Archive for Fevereiro, 2004
Strangers in the kitchen
“Marx não era alemão, era judeu”. Quando for preciso mentir, é melhor dizer o mínimo. O professor de história Charles Rankin, na verdade o criminoso de guerra nazista Franz Kindler (Orson Welles), perdeu a pipa nessa frase. Queria convencer o agente federal Wilson (Edward G. Robinson) de que não era quem na verdade era. Desfiando uma catilinária sobre a impossibilidade de um mundo pacífico, terminou sugerindo o que lhe parecia a solução do problema humano: extermínio. O agente federal nem desconfiaria da sandice, se o professor de história tivesse se contido. Porque só os alemães nazistas não conferiam aos judeus a nacionalidade alemã. Karl Marx (1818-1883), filósofo e economista, era tão alemão e judeu, aliás, quanto Albert Einstein (1879-1955), Rosa de Luxemburgo (1871-1919) e Olga Benário (1908-1942), mas nenhum deles, por mais brilhante, entrariam na conta da turma da suástica. Marx, além de judeu, era tão ateu quanto Sigmund Freud (1856-1939), além de ter originado o comunismo, igualmente odiado pelos nazistas, após lançar o livro O capital (Das Kapital).
O estranho (1946), de Welles, apresentado na mostra que levou o nome do diretor no Festival de Cinema do Rio (27 de setembro a 9 de outubro), explora o medo dos americanos nos primeiros anos do pós-guerra, que era descobrir que o leiteiro com cara de vovô gente-boa tinha feito sabão de milhares de judeus na Alemanha durante a Segunda Guerra. A fotografia do filme é belíssima, como nos demais filmes do diretor norte-americano, que, como poucos, abusava praticamente de todos os planos, aproveitando as sombras e conseguindo efeitos primorosos junto com o uso da música. Esta composição de recursos foi usada por Welles ao longo de sua carreira, desde o primeiro Cidadão Kane (1941), ao último e inacabado, The Other Side of the Wind (1974).
O que fazia a diferença em Welles era o olho de fotógrafo, taí porque o homem, que nos anos 1940 ficou doido pela noiva do diretor brasileiro Anselmo Duarte, o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, pelo O Pagador de Promessas, explorava tanto os ambientes fechados. E quando as tomadas eram externas, evitava os cortes, fazendo com que a câmara acompanhasse os atores, basicamente fechada neles.
Kindler era um fugitivo, apresentado como a cabeça má e brilhante do terceiro reich. Mais cruel e sedutor que Joseph Goebells e seu nariz adunco. Na pequena cidade de Conneticut esconde-se do mundo, como o exigente professor que se casa com a prendada Mary Longstreet (Loretta Young), filha do juiz presidente do Supremo Tribunal Federal, Judge Longstreet (Philip Merivale). Essas coisas não mudam. As pessoas continuam escolhendo esposas e maridos para se tornarem insuspeitos, não importam se já foram católicos, evangélicos, maçons ou corretores de seguros.
Segundo o filme, Kindler foi o responsável pela idéia da eliminação do povo judeu e pelos campos com essa finalidade. Só faltou dizer ter sido o primeiro incitador do ódio contra os judeus integrantes da sociedade alemã, autor de Minha Luta (Mein Kampf) e redator do jornal Der Stürmer, o pé de apoio da divulgação nazista. A verdade é que o anti-semitismo era algo bastante comum, mesmo de que de forma velada, há pelo menos 2.500 anos, como nos mostra Gerald Messadie, em seu História Geral do Anti-semitismo (Bertrand Brasil, 418 páginas). Por isso, a propaganda nazista foi tão eficaz: Hitler e seus ministros apenas estimularam esse ódio entre os alemães. Mas naqueles anos anteriores à Segunda Guerra, até nos Estados Unidos o preconceito contra os judeus era prática comum. O romance Focus (1943), de Arhur Miller, que virou filme, dá uma idéia de como as relações eram estranhas, tanto que o escritor não encontrava editora disposta a publicá-lo, por tratar o tema do anti-semitismo. A história é boa porque o preconceito incidia sobre um não-judeu, Larry Newman, que se tornou fisicamente parecido com um judeu ao usar óculos. Seu problema de vista fez com que toda a vizinhança ficasse míope e com alto grau de estigmatismo. Newman passou a sofrer intensa discriminação racial, que aumentou depois de sua paixão e casamento com Gertrude Hart, que, embora também não fosse, se parecia muito com uma judia.
Em O Estranho, Kindler era um sujeito extremamente vaidoso de sua inteligência e de seu poder de sedução, mas derrapou na própria língua. Wilson já tinha certeza de que encontrou o grande criminoso de guerra, mas não conseguia provas. Observando o comportamento do jovem cunhado do nazista percebeu que não havia muita simpatia pelo marido da irmã. Aproveitou-se disso e o convenceu a ajudá-lo, sob argumento infalível de que Mary Longstreet poderia ser morta. Kindler se apavorou quando percebeu que estava sendo cercado pelo agente federal e cometeu pequenos deslizes, que serão capitais. Mentiu para a esposa por duas vezes para tê-la como aliada. A primeira vez quando foi descoberto o corpo de seu ex-comandado na Alemanha, que levou Wilson até Kindler, e, depois, quando ela chegou no limite do desespero, a pediu que fosse à torre do relógio encontrá-lo. Ele queria que Mary subisse a escada cujos degraus foram serrados para que a morte parecesse acidental. Dupla falha.
