Bom quando acaba

A melhor coisa do carnaval é a noite da quarta-feira de cinzas. Você olha para o lado e pensa: “até que enfim, acabou!” Se vocês não saíram de casa durante os festejos tribais, meus parabéns. Porque este velhinho que vos escreve teve que se sacrificar por uma pesquisa intelectual. A dúvida era: como se comporta o ser humano num ambiente selvagem? Meus caros, não vou relatar nenhuma surpresa porque, efetivamente, já sabia o que iria encontrar. Mas se isto afirmasse sem, digamos, dados científicos, vocês veriam apenas rabugens de pessimismo, como Brás Cubas. O que seria uma leviandade de vocês, leitores, para uma pessoa tão bondosa, charmosa e encantadora quanto eu.

Podemos separar os foliões do carnaval dos balneários em quatro subespécies:

1- Homo sapinhos (Homens juvenis): possuem cabeça pequena, dorso desenvolvido, braços arqueados (tal sapos), pernas finas, tatuagem de tribal e uma lata de cerveja no lugar da mão direita. Geralmente, as orelhas são de abano para suportar a pressão dos decibéis de antimúsica (Ivete Sangalo, Araketu, MC Serginho, Tribalistas, Bruno e Marrone etc). Não sabem dizer “oi” e a comunicação se limita a gestos deselegantes. Publicamente, o que é pior. Estão no carnaval para “pegar” as homo oxigenadus;

2- Homo oxigenadus (mulheres com os pêlos dourados, da cabeça à virilha): caracterizadas pelos grandes culotes, devido à concentração exagerada de gordura (cerveja e afins) e danças eróticas. Louras, morenas, negras, pardas ou amarelas, basta apenas ter uma parte dos pêlos dourados. Os dos dedinhos dos pés, por exemplo. Sabem falar “oi” e, depois de inebriadas, até conseguem dizer o grau de escolaridade. Estão lá para serem “pegas” pelos homo sapinhos;

3- Homo embriagadus (homem visivelmente inebriado, full-time): não sabem de onde vieram muito menos onde estão. Para eles, o futuro, quer dizer, daqui a pouco, a Deus pertence. Têm aquele aspecto, digamos, fedido. Caracterizam-se pelo dedo indicador esquerdo apontado para o alto numa inclinação 45º, nem mais nem menos. A outra mão arrasta uma latinha com um resto de cerveja quente. Querem as homo oxigenadus, mas sabem da completa impossibilidade. Para não perderem a viagem, soltam um fio de baba nos ombros indefesos. É melhor não prolongar a descrição;

4- Homo aluminium (catadores de latinhas de cerveja e afins): são predadores incômodos. Agem de forma comum: você está lá tomando sua cerveja ou refrigerante e sente alguém puxando sua camisa. Quando olha, o homo aluminium está praticamente pendurado na sua cintura com a mão na sua lata. Só deixa o local após conseguir seu objetivo. Alguns são bastante educados e até pedem, mas não arredam o pé até você terminar sua bebida. Uma estratégia desse grupo é o olhar alternando entre a latinha e seus olhos. O intuito é deixá-lo extremamente constrangido e apressá-lo na ingestão.

Como atravessar um feriado apesar deles. Preste bem atenção. Um olhar de desdém é mais do que recomendável. Seja mais educado que o normal. Eles odeiam coisas como “muito obrigado”, “com licença” ou “por gentileza”. Um cachimbo é um acessório muito bem vindo, mas fundamental mesmo é a bengala. Se esses atos anteriores não resolverem, nada que duas bengaladas bem dadas não resolvam. Sempre nos dedinhos mindinhos. Dói mais e os olhos ardem imediatamente, possibilitando uma saída rápida e elegante, se necessária.

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