Archive for Outubro, 2003

De profundis (sem piadinha, ô!)

Há semanas não tenho ânimo para esgrimar com as palavras. Problemas de um lado, canalhices de outro, uma vileza aqui outra ali e eu sempre cético quanto à integridade da maioria dos seres humanos. Detesto escrever com ódio porque receio ser bondoso demais com o alvo. Mas devia. Ao menos este manancial de coisas desimportantes seria atualizado com pontual regularidade.

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A turma do funil

Ele é carioca

Já disse uma vez: Rafael Lima segue em busca da construção de seu mito carioca. E como escreve, o danado. Dizem que até o Fradinho gostou.

O histriônico

Alexandre Soares Silva, impagável, falando sobre seu segundo (e excelente, e fenomenal, e charmoso, e sensacional) livro:

“Não é o primeiro romance brasileiro sem jegue (cheguei tarde); mas deve ser o primeiro romance brasileiro publicado em 2004 completamente livre de traficantes”. Esse rapaz não para de me surpreender.

O cavalheiro

Fábio Rossi alia gentileza e sátira. Um grande frasista e um grande debochado.

Um clássico do popular

Dante talvez seja o único representante do humor de Ivan Lessa. Cada texto, mais impagável.

Celebridades

Polzonoff ampliando sua fama de cabra mau, agora no nordeste. Êita!

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Estranho, muito estranho…

“Marx não era alemão, era judeu”. Quando for preciso mentir, é melhor dizer o mínimo. O professor de história Charles Rankin, na verdade o criminoso de guerra nazista Franz Kindler (Orson Welles), perdeu a pipa nessa frase. Queria convencer o agente federal Wilson (Edward G. Robinson) de que não era quem na verdade era. Desfiando uma catilinária sobre a impossibilidade de um mundo pacífico, terminou sugerindo o que lhe parecia a solução do problema humano: extermínio.

O estranho (1946), de Welles, explora o medo dos americanos no pós-guerra, que era descobrir que o leiteiro com cara de vovô gente-boa tinha feito sabão de milhares de judeus na Alemanha nazista. A fotografia do filme é belíssima, como os demais filmes do diretor norte-americano. As tomadas, a posição da câmara de baixo para cima e a exploração primorosa das sombras são bastante parecidas com todos os outros, de Cidadão Kane (1941), o primeiro, a The Other Side of the Wind (1974), o último.

O que fazia a diferença em Welles era o olho de fotógrafo, taí porque o homem, que nos anos 1940 ficou doido pela noiva do diretor brasileiro Anselmo Duarte, o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, pelo O Pagador de Promessas, explorava tanto os ambientes fechados. E quando as tomadas eram externas, evitava os cortes, fazendo com que a câmara acompanhasse os atores, basicamente fechada neles. O único problema de Welles é fazer o mesmo papel em todos os filmes, só trocando a maquiagem (ele preto, como Othello, é insuperável), a exemplo de Woody Allen, que nem pó-de-arroz usa.

Kindler era um fugitivo, apresentado como a cabeça má e brilhante do terceiro reich. Mais cruel e sedutor que Goebells e seu nariz adunco. Na pequena cidade de Conneticut esconde-se do mundo, como o exigente professor que se casa com a prendada Mary Longstreet (Loretta Young), filha do juiz presidente do Supremo Tribunal Federal, Judge Longstreet (Philip Merivale). O engraçado é que essas coisas não mudam. As pessoas continuam escolhendo esposas e maridos para se tornarem insuspeitos, não importam se já foram evangélicos, maçons ou corretores de seguros.

Pelo tema, ninguém espere um final que não seja feliz. O anjo da morte, dessa vez, não foi Joseph Menghele. Mas apareceu.

Epílogo

Afinal, Marx era judeu, alemão ou marxista?

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