Bouvard e Pecuchet
Li os quatro livros publicados por Diogo Mainardi, que outro dia deu um cacete em figurinhas conhecidas da imprensa e chamou Ratinho de jornalista. Eh! Eh! Mainardi é um grande escritor, debochado, cruel e nem aí para as convenções. Há imagens mil em suas quatro obras, dessas que ficam martelando e podem ser contadas aos risos em qualquer conversa animada.
Duas para animar o papo: em Arquipélago, os sobreviventes da inundação da cidade estão tentando, de jangada, achar território. Um dos mastros cai sobre o braço de um deles, que grita desatinadamente. Não há jeito, cortam o braço. Perdidos há meses, qualquer indicação serve como referência para mudarem o curso. Não vacilaram ao ver que o braço mutilado que continuava debaixo da madeira apontava na diagonal: seguiram a indicação do dedo rígido, na beirola da putrefação. Em Polígono das secas, pai e filho ficam presos numa caverna. O filho morre. O pai, sem nada para fazer, cata pedrinhas e treina a mira na boca do menino teso.
Estou preparando um ensaio sobre seus livros e pretendo fazer um perfil. Vou balebando e conto quando der à luz.
***
A pedido de um amigo fui buscar um documento com o filho do cronista Rubem Braga, Roberto, que ainda mora na famosa cobertura do pai. Fui para lá todo animado, achando que ia conhecer o lugar onde o PIB literário reunia-se para bebericar. Nada. Da escada, recebi um envelope pardo e um bom dia ligeiro que se perdeu nas costas de quem deveria ter sido um bom anfitrião. Eu sou um cara tão legal, poxa.
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