Welles explorou até onde pode a conduta de uma sociedade quando recebe uma pessoa que não é dali: se essa pessoa for sedutora, educada e inteligente, é admitida, aparentemente sem reservas; mas se há quebra de confiança, todos se unem numa mesma trincheira para expulsar o “estrangeiro”.
Comprovada a farsa, Kindler se escondeu na torre do relógio, sua grande fixação que ajudou a desmascará-lo. Mary foi até lá e depois Wilson chegou. Uma briga, alguns tiros, até ali, ninguém morreu. Os habitantes se aglomeraram em frente à torre. E o desfecho veio com as badaladas da estranha paixão de Kindler.
Ninguém espere, obviamente em se tratado de tema tão delicado, um final que não seja feliz. O anjo da morte, dessa vez, não foi Joseph Menghele. Mas apareceu, frio e certeiro.
Um sanduíche de pepino, por favor
Ao encenar as peças de Oscar Wilde os atores dependem, essencialmente, de dois tipos de controles: o da respiração e o da afetação. As frases espirituosas do escritor inglês são geralmente longas e exige dedicação completa do diafragma, sem o que os diálogos soam como a embolada nordestina. Fazer do charme de um cavalheiro ou de uma dama da Inglaterra vitoriana uma composição afetada é transformá-los em infelizes e vulgares caricaturas. O oposto do que são as peças de Wilde.
A importância de ser fiel, em cartaz no Teatro Villa-Lobos (Copacabana-RJ), é uma peça fiel ao texto, o que já é grande coisa, mas razoável, de modo geral. A maioria dos atores parece querer se livrar logo das frases e as despejam sem o menor cuidado. A platéia acuada sente falta de ar. Se os diálogos são o que há de mais soberbo na peça, perdemos todos. Os que a leram, coçam as cabeças por não poder desfrutá-los comedidamente; os que vêem a história pela primeira vez não acompanham o ritmo. Para piorar, os atores Dalton Vigh (Algernon Moncrieff) e Brian Penido (João Worthing) perdem o tempo das frases hilárias. Isso faz com que usem recursos da voz para forçar o riso, como Penido, que carrega na pronúncia e nos faz temer que engula as próprias amídalas.
À história: João Worthing é o juiz de paz que inventou a existência de um irmão, Fiel, para rosetar em paz, colocando, obviamente, a culpa no irmão por seus falsos picassos. Ele não sabe de sua origem familiar. Foi abandonado numa bolsa de couro, na estação de trem Vitória. Tem uma pupila na casa de campo, a jovem Cecília Cardew, interpretada por Bárbara Paz. É amigo do flaneur Algernon Moncrieff, que também guarda sua mentira para esconder suas escapadas, o amigo doente Bumbury, que precisa de suas freqüentes visitas. Algernon é primo de Gwendolen Fairfax (Eloísa Cichowitz), por quem João Worthing é apaixonado. Para Gwendolen, como para todos na cidade, João disse se chamar Fiel. Eles querem se casar, mas a mãe da senhorita, Lady Bracknell (Nathália Timberg), quer para ela um marido rico e de boa família. Discussões, discussões até Worthing descobrir que seu passado o absolve das mentiras e de como é importante ser Fiel.
Nathália Timberg está ótima como Lady Bracknel. Sua dicção, no entanto, é angustiante. Engole as palavras para conseguir respirar e dar conta de completar as frases. Ficou com sotaque similar ao de Cambridge, na Inglaterra. Mesmo assim, uma autêntica e esnobe senhora inglesa. Bárbara paz, como Cecília, está bem, mas sem brilho. Eloísa Cichowitz, como Gwendolen, demorou a entrar na peça. Da metade pro final, entrou, embora continuasse a soar falsa como os produtos da Uruguaiana. Dalton Vigh tem um porte perfeito e uma voz ideal para o papel. Algumas vezes estamos diante de um dândi supremo. Poucas vezes, contudo. Problema de timing e postura. Timing, meus filhos, timing é tudo. Brian Penido deu um bico no Fiel criado por Wilde. Se no livro temos um sujeito que finge vacilar, o ator preferiu transformá-lo num paspalhão da maior estirpe e afetado até a medula. Claro que isso é um eufemismo para não dizer que João Worthing, o Fiel, virou um perfeito idiota na montagem do Grupo Tapa. Paulo Hesse, como o reverendo cônego Chasuble, está ótimo. Pontua as frases na hora certa, gestual na medida e consegue realçar até mesmo os atores que contracenam com ele. Lilian Blanc, no papel da governanta Srta. Prism, acertou em quase tudo. Derrapou apenas no fim, quando se defronta com Lady Bracknel. Um susto muito chinfrim ao ser descoberta e mais ainda o arrependimento por ter sumido com o bebê de uma família aristocrata. O melhor do elenco foi Guilherme Sant’Anna, como o criado Lane. Lembrou muito o Jeeves, de P. G. Wodehouse. Suas pequenas intervenções, muitas vezes com gestos ou tosses, foram primorosas. Acertou igualmente interpretando o velho mordomo Merriman, na casa de campo de João Worthing. O andar que ele impôs era hilário, a voz idem, os gestos ibidem. Transpôs o papel de importância menor com talento e brilhantismo.
