Archive for Abril, 2004

Beware your heads!

O homem voltou, mais violento, mais sangrento, mais misógino, mais afiado. Enfim, vão lá dar uma espiada no meu único amigo que fala grego, latim e português. Até que enfim, né Rafael!

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Emoções demais dão enxaqueca

Lendo esta semana reportagens sobre o processo judicial enfrentado pelo cantor e compositor cachoeirense Roberto Carlos, acusado de plágio na música “O careta”, lembrei da minha sorte em não ter sido o visitante de número 50 mil da casa de cultura que leva o nome do cantor, localizada lá em Cachoeiro de Itapemirim, onde morei até o início de 2003.

Uma vítima, me diz o informativo da prefeitura, foi surpreendida com o alvoroço dos funcionários e com o diretor da casa que sacou o violão como uma pistola e desfiou o rosário, quer dizer, composições do tal rei (“Meu Pequeno Cachoeiro”, “Detalhes” e “Outra Vez”). Eu, que sou cardíaco, não resistiria a tamanha emoção.

O texto do informativo ainda diz que os funcionários ficaram muito emocionados. A emoção também foi a tônica da festa em comemoração ao aniversário de Roberto Carlos neste mês de abril (T. S Eliot estava certo quando em seu Waste land escreveu “abril é o mais cruel dos meses”). A reportagem do jornal local Folha do E. Santo do dia 19 de abril disse que a “cerimônia emocionou os fãs do Rei” e ainda “teve bolo, salgadinhos, refrigerante e muita música (sic)”. Eu, se prefeito, teria cortado o ponto de todo mundo. Fazer festa durante o expediente? Nananinanão.

A reportagem só me deixou intrigado com uma coisa: segundo informações dos funcionários, “dentre os visitantes, estavam presentes fãs de toda parte do país, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, além dos cachoeirenses, que também marcaram presença”. Está certo que Cachoeiro é a capital secreta, coisa e tal, mas não fazer mais parte do Espírito Santo é nova para mim. É, talvez seja até bom.

Outro fato que me deixou bastante emocionado foi a doação da coleção dos discos de vinil do cantor pelo prefeito municipal. Principalmente, pela justificativa do chefe do executivo, que, segundo o informativo do Município, disse ser “impossível ouvir as músicas em aparelhos modernos que só oferecem entrada para CDs e DVDs”. Disse mais: “Fico tranqüilo, sabendo que na Casa de Cultura Roberto Carlos os discos serão conservados”. É, sem aparelhos antigos para ouvi-los só resta mesmo serem conservados. Vocês, leitores, são muito maldosos mesmo. Se eu fosse o prefeito já teria doado essa coleção há muito tempo. Desde antes da invenção dos CDs ou da criação da tal casa.

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Words, words, windows

Minhas palavras não abalam, não instigam, não perfuram nem ventilam. Minhas palavras não respiram, não transpiram, não debulham nem inspiram. Minhas palavras não afinam, não conquistam, não aproximam nem comovem. Minhas palavras não cortam, não sangram, não envergonham nem fazem corar. Minhas palavras não têm vida, não têm alma, não têm corpo nem odores da transpiração. Minhas palavras são como “as palavras de um morto que se modificam nas entranhas dos vivos”. Minhas palavras não são cruéis, bondosas, sarcásticas nem afiadas. Minhas palavras não têm gosto, sal, salitre ou breu. Minhas palavras não tem inteligência, charme, polidez ou sofisticação.

Minhas palavras, coitadas, não fazem encher nem essa caixa de comentários.

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The wasp land

Cruel é o mais abril dos meses.

