O fundamental é começar cedo
O mundo, para mim, sempre oscilou desatinado. Os up and down da vida afetiva, econômica e, principalmente, sexual, me parecem estranhos desde que a carestia me bateu a porta pela prima vez. Pirralho, buscava uma constância fluída, difícil de explicar e, mais ainda, de ser entendida pelos outros guris, companheiros de pelada (o jogo, o jogo!).
Naquela de menino deslocado que não perdia a piada, pisava sobre os colegas e amigos sem que eles entendessem a sátira juvenil — graças aos antecedentes germânicos do meu avô, que desde cedo me treinou na arte do sarcasmo e da cruel gozação.
Tergiversei para dizer o seguinte: enquanto eu via todos buscarem a felicidade, aquelas cócegas de cinco minutos no estômago, este que vos fala queria o bem-estar. O bem-estar que, anos e anos depois, descobri chateado não ser um desejo solitário ou uma invenção individual, magistral, por sinal. Que eu, por algum problema na reencarnação, havia guardado na memória o que Aristóteles já falava há séculos: que o bem-estar era algo infinitamente melhor que a felicidade, etc.
Por favor, não me tomem como um cdf certinho, que arruma as gravatas sempre na mesma ordem, idem talheres, idem revistas, idem fotos de ex-namoradas (se bem que eu sempre compro roupas iguais, da mesma cor preta, mas isso é outra história…). O que quis (quero) desde o início é sentir o oxigênio chegar aos pulmões de quando acordo até na hora do desmaio noturno — sim, porque só durmo nas últimas; resisto até o último fio de consciência. Porque quando algo vai mal, o primeiro sintoma é a sensação de asmático que não sou. O peito dá quiques ligeiros, a barriga contrai, os braços logo dormentes. E isso, meus caros, me transforma em doente terminal por breves intervalos de tempo, o que, cá pra nós, não é algo para se gabar por aí.
Detesto, porém, a monotonia de uma vida prescrita. Mas, ingênuo, quero decidir quando devo enfrentar piruetas solitárias ou dar cambalhotas em público. O problema, ipso facto, é este: sentir-me por cima da carne seca; o manda-chuva do bairro Peixoto. Sofrer por causas desconhecidas é algo que amplia os sofrimentos eventuais e diários.
Uma vez, uma única vez, na adolescência, tentei conversar com um amigo sobre tais dúvidas que, na minha cabecinha oca, eu tomava por delírios provocados por hormônios selvagens, muito comuns naquela idade. O amigo, ouviu atentamente, com cara séria. À minha cara de súplica, solicitando pateticamente uma resposta que me livrasse daquilo tudo, ele esbofeteou: “acho que você precisa de uma namorada”.
Isso era o óbvio e hoje vejo que teria mandado às favas 90% de meus problemas se tivesse começado a ler na infância e a beber uísque na adolescência.
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