que exercem o poder através do método consagrado da imposição do terror – poderia desejar que esse novelo emaranhado de fábulas seja verdadeiro?” Christopher Hitchens, jornalista americano, em God Is Not Great

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Precisamos salvar as crianças das escolas

O infante Garschagen mostra à coleguinha o esboço do seu primeiro romance que, segundo ela, iria rivalizar com o clássico A Pequena Montanha Mágica. Na foto é possível perceber o olhar de admiração que ela lança sobre o work in progress

Façamos o seguinte: decoremos esse texto que vai logo abaixo - no meu caso, imprimir e levar no bolso é fundamental, pois sou péssimo para decorar. E, claro, exercitemos as sugestões dadas pelos especialistas ouvidos pelo El Pais. Nada de tansformar a leitura numa obrigação ou naquela coisa chatérrima a que estamos acostumadoa na escola. Leitor se forma em casa. Precisamos salvar as crianças das escolas.

Nuevos aliados de la lectura

WINSTON MANRIQUE SABOGAL

A partir de los 12 años se presenta la mayor deserción de lectores. Un grupo de expertos da claves para incentivar la lectura que no debe ser excluyente de las otras formas de ocio de los menores que empiezan a descubrir el mundo: lecturas voluntarias y nunca obligatorias, dejar que ellos elijan, participar en los clubes de las bibliotecas e interactuar en los chats de literatura juvenil.

Antes que nada hay que saber cómo son los jóvenes de hoy para poder incentivar y fomentar la lectura entre ellos, coinciden los especialistas.

“Ellos intentan tener un grado de independencia en sus gustos, prácticas y actitudes antes que las otras generaciones. Hay que aprender a respetarlos y comprenderlos”, pide Pedro Cerrillo del Cepli (Centro de Estudios y Promoción de la Lectura y Literatura Infantil y Juvenil).

“Los chavales se mueven como en un triángulo: amigos, familia y colegio. La principal referencia es los amigos; la familia ya no es una fuente de oposición tan fuerte, incluso es un referente positivo; mientras el colegio tiene ahora las referencias negativas por el mayor rol que ha adquirido de disciplina y obligatoriedad. Ya no hay tantas tribus urbanas, y no es que no tengan intereses, lo que sucede es que los motivan otras cosas como la música o el mundo de internet”, asegura. Elsa Guiar, gerente editorial de SM de 6 a 18 años.

“Es la población escolarizada más alta de la historia de España, casi el ciento por ciento. Son partícipes y coprotagonistas de una cultural global donde su capacidad de lectura sobre fenómenos internacionales es más amplia. Pertenecen a la generación de las nuevas tecnologías y su facilidad de acceso a la información es apabullante. Pueden servirnos de guías en ese nuevo mundo. Hay que entenderlos”, sugiere Antonio Basanta, vicepresidente ejecutivo de la Fundación Germán Sánchez Ruipérez.

Claves para acercarse a los libros

- A partir de los 14 años los chavales ya son prácticamente adultos en sus gustos literarios, y hay que respetarlos.

- Es fundamental no imponer la lectura. Proponerla como invitación y nunca como obligación o castigo porque así se le sataniza. Los libros obligatorios suelen ser perjudiciales para descubrir el gusto por la lectura.

- Dejar que sean ellos mismos quienes elijan sus libros y lecturas.

- Sugerir lecturas desde el convencimiento y dando ejemplo.

- Las lecturas compartidas con los menores son buenos pretextos para establecer contacto y diálogo con ellos.

- Proponer libros que hayan sido pensados para los jóvenes.

- Crear espacios físicos y temporales.

- Las bibliotecas públicas están fomentando clubes de lectura ideales para esta práctica y para el diálogo entre adultos y jóvenes.

- No empeñarse en que lean a los clásicos porque la mayoría de éstos no fueron escritos para el público juvenil. Esa inversión de los hechos es nefasta para descubrir el placer por la lectura.

