Black sweet angel

Ela deu um bico nas chamadas “condições adversas”. Filha de um mecânico de automóveis e de uma professora que participava de campanhas pelos direitos civis, freqüentou escolas segregacionistas em Birmingham, Alabama, onde nasceu em 26 de janeiro de 1944. Saiu de lá para estudar literatura francesa em Nova Iorque, depois em Paris, França. Seu interesse por filosofia a levou até a Universidade Goethe, em Frankfurt, na Alemanha. Foi aluna, vejam só, de Theodor Adorno, autor de ensaios importantes como “Culture industry reconsidered” (“Indústria cultural reexaminada”). Quando voltou aos Estados Unidos, tornou-se professora da Universidade da Califórnia

O que tem isso demais? Espere um pouquinho, afobado. Respeitada na academia, em 1969 a professora universitária Angela Davis foi acusada de participar de ações armadas junto com os Panteras Negras e da tentativa de fuga de dois prisioneiros negros da prisão Soledad da Califórnia (que nome bonito para uma prisão). Três pessoas morreram na ação. Angela foi procurada pelo FBI por alguns meses. Conseguiu se manter livre durante um tempo com a ajuda dos Panteras, partido de defesa do direito dos negros cujos membros volta e meia se matavam em brigas entre as facções. Em 1971, foi presa e encarcerada durante 17 meses até ser julgada e considerada inocente. Nesse período, artistas, intelectuais e ativistas realizaram diversas manifestações pedindo sua libertação.

Pegue na minha mão, leitor afobado, e saiba como Angela se enfiou nessa enrascada. No final dos anos de 1960 ela participava ativamente de uma campanha para melhoria das condições carcerárias (E você pensou que isso só acontecia aqui, né? Confessa, vai). Cada dia mais envolvida, descobriu a história de dois afro-americanos, George Jackson e W. L. Nolan, que haviam fundado um diretório dos Panteras Negras na Prisão Soledad da Califórnia. “There’s coming a shitstorm”, já dizia Norman Mailler (“Vem aí uma tempestade de merda”). Houve uma tentativa frustrada para libertar os dois e Angela foi tida como culpada e presa.

Os atos em prol de sua liberdade pipocaram em outros estados americanos e países. Numa manifestação na Place de la Bastille, em Paris, Bianca e Mick Jagger, cantor do Rolling Stones, grupo no auge do sucesso, declararam seu apoio a Angela. Apesar da admiração do cantor pela professora que não tinha medo de expressar sua opinião, Jagger fica chocado ao ver alguns jovens empunhando a bandeira da antiga URSS, já naquela época famosa por dar cabo de intelectuais como Angela. Inteligentemente, deixa o local perplexo e em casa escreve a letra de “Sweet Black Angel” (e eu nunca pensei que fosse elogiar o senhor Jagger). Angela já era comunista, tadinha.

Em dia 13 de janeiro de 1970, um guarda de Soledad matou Nolan e dois outros prisioneiros negros. O Grande Júri do condado de Monterey, dias depois, decidiu que o guarda cometeu homicídio justificado, algo como no cumprimento do dever que tanto vemos por aqui. A segunda “shitstorm” veio quando, meses depois, um guarda foi assassinado. George e outros dois prisioneiros, John Cluchette e Fleeta Drumgo, foram indiciados pela morte sob a alegação de que Jackson queria vingar a morte de seu amigo Nolan. Acabou? Não, violão. A terceira “shitstorm” se deu em 7 de agosto de 1970. Jonathan Jackson, de 17 anos, irmão de George, invadiu a sala da corte do condado de Marin, com cara de poucos amigos e empunhando uma metralhadora. Tomou como refém o juiz Harold Haley e exigiu que seu irmão, John e Fleeta fossem libertados. Como a rapadura não é mole, Jonathan foi alvejado e morto quando tentava fugir do tribunal.

Jackson continuou enfrentando a cana dura e publicou dois livros, “Cartas da prisão” (“Letters from prison”) e “Irmão Soledad” (“Soledad Brother”). E eis que vem a quarta “shitstorm”, entoada por anjos e suas trombetas. No dia 21 de agosto de 1971, George foi alvejado no pátio da prisão. Portava uma pistola automática 9mm, segundo a versão oficial, a mesma que encerrou o caso como tentativa de fuga. Só isso? Não, leitor querido. Os guardas acusaram Angela de ter dado a arma para George.

Angela foge mais uma vez. O FBI a classifica como a criminosa mais procurada do país. Foi presa novamente, dois meses depois, num motel de Nova Iorque. O governador da Califórnia na época, Ronald Reagan, proibiu-a de lecionar nas universidades do estado. Libertada por falta de provas, Angela foi trabalhar como professora de estudos afro-americanos na Claremont College (1975-77) e depois na Universidade do Estado de São Francisco na cadeira de mulheres e étnica.

Em 1979, visitou a União Soviética, onde foi premiada com o Prêmio Lênin da Paz (ahn?) e recebeu o título de professora honorária da Universidade Estatal de Moscou. Por duas vezes, em 1980 e 1984 concorreu à vice-presidência dos Estados Unidos pelo Partido Comunista. Leitor, sei que irá relevar o fato dela ser comunista (e obviamente comer criancinhas) e participar de passeatas (compartilhando odores diversos).

Mulher, negra, intelectual, professora, comunista, ativista. Angela Davis tornou-se símbolo do cidadão oprimido e da luta pela defesa dos direitos dos negros e justiça social. Angela ainda é professora, hoje do Departamento de Filosofia da Universidade da Califórnia, e autora de vários livros, como “If they come in the morning: voices of resistance” (Se chegarem pela manhã: vozes da resistência”), de 1971, análise marxista da opressão racial na América; “Angela Davis: An Autobiography” (“Angela Davis: uma autobiografia”, de 1974; “Mulheres, raça e classe social” (“Women, Race and Class”), de 1981, sobre o movimento feminista; e o mais recente “Blues Legacies and Black Feminism” (“Herança do blues e feminismo negro”), que aborda a contribuição das mulheres negras (Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith e Billie Holiday) através do blues.

“Apesar de nossas conquistas, acho que hoje é o pior momento para o negro nos Estados Unidos, com exceção do final da escravidão”, disse Angela em entrevista para a revista Raça Brasil, onde ela revelou que 700 mil mulheres e homens negros estão encarcerados nas prisões americanas e que um terço dos jovens negros está na prisão.

Discorde-se ou não do que Angela Davis fez, ou do seu comunismo, impressiona como reagiu aos contratempos, perseguições e se manteve ativa. Sem nunca propor a instalação de um Tribunal de Crimes contra a Melanina para imolar os brancos, pardos ou amarelos-hepatite como eu. Dubidu.

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