Estranho, muito estranho…
“Marx não era alemão, era judeu”. Quando for preciso mentir, é melhor dizer o mínimo. O professor de história Charles Rankin, na verdade o criminoso de guerra nazista Franz Kindler (Orson Welles), perdeu a pipa nessa frase. Queria convencer o agente federal Wilson (Edward G. Robinson) de que não era quem na verdade era. Desfiando uma catilinária sobre a impossibilidade de um mundo pacífico, terminou sugerindo o que lhe parecia a solução do problema humano: extermínio.
O estranho (1946), de Welles, explora o medo dos americanos no pós-guerra, que era descobrir que o leiteiro com cara de vovô gente-boa tinha feito sabão de milhares de judeus na Alemanha nazista. A fotografia do filme é belíssima, como os demais filmes do diretor norte-americano. As tomadas, a posição da câmara de baixo para cima e a exploração primorosa das sombras são bastante parecidas com todos os outros, de Cidadão Kane (1941), o primeiro, a The Other Side of the Wind (1974), o último.
O que fazia a diferença em Welles era o olho de fotógrafo, taí porque o homem, que nos anos 1940 ficou doido pela noiva do diretor brasileiro Anselmo Duarte, o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, pelo O Pagador de Promessas, explorava tanto os ambientes fechados. E quando as tomadas eram externas, evitava os cortes, fazendo com que a câmara acompanhasse os atores, basicamente fechada neles. O único problema de Welles é fazer o mesmo papel em todos os filmes, só trocando a maquiagem (ele preto, como Othello, é insuperável), a exemplo de Woody Allen, que nem pó-de-arroz usa.
Kindler era um fugitivo, apresentado como a cabeça má e brilhante do terceiro reich. Mais cruel e sedutor que Goebells e seu nariz adunco. Na pequena cidade de Conneticut esconde-se do mundo, como o exigente professor que se casa com a prendada Mary Longstreet (Loretta Young), filha do juiz presidente do Supremo Tribunal Federal, Judge Longstreet (Philip Merivale). O engraçado é que essas coisas não mudam. As pessoas continuam escolhendo esposas e maridos para se tornarem insuspeitos, não importam se já foram evangélicos, maçons ou corretores de seguros.
Pelo tema, ninguém espere um final que não seja feliz. O anjo da morte, dessa vez, não foi Joseph Menghele. Mas apareceu.
Epílogo
Afinal, Marx era judeu, alemão ou marxista?
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