- Leer no sólo significa leer narrativa; es también acercarse a la enciclopedia, a los periódicos, a las revistas, a los textos de internet o al cómic. Estas lecturas recuperan o crean poco a poco el hábito lector.

- Hay que tener en cuenta la literatura clásica contemporánea en todos sus géneros.

- No hay que evitar la literatura más comercial. Si en otra época se leían libros del Oeste o a Corín Tellado, ahora existen otros temas o autores de best sellers que llaman la atención de los jóvenes. No debe haber lecturas excluyentes.

- Es un error querer homologar los criterios, intereses y gustos literarios de los adultos con los de los hijos o jóvenes en general.

Sin miedo al al ciberespacio

Los especialistas consultados son claros en afirmar que los padres y adultos en general no deben ver las nuevas tecnologías, que tanto interesan a los jóvenes, como enemigos de los libros y el conocimiento. Aconsejan que no hay que verlas desde el plano competitivo sino que hay que buscar fórmulas para que adolescentes y jóvenes aprendan a compaginar la lectura con el mundo del ciberespacio, amigos, deportes y otras formas de ocio que bien entendido siempre es fructífero. Algunos aspectos a tener en cuenta son:

- Reconocer que cada momento del desarrollo tiene unas prioridades.

- Comprender que ellos están empezando a descubrir el mundo y, por tanto, les surgen otros intereses.

- El verbo leer no admite imperativos.

- Tener claro que no se trata de competir con internet y otras actividades del ocio que despiertan el interés de los adolescentes y jóvenes. Lo que hay que buscar es que aprendan a compaginarlas todas. Ninguna en detrimento de otra.

- No hay que tenerle miedo a internet. Allí también se crean lectores, y hay juegos de ordenador que convierten al lector en protagonista. Incluso algunos despiertan capacidades muy buenas en ellos.

- La interacción entre el libro físico e internet está dando excelentes resultados. Los libros ofrecen la posibilidad de crear webs, foros o blogs donde los jóvenes participan activamente. Una de las pioneras fue Laura Gallego que con su trilogía Memorias de Idhún ha tenido éxito y sus lectores han conectado activamente con este libro a través del ciberespacio donde pueden compartir opiniones o preguntar sobre diversos asuntos. Incluso algunos hacen trailers o cortos sobre el libro o sus personajes que cuelgan en la red a través de YouTube.

- La interacción ha sacado al libro de la escuela para ponerlo en un espacio a la medida de los jóvenes.

Sugerencias de Antonio Basanta, Gemma Lluch, Pedro Cerrillo y Elsa Guiar.

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O cachorro do Rosseau

Só digo uma coisa: olha a cabeleira do Jejé! Será que ele é? Será que ele é?

Achei no El Pais esse texto bacana sobre o livro El perro de Rousseau, de David Edmonds e John Eidinov. Veja que, na briga com Hume, Rosseau mostra seu, digamos, caráter.

Tormenta de pasión y razón

LUIS FERNANDO MORENO CLAROS

Escrito como una crónica periodística con los salones parisienses como escenario, el nuevo título de David Edmonds y John Eidinov describe la tormentosa relación intelectual entre Rousseau y David Hume. Los dos pensadores poseían un temperamento desigual, pero de sus obras se desprende que la razón es en su fuero interno “esclava” de las pasiones.

