Um sanduíche de pepino, por favor
Ao encenar as peças de Oscar Wilde os atores dependem, essencialmente, de dois tipos de controles: o da respiração e o da afetação. As frases espirituosas do escritor inglês são geralmente longas e exige dedicação completa do diafragma, sem o que os diálogos soam como a embolada nordestina. Fazer do charme de um cavalheiro ou de uma dama da Inglaterra vitoriana uma composição afetada é transformá-los em infelizes e vulgares caricaturas. O oposto do que são as peças de Wilde.
A importância de ser fiel, em cartaz no Teatro Villa-Lobos (Copacabana-RJ), é uma peça fiel ao texto, o que já é grande coisa, mas razoável, de modo geral. A maioria dos atores parece querer se livrar logo das frases e as despejam sem o menor cuidado. A platéia acuada sente falta de ar. Se os diálogos são o que há de mais soberbo na peça, perdemos todos. Os que a leram, coçam as cabeças por não poder desfrutá-los comedidamente; os que vêem a história pela primeira vez não acompanham o ritmo. Para piorar, os atores Dalton Vigh (Algernon Moncrieff) e Brian Penido (João Worthing) perdem o tempo das frases hilárias. Isso faz com que usem recursos da voz para forçar o riso, como Penido, que carrega na pronúncia e nos faz temer que engula as próprias amídalas.
À história: João Worthing é o juiz de paz que inventou a existência de um irmão, Fiel, para rosetar em paz, colocando, obviamente, a culpa no irmão por seus falsos picassos. Ele não sabe de sua origem familiar. Foi abandonado numa bolsa de couro, na estação de trem Vitória. Tem uma pupila na casa de campo, a jovem Cecília Cardew, interpretada por Bárbara Paz. É amigo do flaneur Algernon Moncrieff, que também guarda sua mentira para esconder suas escapadas, o amigo doente Bumbury, que precisa de suas freqüentes visitas. Algernon é primo de Gwendolen Fairfax (Eloísa Cichowitz), por quem João Worthing é apaixonado. Para Gwendolen, como para todos na cidade, João disse se chamar Fiel. Eles querem se casar, mas a mãe da senhorita, Lady Bracknell (Nathália Timberg), quer para ela um marido rico e de boa família. Discussões, discussões até Worthing descobrir que seu passado o absolve das mentiras e de como é importante ser Fiel.
Nathália Timberg está ótima como Lady Bracknel. Sua dicção, no entanto, é angustiante. Engole as palavras para conseguir respirar e dar conta de completar as frases. Ficou com sotaque similar ao de Cambridge, na Inglaterra. Mesmo assim, uma autêntica e esnobe senhora inglesa. Bárbara paz, como Cecília, está bem, mas sem brilho. Eloísa Cichowitz, como Gwendolen, demorou a entrar na peça. Da metade pro final, entrou, embora continuasse a soar falsa como os produtos da Uruguaiana. Dalton Vigh tem um porte perfeito e uma voz ideal para o papel. Algumas vezes estamos diante de um dândi supremo. Poucas vezes, contudo. Problema de timing e postura. Timing, meus filhos, timing é tudo. Brian Penido deu um bico no Fiel criado por Wilde. Se no livro temos um sujeito que finge vacilar, o ator preferiu transformá-lo num paspalhão da maior estirpe e afetado até a medula. Claro que isso é um eufemismo para não dizer que João Worthing, o Fiel, virou um perfeito idiota na montagem do Grupo Tapa. Paulo Hesse, como o reverendo cônego Chasuble, está ótimo. Pontua as frases na hora certa, gestual na medida e consegue realçar até mesmo os atores que contracenam com ele. Lilian Blanc, no papel da governanta Srta. Prism, acertou em quase tudo. Derrapou apenas no fim, quando se defronta com Lady Bracknel. Um susto muito chinfrim ao ser descoberta e mais ainda o arrependimento por ter sumido com o bebê de uma família aristocrata. O melhor do elenco foi Guilherme Sant’Anna, como o criado Lane. Lembrou muito o Jeeves, de P. G. Wodehouse. Suas pequenas intervenções, muitas vezes com gestos ou tosses, foram primorosas. Acertou igualmente interpretando o velho mordomo Merriman, na casa de campo de João Worthing. O andar que ele impôs era hilário, a voz idem, os gestos ibidem. Transpôs o papel de importância menor com talento e brilhantismo.
Eduardo Tolentino de Araújo confirmou sua competência. Comandando o Grupo Tapa com honestidade, se consagra em peças clássicas, como a anterior Major Bárbara, de Bernard Shaw e Melanie Klein, de Nicholas Wright, encenada a primeira vez em 1993 e que entra em cartaz no Rio em março, protagonizada por Nathália Timberg e direção individual de Tolentino, sem a participação do Grupo Tapa. Em A importância de ser fiel respeita a obra de Wilde, pontuando as sugestões do texto com gestos dos atores. A movimentação no palco é perfeita, sem atropelos ou intervenções, digamos, física entre as personagens.
Os figurinos de Lola Tolentino dão conta do recado, reproduzindo as roupas e móveis do fim do século XIX. O cenário de Renato Scripilliti é econômico. As cortinas poderiam ter sido aquelas grandes e pesadas que se usavam nas residências da Inglaterra vitoriana. No chão do palco há reprodução de flores que imitam decoração art noveau, segundo o diretor “criadas pela indústria aludindo à artificialidade do mundo”. Não entendi, mas são de uma vulgaridade lastimável.
Ler e ver Oscar Wilde é obrigação moral e cívica de todo cidadão de boa índole e que não cospe no chão. A importância de ser Fiel (que nas melhores traduções é Prudente) é dos melhores textos do escritor inglês, assim como Um marido ideal e Uma mulher sem importância. Para Paulo Francis, era a obra-prima de Wilde. A montagem do Grupo Tapa merece uma espiadela pelo respeito ao autor. Nada daquele artesanato próprio de Gerald Thomas. Mosaicos são o fim da picada.
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uma porcaria eu pedi como se faz e nao a histori do sanduiche de pepino!!!!!