(sob licença de T. S Eliot)

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Anti-semita como piada de português

“A paixão do Cristo”, segundo mais correta tradução apontada por um amigo, é um belíssimo filme. Fotografia inteligente, maquiagem correta e direção impecável. Mel Gibson fez o mais verdadeiro filme sobre as últimas horas do Cristo na terra. Vi quase todos os chamados filmes bíblicos, a maioria bobinhos de dar dó, sentimental ao extremo. Na obra de Gibson não, o sofrimento é tão intenso que nos faz sentir culpados de todos os pecados do mundo, o que o diretor queria, nós não. As cenas de violência estão ali, cruas, para reforçar a culpabilidade dos homens. Mas impingir a culpa na humanidade pela morte de Cristo é tão insensato quanto colocar todo o povo judeu no mesmo saco daqueles que pediram a crucificação. Bilu, bilu.

Aquele grupo de judeus sacerdotes, homens e mulheres queriam punir o Nazareno, sob orientação de um dos líderes religiosos. Não foi todo o povo judeu nem todos os sacerdotes. Aí entra um componente político de preservação do status quo ameaçado pela pregação de Cristo. Nesse aspecto, o filme é tão anti-semita quanto piadas de português.

Antes de ver o filme, na terça-feira, li dezenas de artigos, reportagens, críticas e resenhas sobre o filme, de autores católicos (de linhagens diferentes) a agnósticos, ateus e não-resolvidos. Os católicos inteligentes, de maneira geral, concordaram quanto à veracidade do filme. Dos textos na net, gostei especialmente de “A guerra contra Mel Gibson”, de Gary North, e “Capturing the culture” , de Richard Grenier, muito bons, ambos indicados pelo sempre atento De Polli).

A escolha do aramaico e do latim foi fundamental para criar essa áurea de filme definitivo. Li alguém, se não me engano a Miss Veen, dizendo-se cansada em ouvir Jesus falando inglês, no que concordo. O aramaico, ao contrário do português, tem sonoridade “fraturada”, como música dodecafônica. E transmite um sofrimento dos diabos (ops!).

Pela primeira vez me interesso pela leitura dos Evangelhos. E amigos católicos, na esperança de salvar uma alma libertária, me aconselham leituras mil. Lerei, claro, até para contra-argumentar quando vierem me dar petelecos.

Confesso ter saído do cinema com dores pelo corpo e quase me sentindo culpado por tudo aquilo. Minha sorte foi ver, no dia seguinte, num desses canais por assinatura, o making off da “Paixão”. Voltar à realidade, redescobrir que a mão que recebe o cravo com violência era uma prótese; que os cortes no corpo de JC eram trabalho de duas horas da turma da maquiagem. Foi uma catarse. Só faltou o uísque.

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Viva la diference

Lá pela 27ª long neck o vizinho coloca o acústico do Zeca Pagodinho. Aí, sabe como é, cerveja coisa e tal e o pé insiste em acompanhar a marcação do bumbo. Nananinanão. Voei para o armário, saquei um malte. Antes mesmo do gole assentar, já estava eu, lépido e fagueiro, imponentemente, cantarolando La Bohème e disputando com meu vizinho no volume de decibéis.

É a diferença básica entre as bebidas.

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Campbell’s Soup

O apelido de Andy Warhol era Warhola. Warhola, ouviram bem? Diante disso, nada tenho mais a dizer.

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Serigrafia, ou a gangue da Pop Art (II)

Os críticos de arte na década de 1970 centraram fogo nos artistas Pop acusando-os de terem se rendido ao modo de produção capitalista. Escreviam que os Pop Artists colocavam o mercado no pedestal e reduziam a arte a simples mercadoria. Como se vê hoje, opiniões corretas, embora permeadas de marxismo e, portanto, compreensíveis para a época. Tomando por base o ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, escrito por Walter Benjamin em 1936, encontramos dois caminhos de análise para a Pop: a reprodução de uma obra em várias, permitindo o acesso de mais pessoas; a reprodução em série de elementos numa mesma obra ou em várias delas, como foi feito pelos artistas Pop. Aqui, temos o tratamento da arte como a produção de torneiras. E quem produz torneiras ou seringas visa a venda e o lucro. Não vejo outra identificação mais próxima do que foi a Pop Art.

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