A David Edmons y John Eidinov, ambos periodistas de la BBC, los conocemos ya por El atizador de Wittgenstein (Península, 2001), libro en el que, al igual que en El perro de Rousseau, trataron de la tormentosa relación intelectual entre dos grandes filósofos: los austriacos Karl Popper y Ludwig Wittgenstein. Así, partiendo de una circunstancia concreta que propició el acercamiento de ambos pensadores, los autores esbozan las biografías y el entorno en el que vivían para terminar informando del suceso que los relacionó al estilo de una crónica periodística. Si en El atizador… era la Viena de preguerra y el ambiente de Cambridge en los años cuarenta, en El perro de Rousseau gran parte de la atmósfera la constituyen los salones parisienses de esa época que Talleyrand denominó “los años más dulces” de Francia, en torno a 1760. Por aquel entonces, el filósofo escéptico escocés David Hume (1711-1776) pasó cerca de veinticuatro meses en la corte francesa, como diplomático de la Embajada británica. En los salones de las mujeres más ilustradas y elegantes de París, en los que brillaban estrellas intelectuales de la talla de D’Alembert y Diderot, también el corpulento, parco y amable Hume, conocido como “le bon David”, cosechaba simpatías y trababa conocimiento con una sociedad bien distinta a la inglesa, que lo tenía en menor estima tanto por su radical escepticismo religioso como por su origen escocés.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) tenía fama de hombre “salvaje” y solitario, admirado y denostado por igual con enconado fanatismo en Francia y Suiza; tolerado, perseguido, vuelto a tolerar y a perseguir por las autoridades francesas por socavar el poder establecido con escritos incendiarios por lo novedosos: El contrato social, Emilio o ese novelón sentimental, precursor de tanta literatura posterior, que fue La nueva Heloísa. Rousseau pasaba por ser un genio con todas las características prerrománticas de tal especie, pero en realidad era un hombre sensible y melindroso que sufría de paranoia y manía persecutoria; sustentado por protectoras que lo adoraban, porfiaba en que no quería sino vivir del dinero ganado con el sudor de su frente. El caso es que Rousseau, en un momento en que la persecución política se hizo real y corría peligro de ser encarcelado trabó conocimiento con Hume, y el autor del Tratado de la naturaleza humana terminó por llevárselo con él a Londres. Las peripecias que siguieron al viaje, los intentos de instalar al quisquilloso huésped en varios lugares en torno a la City procuraron serias incomodidades a Hume, pero lo que colmó el vaso fue una situación más violenta. Mientras Rousseau estaba en el exilio, en París circuló una supuesta carta de Federico II de Prusia en la que el monarca hacía mofa del filósofo ginebrino, de quien, por lo demás, era un devoto lector. La misiva fue una inspirada burla de Walpole y se decía que Hume conocía la broma y hasta contribuyó a ella. El revuelo que causó este hecho absurdo en la vida de los dos filósofos fue enorme; Rousseau terminó por acusar a Hume de orquestar una conspiración contra él. El escéptico escocés se defendió con ahínco llegando incluso a publicar todos los documentos relativos a la polémica. La prolija reconstrucción del encontronazo constituye el núcleo de este curioso libro.

Hay que añadir que Rousseau se marchó a Inglaterra acompañado de su perrito Sultán; el creador del buen salvaje, el enamorado de la humanidad, renegaba a menudo de los seres humanos particulares y solía proclamar que el cariño de un perro es el único refugio seguro para quien desconfía de la hipócrita fidelidad de sus semejantes. Hume y Rousseau eran dos personas de temperamentos desiguales. Mientras que este último se dejaba conducir por sus emociones, el otro se mostraba como un flemático enamorado de la razón. En realidad, jamás tuvieron algo de qué hablar. Pero lo paradójico es que Hume obró en su enfado con Rousseau con toda la ferocidad y demencia que había achacado a su antagonista: el escéptico dejó de serlo para sentir como un hombre apasionado, y es que también de sus obras puede conjeturarse una ominosa paradoja: que la razón es en su fuero interno dependiente y hasta “esclava” de las pasiones.

¿Y el perro de Rousseau? No hay anfibología en el título del libro: el lector descubrirá si el animalito tiene importancia en la crónica de estos hechos, anecdóticos y enrevesados, pero que poseen el don -y esto es lo principal- de trasladar nuestra imaginación a esa época crucial en la que respiraron personajes como James Boswell, el Dr. Johnson o Adam Smith, que también despuntan en esta entretenida historia.

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El restaurador

Garschagen restaura a memória que caiu no chão e se partiu.

Eu queria, como um competente restaurador, realçar nas memórias as coisas agradáveis e jogar solvente sobre as más lembranças. Se há o mito de que os insucessos e chateações moldam nosso caráter, uma vez moldado, que dê-se cabo deles e delas.

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