Archive for Março, 2004
Expiação substitutiva, ou tales from the darkness
Veja bem, quando leio que um pastor morreu ontem, vítima de infarto, dentro da sala de um cinema em Belo Horizonte (MG), enquanto assistia ao filme “A Paixão de Cristo”, lembro da frase de Mel Gibson, em entrevista à New Yorker: “Eu quis levar o espectador até lá”. Um brasileiro ele conseguiu. Só espero que a imprensa americana não tome conhecimento da história.
O sujeito não era cardíaco. O jornalista escreveu que familiares e amigos não acreditavam que a morte tinha sido causada pelo filme. Mas o repórter, para escrever a matéria, deve ter sapecado esta maravilhosa pergunta. E esperava, obviamente, uma resposta afirmativa. Para fechar de maneira monumental, largou essa: “Conforme colegas, Soares pertencia à igreja evangélica Missão Amém”. Para mim, não há dúvidas quanto à causa mortis.
***
O que me chateia são essas mortes em locais públicos. Algo bastante deselegante. O fim da linha devia ser algo privado.
No comments"By appointment to her majesty"
O que eu não daria, agora, por um Chivas Regal.
(Final: Uma pequena preponderância de sherry, mas bom acabamento final a fumo.)
J’accuse!
“Imprensa é a arte de dizer que Lord Jones morreu a quem nunca soube que Lord Jones existiu” (Chesterton).
No comments"Que bom revê-lo, Dr. (…)"
Trovões anunciaram sua volta. E logo logo a fumaça do cigarro novamente ocultava-lhe o nome e o cheiro do malte realçava suas palavras. “Zaratustra! Zaratustra!”. Não sua besta. É ele, como direi. Bem, não posso dizer. Mas ele voltou, mais licencioso que nunca.
No commentsA comissão Halpern
Escrevi uma resenha sobre o livro do Alexandre Soares Silva, Morte e Vida Celestina, pr’O Globo. Espero que saia na próxima semana. Se não sair, aviso a vocês daqui, deste manancial de boa vontade.
No commentsCasulo
Achei que podia cortejar borboletas. Achei que podia me esconder nas sombras das raparigas em flor. Achei que o colorido das asas faria da minha vida uma tela de Monet. Não controlei o choro ao vê-la seca e encolhida, como se recebesse um abraço apertado. Fechei os olhos. E sequei.
No comments…
Fiquei afastado por problemas de saúde de um familiar muito próximo. Espero ter força para continuar.
No commentsBom quando acaba
A melhor coisa do carnaval é a noite da quarta-feira de cinzas. Você olha para o lado e pensa: “até que enfim, acabou!” Se vocês não saíram de casa durante os festejos tribais, meus parabéns. Porque este velhinho que vos escreve teve que se sacrificar por uma pesquisa intelectual. A dúvida era: como se comporta o ser humano num ambiente selvagem? Meus caros, não vou relatar nenhuma surpresa porque, efetivamente, já sabia o que iria encontrar. Mas se isto afirmasse sem, digamos, dados científicos, vocês veriam apenas rabugens de pessimismo, como Brás Cubas. O que seria uma leviandade de vocês, leitores, para uma pessoa tão bondosa, charmosa e encantadora quanto eu.
Podemos separar os foliões do carnaval dos balneários em quatro subespécies:
1- Homo sapinhos (Homens juvenis): possuem cabeça pequena, dorso desenvolvido, braços arqueados (tal sapos), pernas finas, tatuagem de tribal e uma lata de cerveja no lugar da mão direita. Geralmente, as orelhas são de abano para suportar a pressão dos decibéis de antimúsica (Ivete Sangalo, Araketu, MC Serginho, Tribalistas, Bruno e Marrone etc). Não sabem dizer “oi” e a comunicação se limita a gestos deselegantes. Publicamente, o que é pior. Estão no carnaval para “pegar” as homo oxigenadus;
2- Homo oxigenadus (mulheres com os pêlos dourados, da cabeça à virilha): caracterizadas pelos grandes culotes, devido à concentração exagerada de gordura (cerveja e afins) e danças eróticas. Louras, morenas, negras, pardas ou amarelas, basta apenas ter uma parte dos pêlos dourados. Os dos dedinhos dos pés, por exemplo. Sabem falar “oi” e, depois de inebriadas, até conseguem dizer o grau de escolaridade. Estão lá para serem “pegas” pelos homo sapinhos;
3- Homo embriagadus (homem visivelmente inebriado, full-time): não sabem de onde vieram muito menos onde estão. Para eles, o futuro, quer dizer, daqui a pouco, a Deus pertence. Têm aquele aspecto, digamos, fedido. Caracterizam-se pelo dedo indicador esquerdo apontado para o alto numa inclinação 45º, nem mais nem menos. A outra mão arrasta uma latinha com um resto de cerveja quente. Querem as homo oxigenadus, mas sabem da completa impossibilidade. Para não perderem a viagem, soltam um fio de baba nos ombros indefesos. É melhor não prolongar a descrição;
4- Homo aluminium (catadores de latinhas de cerveja e afins): são predadores incômodos. Agem de forma comum: você está lá tomando sua cerveja ou refrigerante e sente alguém puxando sua camisa. Quando olha, o homo aluminium está praticamente pendurado na sua cintura com a mão na sua lata. Só deixa o local após conseguir seu objetivo. Alguns são bastante educados e até pedem, mas não arredam o pé até você terminar sua bebida. Uma estratégia desse grupo é o olhar alternando entre a latinha e seus olhos. O intuito é deixá-lo extremamente constrangido e apressá-lo na ingestão.
Como atravessar um feriado apesar deles. Preste bem atenção. Um olhar de desdém é mais do que recomendável. Seja mais educado que o normal. Eles odeiam coisas como “muito obrigado”, “com licença” ou “por gentileza”. Um cachimbo é um acessório muito bem vindo, mas fundamental mesmo é a bengala. Se esses atos anteriores não resolverem, nada que duas bengaladas bem dadas não resolvam. Sempre nos dedinhos mindinhos. Dói mais e os olhos ardem imediatamente, possibilitando uma saída rápida e elegante, se necessária.