Cohen brothers

Nunca tolerei conversas chatas, pessoas deselegantes, gritaria, mau-cheiro e funcionário público. Isolei-me em casa. Eventos sociais me causavam coceiras terríveis. Preferi reler os livros de que gostei a me decepcionar com os jovens amantes de Carandiru. Os relacionamentos me aborreciam a níveis intoleráveis e o sexo gratuito com mulheres honestas virou um fardo pesado demais para um homem de minha idade. Meus poucos familiares não se falavam mais, uma das poucas coisas boas acontecidas na família desde a morte de meu pai.

Pensei que ia ser diferente. Agora revejo com a vista embaçada amigos perdidos, canalhas gentis, amantes da mocidade, conhecidos que ainda me devem e algumas pessoas que me odiavam com sincera devoção. Pensei que ia ser diferente. Neste lugar apertado e de cheiro doce de flores brancas nem posso indicar com o dedo a minha reprovação. “Saiam idiotas, saiam, daqui”. Minha voz não mais atingia nenhum plexo solar.

Uma mão cobriu minha testa e algumas gotas escorreram pelos vincos de minha pele ressecada. Meu irmão, que me tomou o carrinho de madeira na infância; as namoradas na adolescência; a empresa de papai na mocidade; e meu humor durante a vida. Meu irmão que chora sadicamente a perda de seu sparring preferencial. Meu irmão falido, cujo nome figura no meu testamento como beneficiário de um lindo cemitério na periferia. Meu irmão chora desatinamente enquanto eu rio com os miasmas.

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