“Olha a cabeleira do zezé”
Carnaval sempre me pareceu algo tribal. Essa raiva vem de criança, quando eu queria ver desenho animado e a tevê mostrava o compacto dos desfiles. Um horror. Quando adulto, a raiva não se transformou em ódio por um fio. Foi quando descobri a maravilha que é ser indiferente a tudo o que chateia a gente (tentem para ver só como é bom).
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Mas ainda é difícil ver matérias na tevê tratando dos sambas-enredo do próximo carnaval, mostrando aquela turma com as bocas escancaradas e o rosto pingando a suor. Odeio suor. É uma coisa que contradiz o que disse acima, mas não há como virar as costas para o suor. Aquela pele brilhando, aquela gotinha gordurosa que desce sem rédeas pela testa e pára, de gozação, na ponta do nariz, acompanhando o gingado. Você pensa que ela vai cair, mas nada; balança, balança e fica ali, balançando até o sujeito ou a sujeita passar a mão e sacudir, espalhando odores.
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Outra coisa que me tira do sério é o carnavalesco, uma entidade estranhíssima. Você vê o carnavalesco (ele ou ela), concedendo entrevista ou comprando melancia na feira, e não entende como alguém, sóbrio, pode ter decidido virar carnavalesco. Outro aspecto curioso: quase todos têm a boca torta. Uma espécie de paralisia facial que ornamenta o rosto da pessoa que se dedica à mórbida tarefa de promover o carnaval.
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Sempre vi o carnavalesco como uma entidade da umbanda ou coisa que o valha. Morria de medo. O medo deu lugar à fúria. É impossível passar por um carnavalesco e não querer chutá-lo. Uma pena que eu saia tão pouco de casa.
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