Archive for Novembro, 2003
Requiém
Um cheiro doce e ardido despertou o sono. Enquanto as imagens se recompunham por entre os cílios molhados, os dedos se movimentavam com dificuldade. Algo viscoso atrapalhava a articulação. Ainda sem enxergar, passou as mãos pelos olhos. O cheiro se tornou mais forte e agora a face estava pesada e cremosa. Caminhou até o espelho do banheiro para se ver todo rubro, banhado em sangue. Acordou assustado achando ter sido pesadelo a morte da esposa e do filho. Não era. Num só golpe, acertou seus dois corações e embalsamou sua vida na caixinha preta das alianças do casamento que não houve e do filho que nem chegou a sorrir.
No commentsPastilhas Garoto
Além do suor, outra característica incivilizada é o bafo. Nenhum indivíduo sensato vai dar a menor pelota para quem tem mau hálito. Porque é impossível tocar uma conversa com quem bafeja; é impossível ficar num mesmo ambiente de quem emite odores pela boca.
Tive um colega na segunda série que sofria disso. O garotinho era discriminado à beça e duvido que tenha virado um adulto normal. Fui chamado de feio uma vez, ainda criança, e tremo quando ouço o adjetivo. Tem coisas que marcam a alma profundamente.
A insustentável leveza do ser
Essas flores roxas em volta. Essa boca molhada e falante. Essa nuca despida e arrepiada. Essas unhas pintadas. Esse sorriso postiço. Essas pernas depiladas. Esse cheiro doce de bolo de laranja.
O homem nunca entenderá a necessidade da mulher por comentários que demonstrem percepção aguda. Não adianta presenteá-la com carro, casa, jóia e toda a sorte de ambições se ela chegar em casa e você ignorar solenemente o novo penteado.
“Olha a cabeleira do zezé”
Carnaval sempre me pareceu algo tribal. Essa raiva vem de criança, quando eu queria ver desenho animado e a tevê mostrava o compacto dos desfiles. Um horror. Quando adulto, a raiva não se transformou em ódio por um fio. Foi quando descobri a maravilha que é ser indiferente a tudo o que chateia a gente (tentem para ver só como é bom).
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Mas ainda é difícil ver matérias na tevê tratando dos sambas-enredo do próximo carnaval, mostrando aquela turma com as bocas escancaradas e o rosto pingando a suor. Odeio suor. É uma coisa que contradiz o que disse acima, mas não há como virar as costas para o suor. Aquela pele brilhando, aquela gotinha gordurosa que desce sem rédeas pela testa e pára, de gozação, na ponta do nariz, acompanhando o gingado. Você pensa que ela vai cair, mas nada; balança, balança e fica ali, balançando até o sujeito ou a sujeita passar a mão e sacudir, espalhando odores.
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Outra coisa que me tira do sério é o carnavalesco, uma entidade estranhíssima. Você vê o carnavalesco (ele ou ela), concedendo entrevista ou comprando melancia na feira, e não entende como alguém, sóbrio, pode ter decidido virar carnavalesco. Outro aspecto curioso: quase todos têm a boca torta. Uma espécie de paralisia facial que ornamenta o rosto da pessoa que se dedica à mórbida tarefa de promover o carnaval.
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Sempre vi o carnavalesco como uma entidade da umbanda ou coisa que o valha. Morria de medo. O medo deu lugar à fúria. É impossível passar por um carnavalesco e não querer chutá-lo. Uma pena que eu saia tão pouco de casa.
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