Archive for Julho, 2003

By Appointment to Her Majesty

O que eu não daria, agora, por um Ardberg.

(Final: Perfumado, quente, confortável e sedativo)

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Os protos

“Em 1942, quando tinha dez anos, recebi o Primeiro Prêmio Provincial do Ludi Juveniles (uma competição voluntário-compulsória para jovens fascistas italianos, isto é, para todos os jovens italianos). Eu discorrera com destreza retórica sobre o tema: “Deveríamos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália? Minha resposta foi afirmativa. Eu era uma criança esperta (Umberto Eco).”

Lendo esse texto foi impossível não lembrar dos protofacistas cibernéticos. Uma pena não terem, ao menos, humor, nem serem crianças espertas.

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A importância de ser… ah! vocês sabem.

Certo dia, ninando um mimo de oito anos, conversava com um amigo sobre a importância de ser Ernesto (earnest). Ele, embora desse a entender que concordava, assumiu o golpe do gole e disse candidamente ser a favor do corte de orelhas. “Como?” Sim, do corte de orelhas a mulheres com falso topete aristocrático. Daquele tipo que finge, da respiração ao banho com sais. Seria um símbolo, então, que divertiria meu amigo ao olhar faces sem orelhas. Tentei argumentar contra a travessura, mas ele passou a rir desatinado — confesso ter ficado com um certo receio de importuná-lo naquele momento sublime de maldade. Sem ver recuos no chiste, passei a compartilhar bizarrices, imaginando mutilações naquelas pessoas que vieram ao mundo para incomodar. “Fulano ficaria ótimo sem o dedo mindinho”; “Sicrano, só com o toquinho da perna esquerda, nunca mais chutaria gatos”; “Ah, Beltraninha da faculdade, que me trocou pelo automóvel do recém-formado, ficaria ótima sem a pontinha daquele nariz que causava fricotes”. Visivelmente inebriados no final da madrugada, adormecemos em sofás separados, cada qual empunhando fragilmente faquinhas decepadoras de queijos e pazinhas trituradoras de patê de fígado de ganso.

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Uma vida a um

Há momentos de reclusão necessária, outros em que a mudez é absolutamente fundamental. Você vê passarinhos se esgoelando; querem ser ouvidos. Você observa hienas sedentas por indivíduos menores; se satisfazem com qualquer brisa de superioridade. Você tolera tamanduás desagradáveis, aspirando formigas sob seus pés. Mas chega uma hora que o que você mais quer é, singelamente, colocá-los todos num moedor manual, ao som, claro, da Marselhesa. Ninguém entende como podem ser, above all the others, tão velhacos.

E eu ia falar sobre solidão.

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Scola de mulheres

“Nós que nos amávamos tanto”, de Ettore Scola, resume a que estamos limitados.

Os amigos, jovens, soldados na guerra durante a resistência italiana nos anos 40, amizade acima de tudo, nem o tempo nem as responsabilidades, acreditam, vão separá-los. Se reencontram anos depois, dois deles, o primeiro (Nino Manfredi) com uma namorada (Stefania Sandrelli). Apresenta-a ao amigo (Vittorio Gassmann) que, claro, mete a na mão na cumbuca alheia e a alheia cede de bom grado. Obviamente, os recentes ex-amigos saem no maior pau.

Anos depois, o amigo traído reencontra a dita. Sozinha de novo, ela se insinua com olhares. Ele a apresenta ao outro amigo (Stefano Satta Flores), professor e crítico de cinema. Andam pela madrugada. O cara cai na real e só não, como direi, molesta a mulher porque dá a entender ser um sujeito educado, o que não o impede de alguns impropérios. Bom, o amigo fez que foi com o primeiro amigo, voltou e acabou, igualmente metendo a mão na cumbuca alheia e a alheia, novamente, cedeu.

Os três amigos de dantes se separam. A mulher, como sempre, venceu a amizade. A culpa, claro, não pode ser creditada apenas na conta da tal. O homem, com essas facilidades, também passeia por várias mulheres sem a menor piedade. E se vira alvo, é capaz de chutar o traseiro do irmão para amassar lençóis com qualquer voluptuosa que lhe abale a carne.

Estamos sempre condenados à conquista e as fracassos da sedução. O sujeito mais amargo é o que perdeu a mulher, não o que dilacerou a fortuna.

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O fundamental é começar cedo

O mundo, para mim, sempre oscilou desatinado. Os up and down da vida afetiva, econômica e, principalmente, sexual, me parecem estranhos desde que a carestia me bateu a porta pela prima vez. Pirralho, buscava uma constância fluída, difícil de explicar e, mais ainda, de ser entendida pelos outros guris, companheiros de pelada (o jogo, o jogo!).

Naquela de menino deslocado que não perdia a piada, pisava sobre os colegas e amigos sem que eles entendessem a sátira juvenil — graças aos antecedentes germânicos do meu avô, que desde cedo me treinou na arte do sarcasmo e da cruel gozação.

Tergiversei para dizer o seguinte: enquanto eu via todos buscarem a felicidade, aquelas cócegas de cinco minutos no estômago, este que vos fala queria o bem-estar. O bem-estar que, anos e anos depois, descobri chateado não ser um desejo solitário ou uma invenção individual, magistral, por sinal. Que eu, por algum problema na reencarnação, havia guardado na memória o que Aristóteles já falava há séculos: que o bem-estar era algo infinitamente melhor que a felicidade, etc.

Por favor, não me tomem como um cdf certinho, que arruma as gravatas sempre na mesma ordem, idem talheres, idem revistas, idem fotos de ex-namoradas (se bem que eu sempre compro roupas iguais, da mesma cor preta, mas isso é outra história…). O que quis (quero) desde o início é sentir o oxigênio chegar aos pulmões de quando acordo até na hora do desmaio noturno — sim, porque só durmo nas últimas; resisto até o último fio de consciência. Porque quando algo vai mal, o primeiro sintoma é a sensação de asmático que não sou. O peito dá quiques ligeiros, a barriga contrai, os braços logo dormentes. E isso, meus caros, me transforma em doente terminal por breves intervalos de tempo, o que, cá pra nós, não é algo para se gabar por aí.

Detesto, porém, a monotonia de uma vida prescrita. Mas, ingênuo, quero decidir quando devo enfrentar piruetas solitárias ou dar cambalhotas em público. O problema, ipso facto, é este: sentir-me por cima da carne seca; o manda-chuva do bairro Peixoto. Sofrer por causas desconhecidas é algo que amplia os sofrimentos eventuais e diários.

Uma vez, uma única vez, na adolescência, tentei conversar com um amigo sobre tais dúvidas que, na minha cabecinha oca, eu tomava por delírios provocados por hormônios selvagens, muito comuns naquela idade. O amigo, ouviu atentamente, com cara séria. À minha cara de súplica, solicitando pateticamente uma resposta que me livrasse daquilo tudo, ele esbofeteou: “acho que você precisa de uma namorada”.

Isso era o óbvio e hoje vejo que teria mandado às favas 90% de meus problemas se tivesse começado a ler na infância e a beber uísque na adolescência.

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La nave volta

As costelas estalando; o fio de baba congelado ao redor do pescoço; a coluna doída; a alma mais rabugenta; a língua mais afiada. Voltei, voltei. Senão com festa, com um breve lamento feliz. Turma, a cá estou, tinindo, tinindo.

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