Strangers in the kitchen

“Marx não era alemão, era judeu”. Quando for preciso mentir, é melhor dizer o mínimo. O professor de história Charles Rankin, na verdade o criminoso de guerra nazista Franz Kindler (Orson Welles), perdeu a pipa nessa frase. Queria convencer o agente federal Wilson (Edward G. Robinson) de que não era quem na verdade era. Desfiando uma catilinária sobre a impossibilidade de um mundo pacífico, terminou sugerindo o que lhe parecia a solução do problema humano: extermínio. O agente federal nem desconfiaria da sandice, se o professor de história tivesse se contido. Porque só os alemães nazistas não conferiam aos judeus a nacionalidade alemã. Karl Marx (1818-1883), filósofo e economista, era tão alemão e judeu, aliás, quanto Albert Einstein (1879-1955), Rosa de Luxemburgo (1871-1919) e Olga Benário (1908-1942), mas nenhum deles, por mais brilhante, entrariam na conta da turma da suástica. Marx, além de judeu, era tão ateu quanto Sigmund Freud (1856-1939), além de ter originado o comunismo, igualmente odiado pelos nazistas, após lançar o livro O capital (Das Kapital).

O estranho (1946), de Welles, apresentado na mostra que levou o nome do diretor no Festival de Cinema do Rio (27 de setembro a 9 de outubro), explora o medo dos americanos nos primeiros anos do pós-guerra, que era descobrir que o leiteiro com cara de vovô gente-boa tinha feito sabão de milhares de judeus na Alemanha durante a Segunda Guerra. A fotografia do filme é belíssima, como nos demais filmes do diretor norte-americano, que, como poucos, abusava praticamente de todos os planos, aproveitando as sombras e conseguindo efeitos primorosos junto com o uso da música. Esta composição de recursos foi usada por Welles ao longo de sua carreira, desde o primeiro Cidadão Kane (1941), ao último e inacabado, The Other Side of the Wind (1974).

O que fazia a diferença em Welles era o olho de fotógrafo, taí porque o homem, que nos anos 1940 ficou doido pela noiva do diretor brasileiro Anselmo Duarte, o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, pelo O Pagador de Promessas, explorava tanto os ambientes fechados. E quando as tomadas eram externas, evitava os cortes, fazendo com que a câmara acompanhasse os atores, basicamente fechada neles.

Kindler era um fugitivo, apresentado como a cabeça má e brilhante do terceiro reich. Mais cruel e sedutor que Joseph Goebells e seu nariz adunco. Na pequena cidade de Conneticut esconde-se do mundo, como o exigente professor que se casa com a prendada Mary Longstreet (Loretta Young), filha do juiz presidente do Supremo Tribunal Federal, Judge Longstreet (Philip Merivale). Essas coisas não mudam. As pessoas continuam escolhendo esposas e maridos para se tornarem insuspeitos, não importam se já foram católicos, evangélicos, maçons ou corretores de seguros.

Segundo o filme, Kindler foi o responsável pela idéia da eliminação do povo judeu e pelos campos com essa finalidade. Só faltou dizer ter sido o primeiro incitador do ódio contra os judeus integrantes da sociedade alemã, autor de Minha Luta (Mein Kampf) e redator do jornal Der Stürmer, o pé de apoio da divulgação nazista. A verdade é que o anti-semitismo era algo bastante comum, mesmo de que de forma velada, há pelo menos 2.500 anos, como nos mostra Gerald Messadie, em seu História Geral do Anti-semitismo (Bertrand Brasil, 418 páginas). Por isso, a propaganda nazista foi tão eficaz: Hitler e seus ministros apenas estimularam esse ódio entre os alemães. Mas naqueles anos anteriores à Segunda Guerra, até nos Estados Unidos o preconceito contra os judeus era prática comum. O romance Focus (1943), de Arhur Miller, que virou filme, dá uma idéia de como as relações eram estranhas, tanto que o escritor não encontrava editora disposta a publicá-lo, por tratar o tema do anti-semitismo. A história é boa porque o preconceito incidia sobre um não-judeu, Larry Newman, que se tornou fisicamente parecido com um judeu ao usar óculos. Seu problema de vista fez com que toda a vizinhança ficasse míope e com alto grau de estigmatismo. Newman passou a sofrer intensa discriminação racial, que aumentou depois de sua paixão e casamento com Gertrude Hart, que, embora também não fosse, se parecia muito com uma judia.

Em O Estranho, Kindler era um sujeito extremamente vaidoso de sua inteligência e de seu poder de sedução, mas derrapou na própria língua. Wilson já tinha certeza de que encontrou o grande criminoso de guerra, mas não conseguia provas. Observando o comportamento do jovem cunhado do nazista percebeu que não havia muita simpatia pelo marido da irmã. Aproveitou-se disso e o convenceu a ajudá-lo, sob argumento infalível de que Mary Longstreet poderia ser morta. Kindler se apavorou quando percebeu que estava sendo cercado pelo agente federal e cometeu pequenos deslizes, que serão capitais. Mentiu para a esposa por duas vezes para tê-la como aliada. A primeira vez quando foi descoberto o corpo de seu ex-comandado na Alemanha, que levou Wilson até Kindler, e, depois, quando ela chegou no limite do desespero, a pediu que fosse à torre do relógio encontrá-lo. Ele queria que Mary subisse a escada cujos degraus foram serrados para que a morte parecesse acidental. Dupla falha.

Welles explorou até onde pode a conduta de uma sociedade quando recebe uma pessoa que não é dali: se essa pessoa for sedutora, educada e inteligente, é admitida, aparentemente sem reservas; mas se há quebra de confiança, todos se unem numa mesma trincheira para expulsar o “estrangeiro”.

Comprovada a farsa, Kindler se escondeu na torre do relógio, sua grande fixação que ajudou a desmascará-lo. Mary foi até lá e depois Wilson chegou. Uma briga, alguns tiros, até ali, ninguém morreu. Os habitantes se aglomeraram em frente à torre. E o desfecho veio com as badaladas da estranha paixão de Kindler.

Ninguém espere, obviamente em se tratado de tema tão delicado, um final que não seja feliz. O anjo da morte, dessa vez, não foi Joseph Menghele. Mas apareceu, frio e certeiro.

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