Eduardo Tolentino de Araújo confirmou sua competência. Comandando o Grupo Tapa com honestidade, se consagra em peças clássicas, como a anterior Major Bárbara, de Bernard Shaw e Melanie Klein, de Nicholas Wright, encenada a primeira vez em 1993 e que entra em cartaz no Rio em março, protagonizada por Nathália Timberg e direção individual de Tolentino, sem a participação do Grupo Tapa. Em A importância de ser fiel respeita a obra de Wilde, pontuando as sugestões do texto com gestos dos atores. A movimentação no palco é perfeita, sem atropelos ou intervenções, digamos, física entre as personagens.
Os figurinos de Lola Tolentino dão conta do recado, reproduzindo as roupas e móveis do fim do século XIX. O cenário de Renato Scripilliti é econômico. As cortinas poderiam ter sido aquelas grandes e pesadas que se usavam nas residências da Inglaterra vitoriana. No chão do palco há reprodução de flores que imitam decoração art noveau, segundo o diretor “criadas pela indústria aludindo à artificialidade do mundo”. Não entendi, mas são de uma vulgaridade lastimável.
Ler e ver Oscar Wilde é obrigação moral e cívica de todo cidadão de boa índole e que não cospe no chão. A importância de ser Fiel (que nas melhores traduções é Prudente) é dos melhores textos do escritor inglês, assim como Um marido ideal e Uma mulher sem importância. Para Paulo Francis, era a obra-prima de Wilde. A montagem do Grupo Tapa merece uma espiadela pelo respeito ao autor. Nada daquele artesanato próprio de Gerald Thomas. Mosaicos são o fim da picada.
Nosso homem em Salvador
Eu ia hoje falar mais sobre minha viagem a Salvador. Desisti. Vou fazendo isso aos poucos. Dá tempo de lembrar as piores coisas e destilar com carinho. Descobri a importância de ser prudente.
No comments"O boêmio voltou para rever os amigos que um dia…"
Este manancial de boa vontade retorna mais cândido que nunca. Sem interrupções e falhas. Um texto por dia, exceto sábados, domingos e feriados, porque, afinal, alguém tem que beber.
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Muitos assuntos. A maioria não vale uma rosca. Vou balebando.
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Passei duas semanas em Salvador. Pelourinho três vezes. Bebi horrores. Só assim.
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Nasci em Salvador, das poucas coisas que confere charme aquela cidade. Parte do lugar é bonito. As ruas são mal sinalizadas para os forasteiros, incluindo pontos turísticos. E você corre o risco de ser atropelado por um rapaz negro de pé rachado que te pede redondos R$ 4,20 quando você oferece dois reais por alguma informação. R$ 4,20?
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Na avenida Paralela, que liga Salvador às praias do litoral norte, há uma estátua do finado Luís Eduardo Magalhães, filho do homem que não ouso dizer o nome (trabalhar de graça, nevermore). Diariamente, são colocadas margaridas aos pés da peça. Margaridas, ouviram bem? E dois soldados da polícia militar baiana, faça sol ou faça sol, estão lá escoltando a dita. Escoltando, ouviram bem? Juro que não consegui nem sentir ódio. Acarajé e cerveja estavam me deixando muito bonzinhos. Bebi somente uísque na última semana. E não comi nada, porque nunca como de barriga vazia.
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Li Fausto, a maior parte na praia, debaixo de uma providencial barraca e de uma camada extra-grossa de filtro solar, numeração GG. Quem pensou aí que praia não servia para nada? Quero escrever algo sobre o livro, mas emendei em Doutor Fausto, de Thomas Mann, para, digamos, fazer analogias. Se alguém aí souber de alguma edição da lenda de Fausto, de autor anônimo, me avise. Agradeço bem.
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Os subúrbios de Salvador continuam capengas, parte dos bairros históricos já pedem esmola nos sinais, a população média é tão feia quanto a do Rio de Janeiro, São Paulo ou Acre. O pior, no mais, é o batuque. Você tropeça nas pessoas que batucam. No ônibus, o rapazinho está lá batucando e cantando (ouviram bem? cantando, e alto). Nos carros, os sons são de batuques; a alma do soteropolitano médio batuca.
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Tem mais? Tem, sim senhor! Mas só amanhã.
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Fiquem agora com a programação normal. “Stravinski, Stravinski”. Tá bom, Stravinski.
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