Archive for Fevereiro, 2004

"Nossos japoneses são melhores…"

Encontros e desencontros é um filme bobinho. É engraçado, Bill Murray perfeito, etc, mas o filme é bobinho. O tema é bom, o homem maduro seduzido pelo frescor da juventude e o frescor da juventude seduzida pelo charme da maturidade. Ficamos na ânsia pela realização de um desejo que é mais nosso do que das personagens. Eles se seguram. Não querem. Mas se seguram, até terminar aquilo tudo num selinho. Pois é, nenhum filme pode terminar num diminutivo.

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Hail Wodehouse, Hail Waugh!

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Contraponto

Li Contra o Brasil, de Diogo Mainardi. Engraçadíssimo, exalando ácido sulfúrico. A cena de Pimenta Bueno, protagonista, cavalgando sobre Aznor nos cafundós da Amazônia é hilária e ao mesmo tempo múltipla de significados. Mainardi é um escritor de primeira. Há um ano e meio eu não o lia na Veja. Tinha uma certa birra e achava seus textos sem humor, opinião condicionada a leituras esporádicas e, portanto, falha. Um amigo em Cachoeiro de Itapemirim me emprestou a novela Malthus. Se não leram, corram. É humorada. História bem costurada e um final delicioso. No final de semana entro no Polígono das secas, leitura que me fará dar uma parada na biografia de Oscar Wilde e no primeiro volume de Em busca do tempo perdido, que resolvi ler integral.

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Meu tio perguntou se eu ia ler em francês e ficou horrorizado quando eu disse que não sei patavinas (foie grass) de francês. “Você precisa aprender”. É. Preciso.

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Finish révem

Arruinado. O trabalho era um fio de lembrança num passado cheio de miasmas. Os prazeres do espírito queimados junto às cinzas do último charuto. As palavras se foram com aquele livro dado em garantia pela taça de vinho. O beijo caiu na calçada quando os cabelos dela deram adeus. Só teve certeza da hora de partir ao colocar na calcinha da stripper uma nota promissória no valor de cinqüenta reais.

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The waaall!

No Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, parte do que produziu os renomados grafiteiros Andy Warhol e Keith Haring.

Diz-me O Globo que nos trabalhos de Haring anjos e cachorros dividem espaço com referências homossexuais e ácida crítica social. O dito morreu de aids em 1990.

No caso de Warhol, são 77 polaróides tiradas entre 1975 e 1980 e posteriormente utilizadas para a confecção de suas pinturas (sic). O dito morreu em 1987, um dia depois de uma operação na vesícula.

Para dizer que não gostei antes de ver a exposição, vou deixar para falar mal amanhã.

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Rapsódia de Saulo

Trabajar era bueno en el sur, cortar los árboles,

hacer canoas de los troncos.

Ir por los ríos en el sur, decir canciones,

era bueno. Trabajar entre ricas maderas.

(Un hombre de la riba, unas manos hábiles,

un hombre de ágiles remos por el río opulento,

me habló de las maderas balsámicas, de sus efluvios…

Un hombre viejo en el sur, contando historias).

Trabajar era bueno. Sobre troncos

la vida, sobre la espuma, cantando las crecientes.

¿Trabajar un pretexto para no irse del río,

para ser también el río, el rumor de la orilla?

(Aurelio Arturo, poeta colombiano [(1906-1974])

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Ecos soteropolitanos

Turista na capital baiana. Os pobrinhos vêm em bando distribuindo fitinhas do senhor do bonfim. Puro marketing. Querem mesmo é empurrar goela abaixo os badulaques que lhes garantem o abará do almoço. Isso até passaria se eles não tivessem o desagradável hábito de feder em público. Ou de expor sem constrangimento suas crianças magras, de olhos caídos e cheias de remela e coriza. Tentam ganhar a compaixão do desgraçado turista do sudeste cheio de dinheiro exibindo sua morte e vida Severina. Eu, sujeito extremamente bondoso, fiz o que devia ser feito: jogava um pirulitinho para a criança e lascava pontapés na mamãe. Como correm essas baianas pedintes, que fôlego e resistência! Só não entendo porque não trabalham. Deve haver alguma justificativa aceitável. Bem, sem essas pessoas o que seria dos escritores da geração 90?

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Vamos falar de algo mais interessante. O preço das doses de uísque nos estabelecimentos de Salvador compensava o assalto à mão armada que era o das cervejas. Era possível beber Black Label por módicos R$ 8,00. Aqui no Rio gira em torno de R$ 10. Dois reais valem um bom gole. Achei a dose do Red a R$ 6,00. Tem um lugar aqui no Rio a R$ 6,50, mas só conto para amigos muito próximos. Em casa de um amigo de meu pai, que já o havia acertadamente prevenido, fui mimado com um terço de uma garrafa de Black e uma garrafa de Balla 12 sobre a mesa, completamente virgem, me olhava preocupada. Tal Francis, também não me lembro de uísque que não fosse excelente.

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Comi, basicamente, acarajé. Muito ocupado bebendo. O melhor daquela praça é o da Dinda, no bairro Rio Vermelho. Tempero na medida, massa crocante e os maiores camarões da cidade, com o melhor bronzeado que o dendê permite. Até chegar na mordida, uma fila de INSS, mas compensa. Se você, caro leitor, detesta essas extravagâncias gastronômicas, me diz o Guia Quatro Rodas que há bons restaurantes espalhados na cidade. Mas isso é coisa para se fazer na Itália, França etc. Quem não suporta comida típica acaba comendo o quê?: massa, comida mexicana etc. Nossa eterna vontade de sermos estrangeiros, o que não pode ser visto como algo ruim. É melhor do que querer ser funcionário público do judiciário.

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Minha amada fez olhos azuis durante duas semanas ininterruptas, mesmo com chuva e céu nublado. E ainda me fez um cafuné inacreditável. Dormi que nem sonhei.

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A flauta mágica

Alguns devem achar que Mozart, em pessoa, não vale o que escreve. Desculpem decepcioná-los. Ele escreve do jeito que fala, inclusive virgulas e pontos de exclamação, caracterizada por uma gargalhada sob a tecla mute.

“Quando o homem conhecer o íntimo de um animal, o duelo com cotonetes gigantes se tornará um esporte olímpico”.

O que posso fazer senão rir?

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A marca humana

Deixei a armadura na porta. Caminhei em linha reta pelo caminho de azulejos opacos. Cadeiras de madeira enfileiradas me olhavam desconfiadas, indiferentes à cadência de meus desejos imperfeitos. Cálices, candelabros e uma vela solitária a rezar o último terço. Fios de luz de um sol cansado projetavam minha sombra sobre a imagem de deus. As poucas palavras que pronunciei caíram no chão abrindo um enorme buraco, do tamanho do meu vazio espiritual. Sete horas de silêncio e alguns passos até os degraus de fora. Recoloquei a armadura. A chuva sujava a cidade. O céu chorava pelo filho que, mais uma vez, decidiu não voltar pra casa.

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By appointment to Her Majesty the Queen

O que eu não daria, agora, por um Famous Grouse.

(Uma secura tostada. Ligeiramente herbal, muito aromático, mentolado, sedoso e um inicio ligeiramente doce)

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