Fábulas fabulosas (© Millôr)

Certo dia, dois camundongos (Big e Mac) se arrastavam em busca de um queijinho, ralado que fosse. Esfregaram seus corpinhos no chão durante horas, salivando secamente enquanto conversavam sobre o rato que, dizia-se pelas tubulações, havia jantado um camundongo numa discussão sobre Tales de Mileto. O horror da população roedora era porque o comentário dava conta de um artifício de retórica usado pelo ratinho malvado: a hipérbole bizarra.

A partir daquilo, o rato passou a ser atacado por vários camundongos que discutiam se o que ele disse era aquilo o que ele disse ou se o que ele havia dito era diferente do que queria dizer. Finalmente, um naco de queijo. Big e Mac começaram a degustação, embalada pelas considerações sobre o ardil 22. Big, versado em Eliphas Levi e Marilena Chauí, avançou sobre a inteligência do ratinho maldoso: “devia ler Aristóteles, antes de dizer aquelas bobagens”, mal sabendo que o malvado ratinho havia lido o grego, em grego. Mac, do auto da compadecida, bradou aos ventos, aos seixos e à purpurina. Invocou seus conhecimentos jurídicos e quis retomar Talião. Falou até em levar o sofista roedor ao tribunal, sob vara, se preciso fosse. O papo durou mais algumas horas e Mac ficou com soninho. Para arrematar sua blague com Big, roeu o último pedaço e salpecou: “e tem mais, não quero mais saber dessa conversa chata. Eu vou é assistir o jogo do meu fluminense”.

Mobral da história: nunca discuta com camundongo que lê Marilena Chauí ou que torça pro Fluminense. Dá sapinho.

Posfácio: o ratinho malvado continua irascível.

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