Anti-semita como piada de português
“A paixão do Cristo”, segundo mais correta tradução apontada por um amigo, é um belíssimo filme. Fotografia inteligente, maquiagem correta e direção impecável. Mel Gibson fez o mais verdadeiro filme sobre as últimas horas do Cristo na terra. Vi quase todos os chamados filmes bíblicos, a maioria bobinhos de dar dó, sentimental ao extremo. Na obra de Gibson não, o sofrimento é tão intenso que nos faz sentir culpados de todos os pecados do mundo, o que o diretor queria, nós não. As cenas de violência estão ali, cruas, para reforçar a culpabilidade dos homens. Mas impingir a culpa na humanidade pela morte de Cristo é tão insensato quanto colocar todo o povo judeu no mesmo saco daqueles que pediram a crucificação. Bilu, bilu.
Aquele grupo de judeus sacerdotes, homens e mulheres queriam punir o Nazareno, sob orientação de um dos líderes religiosos. Não foi todo o povo judeu nem todos os sacerdotes. Aí entra um componente político de preservação do status quo ameaçado pela pregação de Cristo. Nesse aspecto, o filme é tão anti-semita quanto piadas de português.
Antes de ver o filme, na terça-feira, li dezenas de artigos, reportagens, críticas e resenhas sobre o filme, de autores católicos (de linhagens diferentes) a agnósticos, ateus e não-resolvidos. Os católicos inteligentes, de maneira geral, concordaram quanto à veracidade do filme. Dos textos na net, gostei especialmente de “A guerra contra Mel Gibson”, de Gary North, e “Capturing the culture” , de Richard Grenier, muito bons, ambos indicados pelo sempre atento De Polli).
A escolha do aramaico e do latim foi fundamental para criar essa áurea de filme definitivo. Li alguém, se não me engano a Miss Veen, dizendo-se cansada em ouvir Jesus falando inglês, no que concordo. O aramaico, ao contrário do português, tem sonoridade “fraturada”, como música dodecafônica. E transmite um sofrimento dos diabos (ops!).
Pela primeira vez me interesso pela leitura dos Evangelhos. E amigos católicos, na esperança de salvar uma alma libertária, me aconselham leituras mil. Lerei, claro, até para contra-argumentar quando vierem me dar petelecos.
Confesso ter saído do cinema com dores pelo corpo e quase me sentindo culpado por tudo aquilo. Minha sorte foi ver, no dia seguinte, num desses canais por assinatura, o making off da “Paixão”. Voltar à realidade, redescobrir que a mão que recebe o cravo com violência era uma prótese; que os cortes no corpo de JC eram trabalho de duas horas da turma da maquiagem. Foi uma catarse. Só faltou o uísque.
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